10 - MINHAS FÉRIAS
- Antônio Tupinambá
- 30 de jul. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 20 de nov. de 2025
Antonio Tupinambá
AAML, Cad. 40EM
29/06/2013
Ultimamente tenho refletido muito sobre minha vida. Talvez porque esses quase sessenta e oito anos passados estejam interferindo no meu corpo físico tanto quanto nas coisas da minha mente, a ponto de encanecer meus cabelos e me fazer lembrar as palavras do Pregador:
“Tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derribar, e tempo de edificar;
tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;
tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de abster-se de abraçar;
tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de deitar fora;
tempo de rasgar, e tempo de cozer; tempo de estar calado, e tempo de falar;
tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.
Que proveito tem o trabalhador naquilo em que trabalha?”
....
“Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol?
Uma geração vai-se, e outra geração vem, mas a terra permanece para sempre.
O sol nasce, e o sol se põe, e corre de volta ao seu lugar donde nasce.
O vento vai para o sul, e faz o seu giro vai para o norte; volve-se e revolve-se na sua carreira, e retoma os seus circuitos.
Todos os ribeiros vão para o mar, e, contudo, o mar não se enche; ao lugar para onde os rios correm, para ali continuam a correr.
Todas as coisas estão cheias de cansaço; ninguém o pode exprimir: os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos se enchem de ouvir.
O que tem sido, isso é o que há de ser; e o que se tem feito, isso se tornará a fazer; nada há que seja novo debaixo do sol.
Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? ela já existiu nos séculos que foram antes de nós.
Já não há lembrança das gerações passadas; nem das gerações futuras haverá lembrança entre os que virão depois delas.
O que é torto não se pode endireitar; o que falta não se pode enumerar.”
...
Aprendi isso quando era bem jovem, criança mesmo. Nunca mais esqueci porque à época lia o texto completo encantado com o matiz poético de que está revestido. Minha mente era tocada mais pelo lirismo do que pela mensagem religiosa.
Os “Cantares” então...
Meu patrimônio pessoal foi incorporando sentimentos de poetas nossos que cantavam o civismo, como Olavo Bilac, o amor, como José de Alencar, e tantos outros.
E lá ia eu pelos igapós, sentado à popa da montaria do meu tio Manoel Beckman. Enquanto ele pescava, eu indagava de mim mesmo por que eu era assim; por que minha natureza não se embrutecia como a dos demais garotos daquele beiradão, que rolavam pelos caminhos medindo forças onde quer que se encontrassem.
A resposta era simples: nasci na época errada. Meu SER pertencia à época dos trovadores, dos boêmios, dos poetas, dos sonhadores... daqueles que, pensava eu, faziam do amor a medida de e para todas as medidas.
Mas um dia eu seria assim, ou levaria minha vida para esse rumo. Quem sabe não encontraria a Terra do Nunca?! Quem sabe não cruzaria com o Pequeno Príncipe e nos tornaríamos amigos? Só não tinha tutano para acompanhar os Três Mosqueteiros nas suas aventuras contra o clero corrupto.
Quando crescesse iria trabalhar e construir minha vida na utópica realidade dos meus devaneios de menino.
Cresci.
Mas cresci num mundo cruel, que nada tem a ver com os meus sonhos de criança. Incorporei no meu estoque de conhecimento uma coisa estranha chamada responsabilidade. Essa talzinha tanto acabou com os meus sonhos quanto me retirou o tempo para alimentar minh‘alma com leituras que nunca fiz, com livros que nunca escrevi, com poetas que nunca encontrei, com serenatas que ficaram apenas nos meus planos.
Hoje talvez devesse ficar envergonhado por declarar essas coisas e me expor ao ridículo. Mas talvez (mais um) ainda exista alguém tão sensível quanto eu fui, ou sou, que possa compartilhar comigo maravilhas identificadas nos textos que postarei.
Por que faço isso só agora? Porque todos os compromissos que assumi não me deixaram tempo para fazê-lo antes, como não tive tempo para tantas outras coisas que gostaria de fazer, movido, quem sabe, pela “vaidade” denunciada pelo Pregador.
Mas enquanto meu retorno à fonte de energia que sustenta meu corpo se aproxima veloz e inevitável, peço férias de tudo; aposento-me; mando tudo às favas e vou tentar mostrar as coisas belas que belas mentes produziram.
***
MEUS OITO ANOS
Casimiro de Abreu
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
– Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é – lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor!
Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!
Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!
Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
– Pés descalços, braços nus –
Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!
Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
– Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!
***

Que maravilha de texto! Que poema lindo! Revivi momentos de minha infância, me fez lembrar da minha saudosa mãe, que tal como você, possuía uma carga poética considerável. Na minha fase de criança, me fazia decorar poemas para eu recitar no Centro Espírita Tattwa Nirvana, e esse era um dos meus preferidos, e ainda é nos dias de hoje. É interessante e muito bonito de ver como você mantém vivo na sua memória suas origens, detalhando passo a passo o moldar da sua personalidade e os valores que você conserva vivos, e que ajudaram você chegar onde está. É um exemplo que merece ser seguido. Saúde e vida longa para você, a fim de continuar nos presenteando com textos maravilhosos.