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UM NATAL DIFERENTE

  • Foto do escritor: Antônio Tupinambá
    Antônio Tupinambá
  • 16 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura


Hoje recebi do meu querido Irmão Eduardo Brizzi a primeira mensagem de Natal deste ano. Quero dizer o quanto fico agradecido por esse gesto simples, mas de grande significado, pelo simbolismo que ele representa. Esse gesto me fez lembrar de um texto que escrevi há oito anos atras, pela passagem do Natal de 2017. Eis o texto.

 

 

 

*********

 

 

Antonio Tupinambá

Natal de 2017

 

Desde que me entendo como gente, esta não é, e nunca foi, uma boa época para mim.

É o primeiro Natal sem minha mãe e sem meu pai. Ela, faz duas décadas que se foi; ele, há quatro meses. Só essa realidade bastou para, nesta semana, cobrir-me com o véu da melancolia.

Hoje, especialmente, amanheci pensativo. Um filme passando continuamente em minha mente, sempre com imagens recorrentes da minha infância, associadas a conceitos e fantasias que foram se incorporando ao meu patrimônio sociocultural ao longo dos anos.

O dia, 24. mês de dezembro. Era o ano (imagino) 1949. Eu com quatro anos de nascido (talvez mais, talvez menos). Nos dias de hoje, era o ápice da idade da fantasia, com destaque para Papai Noel, sua carruagem conduzida por renas esvoaçantes, carregada de brinquedos, entre eles aquele mais desejado no sonho de qualquer criança hodierna. Mas ali, naquelas paragens ermas, não existia Papai Noel. Pelo menos nunca ouvi falar nele. Era apenas a nossa família: meu pai, minha mãe, eu e meu irmão, ainda um bebê de colo.

Quase setenta anos atrás.

O ambiente, nossa casa na Costa do Itapará, um desses beiradões perdidos na margem direita do rio Amazonas, ao largo da civilização, longe de qualquer vizinho.

Como se fora ontem, lembro meu pai chegando do lago que ficava por detrás da nossa casa, lá pelas nove horas da manhã, trazendo o produto da pesca para o preparo do almoço, como de ordinário ocorria. Minha mãe, que passara até aquele momento cuidando das coisas de casa, da roupa, das suas plantas, das suas galinhas e de outras aves e animais da sua criação, não tinha tido tempo suficiente pra providenciar a lenha necessária ao preparo do almoço no fogão de barro. Coube a meu pai fazer isso.

Machado em punho, lá foi ele para o aceiro do terreiro, onde, cerca de cem metros da casa, logo no início da capoeira, existia uma árvore (um Mulateiro?) caída entre pequenos arbusto e cipós, que o tempo tornara propícia para servir de lenha. Enquanto isso minha mãe cuidava de limpar os peixes, e providenciar tudo na cozinha, de maneira que o almoço estivesse pronto no horário certo, ao meio-dia.

Lembro-me de um grito, e de minha mãe em desabalada corrida rumo ao local para onde meu pai havia ido. A próxima lembrança é a dele estirado no assoalho de casa, em meio a uma poça de sangue, enquanto minha mãe se dividia em tentar fazer alguma coisa para estancar aquele sangue e correr para a beira do barranco à margem do grande rio, a gritar por socorro, a plenos pulmões, chamando um parente que residia no outro lado do rio, cerca de uns dois quilômetro de distância.

Lembro da chegada do parente chamado, e de algumas das providências por ele tomadas para controlar a situação, inclusive o estado emocional de minha mãe que não parava de gritar.

Eu ali, olhando de longe, sem saber exatamente o que se passava, mas aterrorizado, nem tanto pelo que estava acontecendo com meu pai, mas, especialmente, porque estava vendo minha mãe tomada pelo descontrole emocional, a chorar compulsivamente, e a me contagiar com seu pavor.

A partir daquela data, em todas as vésperas de Natal minha mãe lembrava: “hoje faz anos que o pai de vocês se cortou”. E recontava a história. Naquele dia, quando ele levantou o machado para sacar a primeira haste de lenha, um cipó desviou o rumo da machadada e levou a lâmina da ferramenta para entre o dedão e o segundo dedo do pé, partindo-o. Sem médico, pronto-socorro, medicamentos, ou qualquer outro meio que a modernidade oferece para essas situações, minha mãe afirmava que “só a providência divina auxiliou no tratamento”, e agradecia ao parente Arico pela obra de caridade que fez.

 

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Enquanto criança, e mesmo depois de adulto, essa época me remetia, e ainda hoje me remete, a momentos depressivos porque brotam em mim lembrança daquele dia,

2 comentários


Convidado:
16 de dez. de 2025

Feliz Natal Tupi que o grande arquiteto do universo prolongue seus dias lhe conservando bem e cheio de alegrias boas de viver o sr. É raridade 💎

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Karine
19 de dez. de 2025
Respondendo a

É papai tem lembranças que nunca mais saem de nossas cabeças , umas dolorosas e outras muito felizes . Te amo muito papai.

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