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14 - VISITA AO “PAREDÃO”

  • Foto do escritor: Antônio Tupinambá
    Antônio Tupinambá
  • 4 de set. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 21 de nov. de 2025



Antonio Tupinambá

AAML, Cad. 40-EM

03/09/2023

 

A convite do senhor Danilo, fiz hoje uma visita ao “Paredão”. Na verdade, à Escola de Iniciação Agrícola do Amazonas, que existiu até a sexta década do século Passado, onde fui estudante interno desde o ano de 1960 até o ano de 1962. O senhor Danilo também foi estudante interno da mesma Escola, na mesma época. Para nós, daquele lapso de tempo, nossa escola era o “Paredão”, denominação possivelmente decorrente de um grande deslizamento de terra há muitas décadas, possivelmente centenas de anos, na localidade onde hoje está instalada a sede da Marinha do Brasil na Amazônia Ocidental, deixando como rastro uma grande parede de terra, muito íngreme, que na nossa época de internos daquela instituição servia de brinquedo para disputas de subidas e descidas pelos estudantes “pequenos”.

Quando aceitei o gentil convite do senhor Danilo, acendeu em mim o fogo do inexplicável saudosismo que acomete certas pessoas quando lembram momentos alegres de suas vidas. E para mim, provindo do beiradão desse rio Amazonas de muitas histórias, aqueles três anos de internato foram momentos de alegria. Foram como uma colônia de férias quando comparados com o labor diário do menino interiorano que em vez de brinquedos tinha nas mãos um terçado (facão), uma enxada, um machado, e outros instrumentos que utilizava para ajudar o pai nos trabalhos da agricultura de subsistência lá naquelas paragens inóspitas; que em vez e guloseimas, tinha à sua disposição caniços, espinhéis, “curumins” e outros instrumentos de pesca para, substituir o hodierno supermercado por uma “vou  bem ali, no igapó”, buscar as refeições do dia.

A ansiedade entrou em mim sem pedir licença, e cinco horas da manhã de hoje eu já estava de pé, pronto para, depois de exatos sessenta anos, retornar ao meu nunca esquecido “Paredão”, rever meus contemporâneos, as salas de aulas, o dormitório, o refeitório, a capela aonde às terças-feiras íamos buscar conforto espiritual... Queria rever as ingazeiras que ladeavam aquela imensa escadaria, e por onde, passando de galho em galho em busca de seus frutos para amenizar a incessante fome de adolescente, chegava à última, já quase ao final da escada.

Fui um dos primeiros a chegar ao local do encontro de onde sairíamos em comboio para a visita autorizada pela Marinha. Enquanto esperávamos a hora certa, outros convidados foram chegando. Todos, senhores encanecidos, com a passagem dos anos registrada nos seus corpos já fragilizados. Todos irreconhecíveis para mim, e essa descoberta foi emocionalmente impactante, talvez decepcionante.

Observando as rodas de conversa que se construíam com a chegada de novos convidados, ficou claro que quase todos eram ilustres desconhecidos entre si. Mas, quando um daqueles senhores responde a outro perguntas como “em que ano você estudou”, “qual era o teu número”, ou “qual era teu apelido”, de repente explode entre esses dois um mundo de felicidade, materializado em abraços, sorrisos, gargalhadas... Depois eram só lembranças das peraltices de então!

Fiquei triste quando alguém chamou pelo nome de “Rui” a alguém que acabara de chegar. Aproximei-me daquele senhor e perguntei: Rui de Oliveira Gomes? Ele disse sim. Estendeu sua mão para mim, falei meu nome e meu número, perguntei sobre seu irmão Odilon, mas percebi que ele não me reconheceu. Insisti, mesmo assim, ele, que foi para mim de grande significado, não lembrou. Certamente da mesma forma e pelas mesmas razões que já não me lembro do nome de muitas pessoas do meu passado, nem de suas feições.

Na hora certa saímos em comboio de veículos rumo ao “Paredão”.

No caminho, eu ia tentando encontrar as paisagens daquele passado já muito distante da minha meninice: o nosso campo de futebol, as ruas e casas dos funcionários da Escola, o flutuante, onde íamos nos refrescar nas águas do rio Negro ao final da tarde...  e saíamos de lá grudentos de óleo queimado provindo dos navios que aportavam na nossa vizinha Refinaria de Petróleo. Nada. Tudo diferente! De todo aquele mundo da minha adolescência restou apenas a Capela, a Escadaria e as ruínas daquilo que foi a casa do poço artesiano que abastecia de água nossa escola, construído manualmente pela liderança do professor Otto Dias, com a ajuda de funcionário e de alguns dos alunos “grandes”, e hoje abraçada por um apuizeiro que serve de guardião e protetor daquele pedacinho das nossas memórias. Tudo cedeu lugar a novas instalações que guarnecem o Complexo Naval do Rio Negro, onde, diga-se de passagem, fomos muito bem recebidos e ciceroneados por oficiais daquela corporação.

Mesmo assim, enquanto caminhávamos pelos novos espaços do antigo “Paredão”, eu ia revivendo cada momento do meu tempo de estudante naquele local. Posso dizer que ali eu fui feliz; que ali plantei as sementes que me transformaram na arvore que hoje está dando sombra à minha velhice.

Ao final da visita, fui agraciado com uma cópia do “Hino da Escola de Iniciação Agrícola do Amazonas”, pelo contemporâneo José Maia (1959-1960). Esse mimo me levou às manhãs de educação física daquela época, quando nosso professor nos fazia entoar um hino que nunca saiu da minha memória:

Somos soldados da agricultura!

Para o Brasil vamos cantar os nossos feitos

Com bravura, deste solo hão de brotar.

Há de vencer, nosso trabalho

E a colheita abundar.

Braços arando, mãos semeando

O solo pátrio varonil.

Tudo pra glória do meu Brasil.

Pra terra virgem, só o arado!

Ordem e Progresso, lado a lado!

 

Eu sou o “Tupinambá”, que estudou no “Paredão” nos anos de 1960-1962. Meu número de matrícula era 32; meu apelido, vários: “Ceguinnho do Cambundá”, “Moleira Mole”, “Birino”...

Faço estes registros na esperança de que cheguem a todos aqueles que hoje estiveram comigo visitando nosso saudoso “Paredão”

Saudades!

3 comentários


Frank Chaves
24 de dez. de 2025

Excelente narrativa de suas vivências memórias de priscas eras do Paredão, onde fostes um dos alunos daquele ambiente escolar que lhe deixou marcas profundas, como profunda foi a emoção de seus colegas reencontrar, uns com lembranças, outros nem tanto, o importante que fostes o filho prodigo e voltou a casa paterna, más não estava mais nem a casa, somente a igreja, para mostrar que Deus, nosso pai, com com sua onipresença sempre lá estará ou em qualquer lugar quando dele possamos precisar. E que conforme suas palavras, tudo passará, menos as suas palavras.

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Antônio Tupinambá
Antônio Tupinambá
24 de dez. de 2025
Respondendo a

Muito obrigado, querido amigo, por tão gentis palavras.

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Convidado:
05 de set. de 2025

Histórias que nunca desfaz as nossas origens TFA

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