top of page

SOBRE DEUS

  • Foto do escritor: Antônio Tupinambá
    Antônio Tupinambá
  • 21 de jan.
  • 7 min de leitura

Buscador, Antonio Tupinambá

AAML, Cad 40-EM

21/01/2026

 


Há algum tempo fui levado pelas mãos do Dr. Edson Gomes da Silva, Irmão de Ordem, à presença de Álvaro Botelho Maia, ex-governador do Amazonas, através de um discurso por ele pronunciado no primeiro quartel do Século XX. Esse discurso, intitulado “Canção de Fé e Esperança”, comemorativo do centenário da adesão do Amazonas à Independência do Brasil, me levou não só a conhecer um pouco de Álvaro Maia como também a admirá-lo, mesmo idolatrá-lo.

Mais recentemente a Psicóloga Dra. Suzi Moraes dos Santos, também iniciada nos Mistérios da Ordem, me apresentou a alguns filósofos, entre eles Baruch Spinoza.

Resolvi postar um resumo do pensamento de Spinoza porque, numa certa noite em que a Confraria Waldemir Siqueira, um puxadinho da Academia Amazonense Maçônica de Letras – AAML, com a presença do Ir Edson Gomes, fui rotulado de ateu ao afirmar que Paulo de Tarso foi um dos principais deturpadores do Cristianismo.

Sobre isso, Spinoza, que séculos antes já pensava o que penso hoje, escreveu:

 

Mensagem de Baruch Spinosa - 1665

 

Este é o Deus de Spinosa

 

Se Deus tivesse falado, ele teria dito:

“Para de ficar rezando e de bater no peito!

O que eu quero é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida. Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.

Para de ir a certos templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa.

Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias e no coração das pessoas. Ali é onde eu, de fato, vivo e ali expresso meu amor por ti.

Para de me culpar da tua vida miserável: eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau. O sexo é um presente que eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.

Para de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo.

Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de amigos, nos olhos de teu filhinho. Sim, me encontrarás em um bom livro, uma poesia, uma obra de arte e, quem sabe, em um mendigo.

Confia em mim e deixa de me pedir. Tu me dirás como fazer meu trabalho?

Para de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.

Para de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz, eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti? Como posso te castigar por ser como és, se eu sou quem te fez?

Crês que eu poderia criar um lugar para queimar todos meus filhos, pelo resto da eternidade, porque não se comportaram bem? Que tipo de Deus poderia fazer isso?

Esquece qualquer mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas a fim de manipular-te, para te controlar – que só geram culpa em ti.

Respeita teu próximo e não faças o que não queres para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia.

Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é o único que há, aqui e agora; isto é único de que precisas para crer em mim e receber da vida.

Eu te fiz livre, isto é, relativamente responsável. Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém preenche um placar. Ninguém leva um registro. Tu és condicionalmente livre para fazer de tua vida uma dádiva ou uma ameaça, um céu ou um inferno.

Eu não te posso dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho. Vive como se não houvesse... Como se esta fosse tua única oportunidade de existir, de aproveitar, de amar. Assim, senão há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei, sendo correto e vivendo feliz.

E se houver, tem certeza de que eu não te vou perguntar se foste comportado ou não. Só vou te perguntar se tu gostaste: se te divertiste e do que mais gostaste?

O que aprendeste? O bem que fizeste?

Para de apelar para mim – isto é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que, assim, acredites em mim. Quero que me sintas em ti.

Sim, quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.

Para de me louvar! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que eu seja? Aborreço-me quando me pedem desculpa. Canso-me quando me agradecem. Tu te sentes grato? Basta isto.

Para de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim. A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo e que este mundo está cheio de maravilhas.

Demonstra-o, cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo.

Te sentes olhado, surpreendido, admirado? Expressa tua alegria! Este é o jeito, o único, de me louvar. Entendeste?

Para que precisas de mais milagres? Para que tantas explicações? Não me procures fora! Não me acharás. Procura-me dentro de ti, nos outros, nas coisas e, sobretudo, nas relações que vives. Aí é que estou, sempre estarei, abraçado contigo.

Baruch Spinoza

Filósofo

1632 –1677

 

 

A partir de então comecei estudar Spinoza, buscando textos e vídeos sobre o tal filósofo. Do pouco que fiquei sabendo sobre ele, uma das coisas é que foi excomungado da comunidade judaica a que ele pertencia, razão dos seus pensamentos manifestos sobre Deus; que teve sua vida abreviada por causa  do isolamento que lhe foi imposto depois de excomungado, tendo que sobreviver com o produto do seu único trabalho de polidor de lentes; que durante sua vida os resíduos decorrentes do material das lentes (vidros), levara ao adoecimento de seus pulmões e à consequente morte prematura; que em vida não publicou nenhuma obra, mas deixou anotações suficientes para a edição de um livro intitulado “Ética”.

É de domínio público que a Ética, de Baruch de Spinoza, é uma das obras mais profundas e controversas da filosofia moderna. Escrita no século XVII, ela propõe uma ruptura radical com a visão tradicional de Deus, do homem e da moral. Neste artigo, está sendo apresentado um resumo claro e acessível da Primeira Parte da Ética de Spinoza, intitulada “De Deus”, fundamental para compreender todo o pensamento spinozano.

O MÉTODO GEOMÉTRICO DE SPINOZA

Spinoza organizou sua obra segundo um método geométrico, inspirado na matemática de Euclides. Em vez de argumentos baseados na fé ou na autoridade, ele constrói seu pensamento a partir de DEFINIÇÕES (conceitos), AXIOMAS (premissas) e PROPOSIÇÕES (enunciado de uma verdade que se quer demonstrar ou de um problema que se pretende resolver). 

Esse método revela a intenção central do filósofo de tratar a ética com rigor racional, afastando-a da superstição e do moralismo religioso.

A IDEIA DE SUBSTÂNCIA NA ÉTICA DE SPINOZA

Para Spinoza, substância é aquilo que existe em si; que é concebida por si mesmo; que não depende de nada para existir.

A partir dessa definição, ele chega à conclusão decisiva de que existe apenas uma substância, infinita, eterna e necessária.

DEUS SIVE NATURA: DEUS É A PRÓPRIA NATUREZA

Diferente da tradição judaico-cristã, Spinoza afirma que Deus não é um ser pessoal, transcendente ou legislador moral. Deus não está fora do mundo: ele é o próprio mundo.

Por isso, o filósofo formula a expressão que se tornou célebre: Deus sive Natura (Deus, isto é, a Natureza). Tudo o que existe está em Deus, e nada pode existir fora dele. Não há criação a partir do nada, mas manifestação necessária da própria essência divina.

PENSAMENTO E EXTENSÃO: MENTE E CORPO

Deus possui infinitos atributos, mas o ser humano percebe apenas dois, quais sejam, pensamento (ideias, mente) extensão (corpo, matéria). Isso significa que mente e corpo não são opostos nem hierarquizados. Ambos são expressões diferentes da mesma realidade, superando o dualismo clássico entre espírito e matéria.

O SER HUMANO COMO PARTE DA NATUREZA

Os indivíduos humanos são o que Spinoza chama de “modos”: manifestações particulares da substância única. Assim como tudo o que existe, o ser humano é parte da natureza e está submetido às suas leis.

Essa visão rompe com a ideia de que o homem ocupa uma posição privilegiada no universo. Somos parte do todo, não o centro dele.

DETERMINISMO E CRÍTICA AO LIVRE-ARBÍTRIO

Na Primeira Parte da Ética, Spinoza rejeita a noção de livre-arbítrio, tanto em Deus quanto nos homens. Tudo ocorre por necessidade, seguindo a ordem natural das causas. Segundo o filósofo, nada acontece por acaso; não existem milagres; Deus não age por vontade ou finalidade. A crença na liberdade absoluta nasce da ignorância das causas que nos determinam.

A CRÍTICA À RELIGIÃO TRADICIONAL

Spinoza critica duramente o antropomorfismo religioso — a tendência humana de atribuir emoções, desejos e julgamentos morais a Deus. Para ele, conceitos como bem, mal, pecado ou recompensa não pertencem à natureza, mas às interpretações humanas.

Essa crítica não é um ataque à espiritualidade, mas à superstição e ao medo usados como instrumentos de dominação.

Por que a Primeira Parte da Ética ainda importa

Ao identificar Deus com a Natureza, Spinoza propõe uma ética fundada no conhecimento racional da realidade, não na obediência cega. Compreender a ordem necessária do mundo é, para ele, o primeiro passo rumo à verdadeira liberdade.

A Primeira Parte da Ética estabelece a base de todo o sistema spinozano e convida o leitor a repensar Deus, o homem e a moral à luz da razão.

 

CONCLUSÃO

Ler Spinoza é um exercício de amadurecimento intelectual. Sua Ética nos desafia a abandonar ilusões confortáveis e a encarar a realidade como ela é. Num mundo ainda marcado por fanatismos e irracionalismos, o pensamento spinozano permanece atual, necessário e profundamente libertador.

 

 

***

 


Comentários


  • Facebook B&W
  • Branca Ícone Instagram
bottom of page