VAMOS TOMAR A SAIDEIRA?
- José H. C. Abreu

- há 6 dias
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Por José H. C. Abreu
Havia um tempo em que a política brasileira cabia inteira numa mesa de bar, não nas mesas gourmetizadas de hoje, onde o sujeito pede IPA artesanal com espuma aromatizada e tira foto do copo antes de beber.
Falamos das antigas mesas de fórmica, encardidas, rodeadas por homens que discutiam o destino da nação enquanto o garçom equilibrava nos braços aquelas garrafas monumentais de cerveja, quase um litro de combustível filosófico nacional.
Naquele Brasil de apenas dois partidos, o povo acr¡!!nnneditava que a democracia podia nascer entre uma dose de indignação e outra de cevada quente, a oposição era feita no grito, o patriotismo vinha acompanhado de torresmo e a Constituição moral do país era redigida em guardanapos manchados de gordura e havia um ritual sagrado chamado SAIDEIRA que nunca significou exatamente ir embora, pelo contrário, era apenas o primeiro estágio da permanência infinita com o sábio da mesa, geralmente o mais bêbado e também o mais lúcido, explicando que era impossível encerrar a noite antes de cumprir todas as letras da palavra.
S de “Só mais uma”, A de “Agora vai”, I de “Insiste não”, D de “Depois dessa acabou”, E de “Essa é a última”, I de “Impossível levantar”, R de “Rapaz, traz outra” e A de “Agora acabou mesmo”.
E assim o país sobrevivia e entre promessas de encerramento que nunca se cumpriam e discursos que começavam revolucionários mas terminavam em abraços melancólicos no meio-fio.
Foi naquela atmosfera de fumaça, cerveja e suspeita ideológica que nasceu a frase atribuída ao general-presidente João Figueiredo, alertando que se determinado sindicato um dia chegasse ao poder o COMUNISMO seria institucionalizado.
O curioso é que o Brasil, como sempre, resolveu fazer tudo ao contrário do roteiro já que o comunismo ainda não veio, mas a corrupção resolveu se profissionalizar e virou carreira pública, abriu filial, criou ministro como assessor de imprensa e ganhou comentarista de televisão para explicar o inexplicável.
Hoje, o que antes era negociado em balcões esfumaçados parece decidido em adegas ministeriais abastecidas não mais por cerveja, mas por litros metafóricos de cachaça institucional provocando uma embriaguez mais perigosa, porque já não afeta apenas o fígado nacional — afeta a memória coletiva e o brasileiro, especialista mundial em rir da própria tragédia, transformou a desesperança em MEME, talvez porque rir seja mais barato que terapia e talvez porque ironia seja o último combustível de um povo cansado.
Ou ainda talvez porque, diante do espetáculo diário da política tropical, só existam duas alternativas: chorar ou abrir outra garrafa de CACHAÇA.
Nesse cenário, surge o cronista moderno, não mais armado de máquina de escrever, mas de celular, sarcasmo e indignação digital que observa ministros discursando como se fossem profetas da moralidade enquanto tropeçam em escândalos com a elegância de um bêbado tentando dançar bolero em piso molhado e então ele produz memes. Milhares deles criando uma espécie de documentação histórica não oficial da decadência nacional.
Isso porque o meme brasileiro deixou de ser apenas piada e tornou-se linguagem de resistência, caricatura social, editorial instantâneo e ata humorística do absurdo.
No fundo, o Brasil inteiro virou uma enorme mesa de bar, os economistas fazem contas que ninguém entende, os políticos juram que agora vai, os analistas prometem recuperação e o povo continua pagando a rodada.
Mas há algo poeticamente brasileiro nessa persistência coletiva, já que mesmo quando tudo parece desmoronar, alguém ainda encontra forças para dizer: — “Calma… só mais uma saideira.”
E talvez esteja aí a grande metáfora nacional com o brasileiro em festa, mesmo sem dinheiro, mesmo sem esperança, mesmo sem coerência correndo sempre atrás da SAIDEIRA, acreditando que falta pouco para ir embora, enquanto alguém discretamente chama o garçom e pede outra rodada para a mesa inteira.
Agora estamos em MAIO e como todo grande frequentador de botequim sabe, maio é apenas o início da palavra e ainda restam 7 letras, restam copos, restam discursos, restam escândalos e sobretudo, restam memes.
Porque neste país, onde a realidade humilha a ficção diariamente, o humor deixou de ser entretenimento e virou equipamento de sobrevivência, senão vejamos: (S) MAIO, (A) JUNHO, (I) JULHO, (D) AGOSTO, (E) SETEMBRO, (I) OUTUBRO, (R) NOVEMBRO e (A) DEZEMBRO.
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Como disse o ladrão a Rui Barbosa, depois de ouvir um belo discurso que o ofendia e sem entender p nenhuma: "e aí doutor, eu levo ou eu deixo o pato".