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4 - TIRADENTES MAÇOM?

  • Foto do escritor: Antônio Tupinambá
    Antônio Tupinambá
  • 8 de ago. de 2025
  • 19 min de leitura

Atualizado: 26 de nov. de 2025



Antonio Tupinambá–M.A.R.

20/07/2021

 

 

Em busca de Conhecimento e Sabedoria, já caminhei por muitos anos na Senda da Iniciação.  Percebi desde cedo que o Grande Arquiteto do Universo não me prodigalizou com a dádiva da Sabedoria, mas inculcou no meu SER a curiosidade sobre fatos relacionados com a existência do homem neste plano material.  Nos meus primeiros passos pelos átrios dos Templos da Maçonaria, ouvi ensinamentos que atuavam na minha mente de forma a revigorar ou experimentar os mais diversos sentimentos que acometem o homem, esse ser espiritual e sociopolítico.  Muitas vezes senti o fogo do sentimento patriótico percorrer minhas artérias, quando ouvia discursos inflamados sobre a participação da Maçonaria na Inconfidência Mineira, por exemplo.  Nesses momentos, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, era o mais nobre de todos os heróis, porque sua luta pela então sonhada Independência estava diretamente relacionada com a sua condição de Maçom. Aprendi, destarte, que a Conjuração Mineira foi obra da Maçonaria.

Tiradentes era Maçom!  Algo como uma auréola envolvia a imagem daquele mártir, chegada até nós pelo poder da imaginação de historiadores e desenhistas de todas as épocas.   Eu, também Maçom, ficava como que em êxtase, fantasiando cenas da Iniciação de Tiradentes – iguais àquelas que aconteceram comigo numa inesquecível tarde de sábado, 04 de outubro de 1975. 

Como eram as Lojas de então?  Como eram ministradas as instruções?  Onde os Veneráveis Mestres iam buscar a orientação doutrinária para despertar o sentimento cívico que movia os maçons brasileiros, muito especialmente o Irmão Tiradentes?   E ele?  Como era o Aprendiz, depois o Companheiro e, mais tarde ainda, o Mestre Tiradentes?  Quem foi o Maçom que o apresentou como candidato à Maçonaria e qual a Loja que teve a honra de lhe restituir a Luz que lhe fora retirada por alguns momentos para atender aos reclamos da simbólica maçônica?  Como foi a ágape por ele oferecida aos Irmãos que participaram dos trabalhos litúrgicos?  E por aí afora...

Algumas vezes tentei encontrar as respostas, para essas e outras questões, perguntando a Irmãos mais antigos, tidos como conhecedores profundos de toda essa estória.  O que eu ouvia, desses Irmãos, não satisfazia as minhas necessidades de CONHECIMENTO, ou porque eles resumiam tudo a um “ainda não chegou seu tempo de saber dessas coisas”, ou porque diziam coisas desconexas, que contraditavam com a História. Busquei, então, informar-me com os historiadores.

Tito Lívio[1] ensina que é falsa a tese de muitos historiadores para quem a ideia da independência foi devida a sentimentos nativistas. E nisso ele tem razão.  Para esse autor, os homens das Américas tomaram conhecimento de um movimento iniciado na Europa com a finalidade de destruir os fundamentos da Monarquia absolutista, encabeçado por maçons de duas ordens da Maçonaria: a “Azul”, favorável à monarquia constitucional e parlamentar, cujo modelo era a Inglaterra, e a “Vermelha”, favorável à emancipação completa, com a nova forma de governo, a República, deixando entrever que o movimento encabeçado por Tiradentes tinha como objetivo apenas destruir o sistema de governo monárquico então vigente e implantar o sistema republicano.  De onde Tito Lívio, que não era maçom, retirou essa última informação, e outras daqueles que o tem como fonte secundária histórica, e ensina que Tiradentes era maçom, ele não disse.

A Inconfidência Mineira é considerada o primeiro movimento pela independência do Brasil[2] na busca de democracia e de uma república (Erick de Sarriune Cysne, 2006), isso segundo a história oficial ensinada nas escolas.  Até hoje aquele movimento guarda seus segredos no tocante ao papel dos Maçons, especialmente sobre Tiradentes.  O movimento, provocado pelo descontentamento com o governo português, foi iniciado em 1788 e terminado em maio de 1789.

Alguns jovens intelectuais egressos de universidades europeias retornaram ao Brasil iniciados na Maçonaria, trazendo de além-mar para as Minas Gerais o ideal de liberdade, democracia, independência e república. Entretanto, Cysne afirma que não há a certeza da existência de uma Loja Maçônica à época e por isso, uma grande especulação se faz sobre a Iniciação de Tiradentes. A falta de documentação da época, aliada à destruição da casa dos inconfidentes, dificulta a certeza, diz ele.

O historiador maçônico Frederico Guilherme Costa[3] teve o cuidado de mencionar suas fontes primárias quando afirmou que a primeira Loja fundada no Brasil foi a “Cavaleiros da Luz”, em 14 de julho de 1797, na povoação da Barra.  As sessões que antecederam à fundação foram realizadas a bordo da Fragata “La Preneuse”, enquanto ancorada na Bahia.

Observe-se que, como dito acima, o movimento liderado por Tiradentes iniciou-se em 1788 e terminou em maio de 1789, com a prisão dos inconfidentes, e que a fundação da primeira Loja no Brasil, ocorreu em 1797, nove anos depois. Logo, Tiradentes não poderia ter sido regularmente iniciado no Brasil.

Os defensores da tese de que Tiradentes foi maçom agarram-se ao fato de que, naquela época, a admissão à Maçonaria não seguia os padrões da atualidade.  A iniciação era apenas comunicada, e, a partir desse momento, o candidato adquiria sua condição de maçom, sendo-lhe transmitidos os sinais, toques e palavras.  Outros alegam uma viagem de Tiradentes a Portugal, onde teria sido regularmente iniciado.

Essas teses esbarram em obstáculos difíceis de serem vencidos.

Em primeiro lugar, um dos nossos Landmarks[4] determina que é do Grão-Mestre a prerrogativa de Iniciar e Exaltar à primeira vista.  Considerando que o Sistema Obediencial da Maçonaria existia desde 1717, com a fundação da Grande Loja de Londres, e que não existiam Lojas no Brasil, só um Grão-Mestre poderia iniciar Tiradentes À PRIMEIRA VISTA nos mistérios da Maçonaria, ou no Brasil ou em qualquer parte do mundo. E naquela época também não existia Grão-Mestre no Brasil. A Grande Loja Unida da Inglaterra ainda não existia (foi fundada em 1813 com a união da Grande Loja de Londres com a Grande Loja dos Antigos); o Grão-Mestre da Grande Loja de Londres (Primeira Grande Loja, fundada em 1717) era George, Duque de Manchester, enquanto o Grão-Mestre da Grande Loja dos Antigos (Fundada em 1753) era John, Duque de Atholl[5], e não existem registros da visita dessas autoridades maçônicas ao Brasil, naquela época. Partindo dessa premissa, conclui-se que, definitivamente, Tiradentes não foi iniciado no Brasil. Logo, ele só poderia ter sido iniciado na Europa.

A tese defendida por alguns, de que naquela época a iniciação era apenas “comunicada”, não resiste a uma argumentação simples:  o comunicador da iniciação obrigatoriamente deveria estar autorizado pela autoridade maçônica competente, tal qual estava o grande disseminador da maçonaria no continente americano, Stephen Morin (1693-1791), ao receber uma Patente em 17 de agosto de 1761 autorizando-o a iniciar “os irmãos americanos e outros pelo mundo”[6]. Se José Álvares Maciel, ou outro qualquer maçom residente no Brasil naquela época, possuísse uma Patente semelhante, certamente os panegiristas de Tiradentes a apresentariam.

Os jovens maçons chegados da Europa, contagiados com os ideais que fizerem a independência dos EEUU, poderiam ter envolvido Tiradentes, e outros jovens, trazendo-os à conjura.  Mas daí a fazê-los maçons existe uma distância muito grande.

Castellani[7] ensina que a documentação realmente válida para o estudo da conjuração mineira é representada pelos autos da devassa, cujos originais estão na Biblioteca Nacional.  Fora disso, segundo ele, só existem depoimentos orais dos contemporâneos do movimento, coletados por historiógrafos que se ocuparam do assunto, nos anos seguintes aos do movimento, depoimentos cuja fidedignidade não pode ser comprovada.  Quanto a viagem à Bahia, ou à Europa, onde Tiradentes teria sido iniciado, os autos não contêm nenhum registro que sustente essa afirmação.  Entretanto, não há dúvidas de que o movimento de caráter autonomista, surgido em Vila Rica, foi de inspiração maçônica, conclui Castellani.

A Enciclopédia Barsa[8] corrobora a certeza de Castellani quanto às viagens de Tiradentes à Bahia e/ou Europa ao informar que em 1781 Tiradentes se alistou na tropa da capitania de Minas Gerais, mas, preterido nas promoções por criticar a espoliação do Brasil pela metrópole, pediu licença da cavalaria em 1787 e deu início a projetos de vulto, como a canalização dos rios Andaraí e Maracanã para melhoria do abastecimento de água do Rio de Janeiro. Enquanto aguardava o deferimento dos pedidos que fizera para as obras, permaneceu por volta de um ano na capital.  Isso significa dizer que no período entre 1781 e 1789, ano da conjura, Tiradentes saiu de Minas Gerais e permaneceu no Rio de Janeiro, voltando a Minas Gerais mais ou menos da metade para o final do ano de 1788. Ao mesmo tempo em que procurava levar à frente seus desígnios particulares, Joaquim José já pregava a liberdade para a colônia. Em 1788 ligou-se ao filho do capitão-mor de Vila Rica, José Álvares Maciel, que chegara recentemente da Europa e comparava o progresso industrial na Inglaterra (onde estivera) com a situação da colônia. De volta a Minas Gerais, Joaquim José fez propaganda em Vila Rica e arredores a favor da independência do Brasil. Organizou um movimento aliado a integrantes do clero e pessoas de certa projeção social, como Cláudio Manuel da Costa, antigo secretário de governo, Tomás Antônio Gonzaga, ex-ouvidor da Comarca e Inácio José de Alvarenga Peixoto, minerador. O recente movimento de independência das colônias americanas e a formação dos Estados Unidos, cujo modelo era conhecido e atraía a simpatia de parte da elite brasileira, inspirou a conspiração em Vila Rica e em outros pontos de Minas Gerais, bem como no Rio de Janeiro.

Olinto Rodrigues dos Santos Filho, pesquisador do Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural, Membro do IHG de Tiradentes, também corrobora com Castellani ao ensinar[9] que, no Rio, o Tiradentes conhece o Dr. José Alvares Maciel, que acaba de chegar da Europa e se empolga com as ideias iluministas e libertárias do mineiro recém-chegado. De volta a Minas prega a liberdade e independência por toda parte, nas estalagens onde fica hospedado, nas fazendas, como a de José Aires Gomes, na Borda do Campo, nas casas de prostituição, nas vendas, nas boticas e lojas e mesmo no seio da tropa.

No período a que se refere a Enciclopédia Barsa e o pesquisador Olinto Rodrigues dos Santos Filho, não existe registro das viagens à Europa defendidas pelos autores que apregoam a condição de maçom para Tiradentes.  Se elas tivessem acontecido, é opinião convergente que os Autos de Devassa da conspiração registrariam, tal como aconteceu com muitos detalhes inclusive circunstanciais. Mas, segundo os historiadores, os autos não registram nada a respeito.

Muito esclarecedora uma Nota às folhas 106, volume 8, dos Autos de Devassa da Inconfidência Mineira:

 

“R. LAPA (Supl. Lit. MG, 14-12-1968) levantou a hipótese de Tiradentes ter viajado à Corte em 1787-1788.  Em Nota ao Documento 17, precedente, verifica-se a inviabilidade da hipótese, considerando-se ainda que nos primeiros dias de agosto de 1788 Tiradentes voltava à Vila Rica escoltando o Desembargador Pedro J. A. Saldanha, nomeado para suceder a Thomaz Antonio Gonzaga.  Em 28/08/1788 Tiradentes já se achava em Vila Rica, pois nesta data recebeu soldos em atraso na Tesouraria da Junta da Real Fazenda. Saldanha assumiu a ouvidoria da Comarca em 07/09/1799, atraso que se explica pela auditagem (residência como se dizia na época) que precedia a transmissão dos cargos e da qual foi incumbido o Intendente do Ouro, Des. Francisco Gregório Pires Monteiro Bandeira.  Os dois requerimentos de Tiradentes para viajar ao Reino, num período que coincide plenamente com a missão de José Joaquim da Maia junto a Jefferson, na França, com obvia delegação dos comerciantes do Rio de Janeiro para obter apoio à independência brasileira, parece uma cobertura para suas atividades políticas na capital do Estado do Brasil.  A chegada de José Álvares Maciel, portador das mensagens de apoio pretendido, levou Tiradentes de imediato à ação revolucionária.  Ação desenvolvida já em agosto de 1788, mesmo durante a viagem de regresso a Vila Rica.”

 

Essa é a pá de cal sobre a tese da viagem de Tiradentes a Lisboa, onde ele teria sido iniciado na Maçonaria.

Então, Tiradentes maçom é um mito. Sobre ele, Kurt Prober[10] escreveu:

 

Nasceu hipoteticamente em 16/08/1746 e foi morto em 21/04/1792. Esta data de nascimento foi calculada por Augusto de Lima Júnior, que encontrou a data do seu batismo num assentamento nos livros da Matriz de N. S. do Pilar, da Vila de São João d’El Rey, feito pelo padre João Gonçalves Chaves na Capela de São Sebastião do Rio Abaixo, em 12/11/1746, sendo padrinho o “tira-dentes” Sebastião Ferreira Leitão.  Não teve madrinha.  Nasceu no sítio do Pombal, à margem direita do Rio das Mortes, sendo seus pais Domingos da Silva Santos, português, e Antônia da Encarnação Xavier, brasileira.  Era o quarto entre sete irmãos.

Aos nove anos, quando estava em casa de parentes em São João d’Rey, lhe faleceu a mãe, e quando aos onze (talvez quinze) anos lhe faleceu o pai, voltou a Pombal, trabalhando a terra com o seu padrinho, de quem foi aprendendo o então raro ofício de “pôr e tirar dentes”.

Algum tempo depois começou a mascatear em “Minas Novas”, como se lê na DEVASSA, até que entrou para a Companhia dos Dragões de Vila Rica, onde o encontramos como ALFERES em 1775, destacado para a 6ª. Companhia do recém-criado Regimento de Cavalaria Regular de Minhas Gerais, sediado em Vila Rica.  Em 24/12/1771 esteve no Rio de Janeiro, onde foi nomeado para o cobiçado cargo de Comandante do Destacamento do Caminho do Rio, cabendo-lhe a tarefa de vigiar a estrada da Mantiqueira, dar proteção aos viajantes e REPRIMIR O CONTRABANDO DE OURO E DIAMANTES.

...

Tiradentes jamais foi promovido, pela sua escassa instrução, e sua condição de “arrancador de dentes”, atividade então não muito apreciada, e, além disto, pela sua LÍNGUA SOLTA, já então falando contra o governo português, evidentemente depois de lhe terem retirado o rendoso e destacado cargo de comando do Destacamento do Caminho do Rio”.

 

Prober continua nesse ritmo, noticiando as reclamações do Alferes quanto a nunca ter sido promovido porque não tinha ninguém por ele, e as suas dificuldades para alcançar estabilidade funcional e financeira, até que, endividando-se, acabou por ter seus bens penhorados.  Conheceu José Álvares Maciel em meados de 1788, trocando ideias com ele e robustecendo ele próprio os seus ideais revolucionários.

Foi esse homem, humilde, recalcado por nunca ter sido promovido, que assumiu sozinho a responsabilidade pelo movimento que ficou conhecido como “Inconfidência Mineira”, e que deu sua vida em troca da vida dos seus companheiros.

O mito, segundo Frederico Guilherme da Costa[11], e ao que tudo indica, é consequência de uma extravagante tese de Joaquim Felício dos Santos, político prodigioso, jurista, romancista, teatrólogo, homem de imprensa, espírito versátil, rigoroso no exame de documentos, porém possuía o gosto pelo romântico, o que o levou ao devaneio de suas declarações sobre a Maçonaria na obra “Memórias do Distrito Diamantino”, tão copiada e repetida pelos apaixonados pela ideia tão suspeita da Maçonaria que não houve na vida de Joaquim José da Silva Xavier.  Castellani[12] afirma que Joaquim Felício dos Santos tem servido de base para todos os mistificadores da história da conjuração Mineira. Nenhuma de suas afirmações, entretanto, é comprovada documentalmente, assegura; Castellani diz que ele apenas afirma, sem citar fontes onde foram conseguidas as informações.  Ainda, segundo Castellani, Tenório Cavalcanti de Albuquerque foi o principal copiador de Felício. Nessa fonte também bebeu Tito Lívio, historiador não maçom, muito requerido como fonte secundária da história da Inconfidência por aqueles que cultuam Tiradentes como Maçom.

Mais do que qualquer discurso, a cronologia e o sincronismo dos fatos a seguir são inconteste prova de que Tiradentes não chegou a sair do Brasil em visita ao Reino, onde poderia ter sido iniciado na maçonaria:

 

 

 

1746

Nasce José Joaquim da Silva Xavier, na Fazenda do Pombal, próxima ao arraial de Santa Rita do Rio Abaixo, entre a Vila de São José, hoje Tiradentes, e São João del-Rei. Era filho do português Domingos da Silva Santos, proprietário rural, e da brasileira Antônia da Encarnação Xavier. Joaquim José era o quarto dos sete irmãos. Órfão aos 11 anos, não fez estudos regulares e ficou sob a tutela de um padrinho, que era cirurgião. (Enciclopédia Barsa).

1781

A rainha Maria I nomeou Joaquim José da Silva Xavier comandante da patrulha do Caminho Novo, estrada que conduzia ao Rio de Janeiro. (Enciclopédia Barsa).

1785

05/01 - Data do Alvará que proibia a fabricação de panos no Brasil, salvo panos grossos de algodão para uso de escravos e fardos. (Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, Vol. 8, P. 15).

1786

02/10 - José Joaquim da Maia Barbalho, sob o criptônimo de Wandek, escreve sua primeira carta a Thomas Jefferson, representante em Paris dos Estados Unidos da América, solicitando audiência para comunicar assunto da maior importância.  (Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, Vol. 8, P. 19).

1786

21/11 - Segunda Carta de Vandek a Thomas Jefferson, pedindo ajuda para o movimento libertário. (Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, Vol. 8, P. 21).

1786

26/12 - Segunda Carta de Thomas Jefferson a Wandek anunciando partida de Paris para Montpellier onde se encontrava Wandek. (Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, Vol. 8, P. 22).

1787

Em março, o Alferes Joaquim da Silva Xavier requer licença por tempo de um ano para ir à Corte tratar de assunto de seus bens que estavam se deteriorando. (Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, Vol. 8, P. 25). Em Fevereiro de 1788 Tiradentes renova pedido de licença para transportar-se à Corte, alegando que, por moléstia maior não pôde o suplicante utilizar-se da graça passada por provisão de 7 de setembro do ano anterior. (Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, Vol. 8, P. 106).

1787

05/01 - Terceira carta de Wandek a Thomas Jefferson perguntando sobre a data de chegada deste a Nîmes, para encontrá-lo. (Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, Vol. 8, P. 24).

1787

04/09 – O Conselho Ultramarino concede licença por um ano, sem soldo, a Tiradentes para viajar ao Reino. (Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, Vol. 8, P. 25).

1787

19/03 - Terceira carta de Thomas Jefferson a Maia (Wandek) avisando de sua chegada em Nîmes. (Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, Vol. 8, P. 28).

1787

04/05 - Relatório de Thomas Jefferson a John Jay, Secretário de Estado dos Estados Unidos em Filadélfia, sobre sua viagem ao sul da França e os termos da Entrevista com Wandek (José Joaquim Maia e Barbalho). (Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, Vol. 8, P. 28).

1788

Em fevereiro, o Alferes Joaquim José da Silva Xavier requer ao Conselho Ultramarino revalidação da licença (solicitada em março de 1787 e concedida em setembro do mesmo ano) de ir ao Reino. Despacho em Lisboa pelo Conselho Ultramarino em 22/08/1788. (Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, Vol. 8, P 106).

1788

José Álvares Maciel teria dado a Tiradentes, no Rio de Janeiro, ciência das promessas de Thomas Jefferson e dos comerciantes de Bordéus a José Joaquim da Maia (Wandek).  O encontro de José Álvares Maciel e Tiradentes teria ocorrido em Julho/Agosto de 1788. (Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, Vol. 1, P. 177, Nota 1).

1788

10/03 - Lisboa – Embarque para o Brasil de José Álvares Maciel (Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, Vol. 2 - Índice Cronológico, P. 509).

1788

23/06 - Rio – Chega José Álvares Maciel, hóspede do concunhado Francisco José Freire, comerciante na praça. É visitado por Tiradentes e se tornam íntimos amigos. (Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, Vol. 2 - Índice Cronológico, P. 509).

1788

13/08 - Rio - Sobem para Minas, Tiradentes e o Des. Pedro J. A. Saldanha. (Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, Vol. 2 - Índice Cronológico, P. 510).

1788

28/08 - Vila Rica - Tiradentes recebe soldos atrasados. (Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, Vol. 2 - Índice Cronológico, P. 508).

1788

10/12 - São João del Rei - Tiradentes, que se encontra em São João e em São José desde 15/11 alicia o S. M. Antonio de A. Fonseca Pestana e encarrega-o de convidar para o levante o Cel. Francisco Antonio de Oliveira Lopes. (Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, Vol. 2 - Índice Cronológico, P. 511).

1789

10/05 - Rio – Tiradentes é preso. (Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, Vol. 2 - Índice Cronológico, P. 517).

1797

17/07 – A Loja Maçônica 'Cavaleiros da Luz' é fundada pelo Comandante Larcher, José da Silva Lisboa, Padre Francisco Agostinho, Cypriano Barata, Ignácio Bulcão, Francisco Muniz Barreto, Domingos da Silva Lisboa, José Borges e o Tenente Hermógenes de Aguiar Pantoja, a bordo da fraga "La Preneuse", ancorada na Bahia. (F. Borges Barros - Primórdio das Sociedades Secretas na Bahía, in Anais do Arquivo Público da Bahia. Apud Frederico Guilherme Costa, in Breves Ensaios sobre a História da Maçonaria Brasileira, Editora Maçônica A Trolha. Londrina, 1993).

 

 

CONCLUSÃO

 

É consenso entre os historiadores que o movimento conhecido como Inconfidência Mineira começou em 1788 e terminou em 1789, com a prisão de Tiradentes, e isso fica claro nos Autos de Devassa. Quando começou exatamente?  Se o movimento foi filho da Maçonaria e alguns jovens intelectuais egressos de universidades europeias retornaram ao Brasil nela iniciados, trazendo de além-mar para as Minas Gerais o ideal de liberdade, democracia, independência e república, esse movimento só pode ter começado com a chegada de José Álvares Maciel no Rio de Janeiro no dia 23 de junho de 1788, saindo de Lisboa a 10 de março daquele ano. A viagem durou 105 dias, ou seja, um pouco mais de três meses. Foi ele, José Álvares Maciel que trouxe a notícia das supostas promessas de Thomas Jefferson e dos comerciantes de Bordéus a José Joaquim da Maia (Wandek), com isso motivando o sonho de rompimento com a Coroa.  O encontro de José Álvares Maciel e Tiradentes teria ocorrido em Julho/Agosto de 1788, e logo no dia 13 de agosto Tiradentes e o Desembargador Pedro J. A. Saldanha deixam o Rio de Janeiro com destino a Minas Gerais. José Álvares Maciel não estava com eles, presumindo-se tenha ficado no Rio de Janeiro.  Então, se Tiradentes foi iniciado por José Álvares Maciel, o que é muito improvável porque o argumento da iniciação por comunicação foi alhures derrubado, isso aconteceu entre 23 de junho e 13 de agosto.  Por que não antes e por outro Maçom?  Porque nem José Álvares Maciel, nem outro qualquer inconfidente, possuía uma Patente autorizando-os a iniciar irmãos, e por vários outros motivos, conforme a seguir comentado.

Naquele período a Grande Loja dos Antigos vivia às turras com a Grande Loja dos Modernos. Os Grão-Mestres das duas Grandes Lojas negociaram uma solução para o problema, que foi a união das duas Grandes Lojas adversárias, que só veio ocorrer em 1813.  Partindo daí, e considerando que o sistema de governo da Inglaterra não comportava, como ainda não comporta hoje, o sistema republicano adotado pela sua ex-colônia (os EE.UU.), é praticamente impossível a maçonaria inglesa daquela época ter despendido qualquer esforço para libertação de uma colônia portuguesa, razão dos interesses comerciais que ligavam Portugal à Inglaterra.

E esse fato (econômico) era agravado com o fundamento básico da maçonaria especulativa ainda incipiente, consignado na Constituição de Anderson de 1723[13], parte relativa às Obrigações de um Maçom Livre: “O Maçom é uma pessoa pacífica perante os Poderes Civis, onde quer que resida ou trabalhe, e jamais deverá se envolver em Conjuras ou Conspirações contra a Paz e o Bem-estar da Nação...”.  A regra foi extraída dos antigos arquivos das Lojas de Além Mar, conforme explicou James Anderson, e mais tarde foi consagrada na Preleção Após a Iniciação do Ritual de Emulação que estava sendo escrito na época da Inconfidência Mineira, mas que já era praticado oralmente desde tempos imemoriais: “Como cidadão do mundo, advirto-vos que deveis ser exemplar no desempenho dos vossos  deveres civis, nunca praticando, nem de forma alguma favorecendo, qualquer ato que possa tender a perturbar a paz e a boa ordem da sociedade;  prestando a devida obediência às leis de qualquer país que possa, em qualquer época, ser o lugar da vossa residência...”.  Era isso que prescreviam as Old Charges coligidas por James Anderson e era, como continua sendo, a postura de qualquer maçom inglês daquela ou desta época.

Pode-se argumentar que a Inconfidência Mineira incorporou os ideais da maçonaria francesa.  Ocorre que naquele período o movimento revolucionário que serviu de divisor de águas entre a Idade Moderna e a Idade Contemporânea, ainda estava em gestação.  É notoriamente sabido que a maçonaria especulativa francesa tem suas raízes plantadas na maçonaria especulativa inglesa, dela recebendo influências estruturais.  Entretanto, desde Joana D’Arc (1412-1431) França e Inglaterra estão ligadas por laços de amor e ódio, numa alternância histórica que carece de muito conhecimento para compreender seus meandros. Nesse campo de batalha, encoberto à visão do cidadão comum, a maçonaria francesa tem desfraldado a bandeira da liberdade, da igualdade e da fraternidade dos homens, próprio dos sistemas republicanos, enquanto a maçonaria inglesa mantém-se na retaguarda do batalhão que defende a tradição, amparada no direito consuetudinário. Nesse contexto, muitos dos maçons franceses da época da Inconfidência Mineira estavam firmes da defesa dos fundamentos básicos da maçonaria especulativa, quais sejam nunca praticar nem favorecer qualquer ato tendente a perturbar a paz e a boa ordem da sociedade.  Hoje, duas linhas de pensamento estão em campos opostos: os que defendem que a maçonaria francesa nada teve a ver com a revolução de 1789, quando muito alguns maçons dela participaram de forma isolada e sem representá-la, e aqueles que defendem, embora sem fundamento historiográfico, que a Revolução Francesa foi obra da Maçonaria, tal qual o foi a Inconfidência Mineira.  Acredito piamente, como estudante medíocre da muito querida e por mim amada Sublime Ordem, que tanto no Brasil quanto em França as duas insurreições foram movidas por fenômenos de natureza político-econômico, muito embora tendo a participação de maçons, isoladamente.  A instituição Maçonaria (especulativa) ainda incipiente, não poderia estar envolvida com qualquer ato que pudesse perturbar a paz e a boa ordem da sociedade, pena de sucumbir como sucumbiram os Templários.

Para Silvio Anaz[14], “a Inconfidência ou Conjuração Mineira foi uma conspiração feita por parte da oligarquia das Minas Gerais entre 1788 e 1789. Afundada em dívidas, sem condições de pagar os tributos e descontentes com a reforma administrativa que ia ser promovida na capitania pela Coroa Portuguesa, e que lhe tiraria privilégios, a elite mineira via na independência da região uma solução. Além da situação econômica – causada entre outros fatores pela crise na exploração do ouro na capitania – a influência das ideias do Iluminismo e o exemplo da independência dos Estados Unidos da América (1776) serviram como combustível para alimentar os sentimentos de revolta. Para atrair a simpatia popular, o levante deveria ocorrer quando o governo colonial aplicasse a derrama, a cobrança dos impostos em atraso”.

Conforme escreveu Castellani no Consultório Maçônico I, já citado, Tiradentes foi um grande patriota, inflamado, exaltado na defesa dos seus ideais, altruísta, inteligente, enfim, um grande homem e um nome brilhante na história do Brasil. “Todavia, nem todos os grandes homens foram maçons, como alguns escritores maçônicos pretendem e, em contrapartida, nem todos os maçons são grandes homens. É preciso que se destaque, enfatiza Castellani, a bem da verdade histórica, que o verdadeiro líder da Inconfidência Mineira foi, realmente, um maçom: José Álvares Maciel, que só não tem em nossa história, o mesmo brilho que Tiradentes porque somente este assumiu toda a culpa pela revolta, foi executado, tornando-se o protomártir da independência”.

 

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

 


[1] FERREIRA, Tito Lívio e FERREIRA, Manoel Rodrigues. A Maçonaria na Independência Brasileira – Gráfica Bíblos / Editora.

[2] CYSNE, Erick de Sarriune.  A Maçonaria na Formação da Democracia Brasileira – Editora Maçônica “ A Trolha”.

[3] COSTA, Frederico Guilherme. Breves Ensaios sobre a História da Maçonaria Brasileira, 1ª. Ed., 1993 - Editora Maçônica “A Trolha”. Pg. 24. A fonte primária do historiador Frederico Guilherme Costa é outro historiador, F. Borges Barros, na obra Primórdios das Sociedades Secretas na Bahia in Anais do Arquivo Público da Bahia, XV nos. 44-45: “Em princípios de julho de 1796 ancorava na Bahia a Fragata francesa Larcher, que havia sustentado um combate com a corveta portugueza Santo Antonio Polipheno¸de que era comandante Manoel do Nascimento Costa.  Data dessa estadia da fragata franceza nesta Capital a propaganda intensa com a larga circulação de livros como fossem: ‘Revolução dos Tempos Passados’ e ‘Ruinas de Volney’, ‘Nova Heloisa’  e ‘Tullia’ de Reousseau, bem como Discursos de ‘Boissy d’Anglair’ os quais foram traduzidos para o portuguez por dois frades carmelitas que moravam na egreja de Corpo Santo.  Nessa fragata houve innumeros entendimentos pelos homens mais esclarecidos da terra, e dessa confabulação fizeram parte: José da Silva Lisbôa, o Padre Francisco Agostinho Gomes, Cypriano Barata, Ignácio Bulcão, Francisco Muniz Barreto, professor em Minas do Rio de Contas, Domingos da Silva Lisbâ, José Borges e o Tenente Hermógenes de Aguiar Pantoja, por ter pretendido dar um jantar aos francezes. De Francisco Moniz Barreto há uma parte interessando do seu depoimento (vide Sedição de 1798-99-Arch.Publico).  ‘Que havendo estado na Capital em 1797 frequentou a casa de José Borges de Barros, seu vizinho, há pouco chegado da Ilha da Madeira, o qual era irmão de Domingos Borges de Barros, muitas vezes conversou com o primeiro sobre o governo econômico da terra, assim como sobre as notícias que chegavam do estado político da Europa.  Possuía a obra de Voney, revolução dos tempos passados, livro que lhe fora emprestado e que copiara todo em cadernos’. – Este o estado de espírito sequiosos de liberdade, humanidade e egualdade, quando aos 14 de julho de 1797 Larcher e os brazileiros citados fundaram na povoação da Barra a loja maçônica Cavaleiros da Luz.”

[4] ASLAN, Nicola. Landmarques e Outros Problemas Maçônicos – Editora Aurora. Pg. 13. “A ideia Geral que se tem sobre os Landmarques, na Maçonaria, é que são usos, costumes, leis e regulamentos universalmente reconhecidos, existentes desde tempos imemoriais, fundamentais princípios da Ordem, inalteráveis e irrevogáveis, e que não podem ser infringidos ou desviados o mais levemente que seja.  Tão remotos seriam eles de não se lhes poder determinar a origem, e tão essenciais que, se fossem alterados, modificados ou emendados, também estaria mudado o próprio caráter da Maçonaria

[5] OLIYNIK, Anatoli.  Emulação (História, Ritualística e Rituais).  Curitiba, 2004. Pg. 17.

[6] MELLOR, Alec.  Dicionário da Franco Maçonaria e dos Francos-Maçons.  Livraria Martins Fontes Editora Ltda. 1989. P 318.

[7] CASTELLANI, José.  Caderno de Estudos Maçônicos – Consultório Maçônico I – Editora Maçônica “A Trolha”.

[8] Encyclopedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

[9] FILHO, Olinto Rodrigues dos Santos. http://www.tiradentes.mg.gov.br/otiradentes.html

[10] CASTELLANI, José.  Caderno de Estudos Maçônicos – Consultório Maçônico I – Editora Maçônica “A Trolha”.

[11] COSTA, Frederico Guilherme.  A Maçonaria e a República – Editora Maçônica “A Trolha”.

[12] CASTELLANI, José.  Manias e Crendices em nome da Maçonaria – Editora Maçônica “A Trolha”. Pg.107 a 116.

[13] As Constituições dos Franco-Maçons de 1723.  Editora A Fraternidade.  São Paulo, 1982. P 50.

[14] ANAZ, Silvo, editor do HowStuffWorks no Brasil e professor universitário na área de comunicação.  http://www.silvioanaz.com.br

 

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