O SINO, A FOME E A PROMESSA
- José H. C. Abreu

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Por José H. C. Abreu
Quando os portugueses começaram a catequizar o Brasil, trouxeram cruzes, procissões, missas e, sobretudo, sinos, a internet da época. Chamavam para rezar, avisavam incêndios, anunciavam mortes, casamentos, invasões, festas de santos e até o horário do almoço dos poderosos. O povo aprendeu a viver pelo badalar metálico que vinha do alto das torres, como se Deus tivesse instalado alto-falantes no céu colonial.
Algumas igrejas foram erguidas com imponência quase imperial em cidades pobres, cercadas de casebres de barro e ruas de lama com ouro para altares, prata para castiçais, imagens importadas da Europa, enquanto o povo do lado de fora mal tinha farinha para misturar na água de modo que o barroco brasileiro talvez tenha sido a primeira versão arquitetônica da desigualdade nacional com teto pintado de anjos sobre cabeças vazias de comida.
As más línguas — essas historiadoras paralelas da humanidade — juravam que muitas igrejas ficavam eternamente “inacabadas” com uma só torre, para evitar o compromisso de, consideradas concluídas, mandar dinheiro para Roma, fortalecendo o Banco do Vaticano hoje entre os mais poderosos, que segundo as más línguas já recebeu depósitos através da amante que viajava clandestinamente no avião de um Presidente sul americano.
Verdade ou folclore, o brasileiro aprendeu cedo que obra pública concluída demais pode gerar cobrança, melhor deixar sempre um andaime simbólico pendurado e os sinos tocando.
Tinham toque para enterro, para missa, para festa e para calamidade nada diferente do que é mostrado hoje nas redes sociais.
Talvez só faltasse um toque específico para anunciar a chegada de mais uma promessa política, porque aí o Brasil realmente virou uma imensa torre de igreja: toda eleição alguém sobe lá, puxa a corda e faz o mesmo manjado sino tocar outra vez, sempre em rede nacional como exige o Ministro da Comunicação, conhecido como o MEDÔNHO.
“Agora vai.” “Só precisamos de mais um mandato.” “Estamos reconstruindo o país.”
“Dessa vez a fome acaba.” “Agora o pobre vai comer picanha.” “Agora o povo entra no orçamento.”
E o povo escuta e escuta porque quer acreditar escuta porque a esperança é o último alimento de quem já perdeu quase tudo. Escuta porque o brasileiro foi treinado durante séculos a obedecer ao som vindo do alto, ontem do campanário, hoje da televisão e das redes sociais.
Antigamente, quando alguém estava miserável, faminto, vivendo de restos, dizia-se que o sujeito estava “roendo beira de sino”, expressão cruel e perfeita já que o sino é de bronze, duro, impossível de mastigar, ou seja, o miserável tenta sobreviver do que não alimenta ninguém roendo esperança, promessa e discurso.
E talvez essa seja a maior especialidade nacional: transformar anúncio em refeição simbólica.
O pobre brasileiro continua roendo beira de sino enquanto Presidente, Ministros, ASPONES (Assessores de Porra Nenhuma) aparecem explicando que os números melhoraram, manipulando estatísticas enquanto o Marqueteiro Mor fabrica slogans patrióticos embalados em trilhas emocionantes
Já o estômago, porém, continua fazendo oposição silenciosa, porque a fome não entende pronunciamento oficial, não assiste cadeia nacional e não vota em narrativa.
Mas há algo admirável no brasileiro: mesmo depois de séculos ouvindo o mesmo sino tocar, ainda encontra força para olhar para cima esperando que, desta vez, talvez venha pão mesmo que dormido “eternamente em berço esplêndido”, em vez de eco.
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