1 - RAIZES DA DESORDEM MENTAL
- Antônio Tupinambá
- 25 de mai. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: 20 de nov. de 2025

ANTONIO TUPINAMBÁ
AAML, Cad 40-EM
24/05/2025
O tempo passa com muita rapidez, e, com ele, as coisas e as pessoas mudam. No meu caso particular, tudo mudou nos últimos cinquenta anos. Numa caminhada cheia de obstáculos, saí da infância para a adolescência, e desta para a vida adulta, cheio de vigor e planos para o futuro. Nessa caminhada descobri que tinha certa facilidade de colocar meus pensamentos no papel, e comecei a escrever textos relacionados com minhas lembranças de criança desde a mais tenra idade, e continuei com isso até pouco tempo, mas o peso dos anos sobre minhas costas começou a subtrair de mim muitas coisas, entre elas a vontade de escrever.
Nos últimos dias, entretanto, um olhar para o passado recente me fez ter consciência da existência de mundos mentais diferentes, o mundo da sanidade e o mundo da insanidade da mente humana, desconhecidos para grande maioria das pessoas. Esses dois mundos correm paralelos. O mundo da sanidade é aquele que tão bem conhecemos: o mundo da aparência, da competição pela sobrevivência, do egoísmo, do egocentrismo, da vaidade, da mal querência, da inveja... sem espaço para o amor fraternal, a caridade, a verdade, e outros princípios que sustentam as religiões e a Maçonaria, esta enquanto Ordem Iniciática. Já o mundo da insanidade, é triste, sombrio, abandonado, esquecido... É o mundo das pessoas mentalmente adoecidas.
No exercício de minhas atividades profissionais, ocupei cargos de confiança no serviço público que me permitiram bordejar no mundo da sanidade mental, principalmente pelos campos da Educação, da Saúde e da Assistência Social.
Foi no campo da Saúde que tomei consciência da existência do mundo mental insano, através de um Projeto de Governo Federal chamado CAPS – Centro de Atenção Psicossocial, que tem como objetivo o tratamento e reinserção social de pessoas com transtorno mental grave e persistente. De acordo com a Lei de sua criação, os CAPS vieram para oferecer atendimento interdisciplinar, composto por equipes multiprofissionais, reunindo médicos, assistentes sociais, psicólogos, psiquiatras, entre outros especialistas, em substituição ao sistema de manicômios até então existente. No meio das pessoas com transtorno mental grave e persistentes estão os acometidos de esquizofrenia.
A esquizofrenia é uma doença mental grave, em que a pessoa afetada chega a ouvir vozes em sua cabeça, obedecer a comandos dessas vozes que só ela ouve, ver coisas que não existem, pensar que outras pessoas querem magoá-la e das quais ela precisa se defender, entre outros sintomas.
Foi num dos CAPS desse mundo de meu Deus que conheci uma jovem senhora, que vou nominá-la de Senhora “X”, com pouco estudo, mas cheia de talento para a escrita, vivendo nesse mundo paralelo que a mente dela criou. É da história dela que pretendo falar, e vou fazê-lo segundo suas próprias palavras:
Minha mãe era uma pessoa humilde. Trabalhava muito p’ra alimentar os filhos. Mas ela tinha um problema que ninguém entendia, e sobre o qual ninguém falava nada. Ela era muito agitada, e a maioria das vezes agressiva, batia muito nos meus irmãos, e eu, muito pequena, não sabia o porquê.
O tempo passou, e, quando completei seis anos, ouvi o homem que dizia ser meu pai falando p’ra ela que não me suportava; que não gostava de mim. Minha mãe disse p’ra ele calar a boca, porque eu estava acordada. Ele contrapôs dizendo que quando eu crescesse já estaria sabendo que ele não gostava de mim.
Era noite, eles brigaram. Depois ela me chamou, mas não respondi. Fiquei calada, muitas coisas passando pela minha cabeça. No dia seguinte fiz de conta que era um dia normal, mas não me aproximava dele.
Era sempre assim.
Cresci vendo um bêbado, que dizia ser meu pai. E minha mãe se matando de trabalhar, e ainda era imputada (?) quando ele chegava porre.
O tempo passou. Quando completei, acho que era dos 8 para os 12 anos, comecei a ouvir vozes, não tão agressivas. Essas vozes me diziam o que ia acontecer.
Foi aí que começou: quando sentia raiva de alguém, sentia uma grande vontade de tirar sangue daquela pessoa; sentia até o cheiro do sangue. Na minha cabeça, se eu visse o sangue, me acalmava.
Tinha visões, sentia medo, porque achava que era assombração. Nessa época, eu tinha uma irmã que não gostava de mim. Eu não sabia o motivo de tanta raiva. Ela era mais velha do que eu três anos, e cresci assim.
Quando completei 15 anos, olhava p’ra minha mãe e via nela seu jeito de tratar os filhos. Ela até que às vezes era carinhosa, mas de repente mudava completamente: começava a gritar conosco. Por outro lado, ela me protegia e ao mesmo tempo me agredia com uma sola de sofá.
Certa vez ela me bateu tanto, até eu perder as forças. Aí ela mandou o homem, que era meu pai, continuar a me bater. Ele não queria, mas ela disse se ele não me batesse ele ia p’ra rua; então empurrei no peito dele, e mandei ele me bater. Ele tirou o cinto de couro, enrolou na mão, olhou p’ra mim. De repente ouvi ela dizer: “mata ela”. Então ele começou a me bater. Não derramei uma lágrima. Falei p’ra ele me matar. Ela, minha mãe, ficou com raiva porque eu não chorava. Meu corpo estava cheio de hematomas. Ele parou de me bater, e ela mandou eu tomar banho. Eu disse que não ia. Depois, ela me levou pão com leite, eu não quis. O ódio tomou conta de mim. Eu não sabia o que fazer.
Aos 16 anos, sai de casa porque ela não deixava a gente sair, nem conversar com ninguém. Quando completei 17 anos, voltei. Foi aí que descobri que minha mãe tinha um atestado de doida. Mas, mesmo assim, não liguei. Eu a amava, apesar de tudo, mas não tinha o mesmo sentimento por meu pai. Aos 19 anos ela faleceu de câncer no estômago. Minha vida desabou: perdi a única pessoa que olhava por mim.
Depois de uns dias do falecimento da minha mãe, minha irmã e o homem que era meu pai me jogaram na rua. Eu não tinha p’ra aonde ir. Eles falaram que puta não entrava na casa. Vi minha bolsa de roupas sendo jogada pela janela. Quando deu 10:00hs da noite uma vizinha me deu abrigo. No outro dia fui p’ra casa do meu tio. Sofri muito daí p’ra frente.
Fui morar em outro Estado com uma irmã. Passei a ter visões, ter crises, mas eu não sabia o que era. Me levaram para um centro espírita, onde um homem falava coisas de espíritos. Comecei a me sentir mal, com outra crise. Quando voltei à realidade, não estava mais dentro daquele lugar, e não quiz mais voltar lá.
Em seguida retornei para minha cidade natal, onde fui morar com uma colega. Depois conheci meu marido. Passei um tempo na cidade, e em seguida fui morar na estrada. Continuava a ter visões, uma vida conturbada. Ele, meu marido, também achava que eu era meio doidinha, pelo jeito dele falar.
Com o passar dos tempos, fui percebendo que meu comportamento não era normal. Comecei a sentir vontade de fazer mal às pessoas, e ao meu marido também, quando eu ficava com raiva.
Passei a cuidar do homem que dizia ser meu pai; fazia tudo p’ra ele. Quando completei 29 anos, ele teve o prazer de falar no meio de algumas pessoas o que ele tinha falado no passado para minha mãe: que nunca gostou de mim. Fiquei muito triste com aquelas palavras, mesmo assim continuei a cuidar dele. Então ele adoeceu, e só queria eu perto dele. Fiz o meu dever de filha.
Em 2019, ele faleceu. Minha vida, que era um inferno, piorou. Meus irmãos me acusavam de tudo que não presta. Foi horrível.
Fui muito perturbada pelos meus irmãos, humilhada etc. Meu marido começou a trabalhar viajando, e então comecei a frequentar o hospital. Era quase todos os dias. Eu não falava nada p’ra ele. Sentia falta de ar, dor no peito, as visões eram frequentes. Tudo desandou. Não conseguia mais dormir. Passava a noite acordada, assustada não sei com quê. Se alguma coisa me perturbava, ia p’ro hospital, onde faziam medicação e me liberavam. Até que uma vez um médico olhou p’ra pessoa que me acompanhava no hospital e disse p’ra ela: essa moça está precisando da família dela. Voltamos p’ra casa.
Meu marido chegou. Fui à UBS, e lá entrei em crise. O médico não disse nada. Eu não conseguia mais me controlar, e me trouxeram para casa. Eu estava em pânico. Passei por um psicólogo, mas ele não tirou uma só palavra de mim. Foram várias seções, e nada. Me encaminharam p’ro CAPS, onde encontrei a psicóloga que me acompanha até hoje.
E assim é gestada e parida uma pessoa com transtorno mental. Os sofrimentos da Senhora “X” me ofereceram a oportunidade de falar algo sobre o assunto. Só que o relato acima não é suficiente para mostrar a realidade do mundo dos distúrbios mentais povoado pela insanidade nascida das circunstâncias.

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