TIRADENTES E A MAÇONARIA
- Antônio Tupinambá
- 20 de abr.
- 4 min de leitura
Buscador: Ac Antonio Tupinambá
AAML, Cad 40-EM
20/04/2026
Há algum tempo postei aqui o texto de uma palestra em que o Irmão Edson Gomes da Silva e eu debatemos sobre Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, e sua relação com a Maçonaria. Ele, o Dr. Edson Gomes da Silva afirmando que ele foi Iniciado nos mistérios da Ordem, e eu negando essa possibilidade.
Considerando que amanhã festeja-se a data do Mártir da Independência do Brasil, presto hoje minha homenagem àquele que, na minha opinião, não foi Iniciado na Maçonaria, mas talvez tenha sido inspirado por maçons para assumir toda a responsabilidade pelos atos que culminaram com sua morte, esquartejamento, e independência política e administrativa do país.
A questão sobre a Iniciação ou Filiação maçônica de Tiradentes é um dos debates mais persistentes e apaixonados dentro da historiografia brasileira e da própria Maçonaria. Para esclarecer se ele foi ou não foi maçom, é preciso separar o mito fundacional da evidência documental. Como entusiasta e estudante da Verdade, a que busco incessantemente, percebi que a resposta curta é: não há provas documentais contemporâneas, mas há um simbolismo cultural poderoso que explica por que essa associação se tornou tão forte.
Para entender o papel de Tiradentes, precisamos olhar para o final do século XVIII, especificamente para o ano de 1789. O movimento conhecido como Inconfidência Mineira foi uma articulação intelectual e política influenciada profundamente pelo Iluminismo francês e pela recente Independência dos Estados Unidos.
A pergunta fundamental é: a Maçonaria, como organização, estava presente em Minas Gerais naquela época? Embora existam teses que defendam a existência de "Lojas" ou sociedades secretas que funcionavam como embriões da Maçonaria, não há registros nos arquivos das Grandes Lojas ou qualquer documento histórico (como atas de iniciação ou listas de membros) que comprove a existência de uma estrutura maçônica organizada e formal operando em Vila Rica em 1789.
A associação de Tiradentes à Maçonaria surge majoritariamente no século XIX e, com muita intensidade, no início do século XX. Existem três pilares principais que sustentam essa ideia entre os defensores da tese:
1. A afinidade ideológica: A Inconfidência Mineira respirava os ideais iluministas: liberdade, igualdade e fraternidade. Como a Maçonaria moderna é a maior guardiã desses mesmos valores, tornou-se natural, sob a ótica do "heroísmo pátrio", aproximar o mártir dos ideais que a ordem defende.
2. A rede de relações dos Inconfidentes: Muitos dos envolvidos na Inconfidência — como poetas, advogados e clérigos — mantinham contatos com a Europa, onde as sociedades secretas estavam em plena expansão. Assume-se, por dedução, que essa circulação de ideias necessariamente passava pelo crivo da filiação maçônica.
3. O uso pedagógico do mito: A Maçonaria brasileira, ao consolidar sua história no Brasil, buscou integrar os grandes heróis nacionais ao seu panteão. Apresentar Tiradentes como maçom serviu para validar a própria instituição como uma protagonista na construção da identidade nacional brasileira.
É comum ver em pinturas ou monumentos maçônicos a representação de Tiradentes usando aventais ou símbolos da ordem. No entanto, é vital ressaltar que a maioria dessas representações é alegórica, criada por artistas séculos após sua execução, para transmitir a mensagem de que ele lutava pelos ideais maçônicos, e não necessariamente que ele fora iniciado em uma Loja.
Historiadores sérios e pesquisadores da Maçonaria, tanto no Brasil quanto no exterior, concordam em um ponto central: a ausência de evidências primárias. Para que alguém seja considerado um maçom dentro dos padrões de rigor histórico, é necessário localizar uma ata de admissão, um registro de Loja ou uma prova inequívoca de sua iniciação.
Não existem documentos de época que citem Tiradentes como maçom. Os autos da devassa – existentes na Biblioteca Antonio Tupinambá, da AAML -, que são os registros judiciais detalhados do processo contra os inconfidentes (que incluíam depoimentos, cartas e documentos apreendidos), nunca fazem qualquer menção a nomes de Lojas ou terminologias maçônicas. Se houvesse tal vinculação, o governo colonial — que já era desconfiado e implacável — certamente teria explorado essa conexão como prova de conspiração internacional.
Embora o fato documental falte, muitos autores maçônicos atuais adotam uma postura mais sutil. Eles argumentam que Tiradentes agia como um maçom "sem avental". Essa é uma forma de dizer que, embora ele não tenha passado por um rito formal de iniciação, ele encarnava a ética, o desejo de justiça e a busca por um governo republicano — pilares que, mais tarde, tornaram-se centrais na prática maçônica brasileira.
Portanto, a verdade histórica é um exercício de distinção entre fato e narrativa:
- Fato: Não há provas de que Tiradentes tenha sido um maçom iniciado em uma Loja.
- Narrativa: Tiradentes é um símbolo de um processo histórico cujos ideais coincidem com os princípios liberais abraçados pela Maçonaria séculos depois.
O debate sobre se Tiradentes foi maçom é uma excelente oportunidade para exercitarmos a crítica histórica. Quando estudamos figuras como ele, percebemos que a História não é apenas sobre o que aconteceu, mas sobre como as gerações seguintes reinterpretam esses eventos para dar sentido ao seu próprio tempo. A Maçonaria brasileira, ao adotar Tiradentes, reforçou sua posição como uma instituição que valoriza a soberania nacional e os direitos humanos.
Se você encontrar um autor que afirme categoricamente que "Tiradentes foi maçom", questione qual documento ele utiliza como prova. Se a resposta for baseada apenas em "afinidade de ideais", entenda isso como uma interpretação simbólica, não como um fato biográfico. Como estudantes, nossa missão é honrar a memória de Tiradentes reconhecendo sua luta real pela independência, sem a necessidade de inventar registros que, até o momento, a historiografia séria não conseguiu comprovar.
A verdadeira grandeza de Tiradentes reside na sua coragem diante da coroa portuguesa e no sacrifício de sua própria vida em prol da liberdade do povo mineiro. Essa é a verdade histórica que ninguém pode apagar, independentemente de ele ter ou não participado de uma reunião maçônica. A história, como a busca pela luz, exige que coloquemos os fatos sob o esquadro da análise rigorosa, sempre equilibrando a paixão pela narrativa com a sobriedade dos documentos.
Salve Joaquim José da Silva Xavier!. Salve o Tiradentes!
***

Meu caro, sua formação de contador me diz que vc é realmente um... contador de histórias. Suas narrativas, nos educam, cativam e emocionam. Agora fiquei curiosa: neste debate de gigantes entre vc e o querido médico Edson Gomes, como ele defendeu sua tese?
Parabéns pela pesquisa. São inúmeras especulações . Caso fosse maçom, como deixaram morrer daquela forma? Não fizeram nada? Não me recordo a fonte. Que ele não foi morto como diz a história, que após o término da inconfidência foi avistado vagando pela Europa. Alguém foi morto em seu lugar? Seria possível? Como pesquisador e estudioso isso seria verdade?