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12 - MINHA INFÂNCIA VIROU LENHA

  • Foto do escritor: Antônio Tupinambá
    Antônio Tupinambá
  • 7 de ago. de 2025
  • 9 min de leitura

Atualizado: 20 de nov. de 2025




Antonio Tupinambá

 AAML, Cad 40

02/11/2017

 



O ribeirinho amazonense vivenciou alguns ciclos econômicos que interferiram na sua cultura e promoveram mudanças radicais no seu modo de interagir com o meio ambiente, com grandes prejuízos para a floresta amazônica e seus habitantes. De acordo com LOUREIRO, 2007, p. 219, na época colonial, o Amazonas tinha uma atividade agrícola de comodidades em crescimento, plantando-se o algodão, o café, o anil, o tabaco, o guaraná, e o cacau, cujos excedentes eram exportados. Havia alguma agricultura alimentar de subsistência baseada no cultivo da mandioca, da batata-doce, da macaxeira, do milho, do arroz, do feijão e da banana, pois a paupérrima economia não dava margem a importações. Na área industrial, existiam fabriquetas de anil, cordoaria de piaçaba, telhas, tijolos, redes, sabão, panos de algodão e estaleiros para barcos de madeira. Com o tempo, a população abandonou essas atividades para dedicar-se a outra, mais rendosa, o extrativismo.

O objeto deste testemunho está circunscrito ao período que vai da metade do XIX até nossos dias, e destaca principalmente as mudanças promovidas nas terras alagadiça, as várzeas, da região entre a cidade de Itacoatiara e o Paraná da Eva. Antes do início desse período, a devastação da floresta começou com o plantio do cacau, produto de grande interesse para a coroa Portuguesa no início do Século XVII. Entretanto a cultura cacaueira não impactou tão fortemente o meio ambiente porque, apesar das agressões resultantes do preparo da terra, o sombreamento necessário à proteção dos grandes cacauais, desde logo depois do plantio das mudas, era feito mediante plantio de árvores frondosas que anos depois cobriria o solo desnudo com uma camada de vegetação tão densa quanto a floresta original.

Naquela época, e até metade do século XX, a região amazônica era verdadeiramente um grande vazio demográfico, e, com grande segurança, pode-se afirmar que o meio ambiente era intato. A população rarefeita, miscigenada, sofria influência da cultura dos povos indígenas, incorporando suas crenças, seus hábitos, suas lendas. Uma parte da alimentação vinha da agricultura de subsistência, com ênfase para a farinha de mandioca e outros derivados dessa raiz; uma pequena parte vinha da caça de animais silvestres, abundantes na natureza, entre eles a anta, a paca, a cotia, as aves, todos de difícil captura razão da escassa existência de armas de fogo e de recursos financeiros para adquiri-las; da floresta eram retirados alimentos ricos em nutrientes, os frutos e sementes ainda hoje comercializados nas feiras e mercados de Manaus, mas, a maior parte provinha da pesca de espécimes existentes nos rios e lagos: abundavam o peixe-boi, os quelônios, o pirarucu, o tambaqui, a pirapitinga, e outros peixes de menor porte e nobreza, como os curimatãs (curimatá), matrinxãs (jatuarana ou jutuarana), jaraqui, surubim, caparari, etc.

Tal qual o ciclo do cacau, o extrativismo também não trouxe prejuízos para o meio ambiente. Com ele, o homem retirava da floresta os recursos naturais de origem animal e vegetal que ela produzia, sem a necessidade de derrubá-la. Pertence a esse período aquele que ficou conhecido como o ciclo da borracha, encerrado melancolicamente entre as duas grandes guerras. Neste, durante o verão amazônico o seringueiro extraía o látex diariamente mediante corte transversal, a “sangria”, de vinte e cinco a trinta centímetros na entrecasca da seringueira, e aparava a secreção (leite) num recipiente denominado tigelinha, de folha-de-flandres. Sem nenhuma orientação técnica para aquele mister, o seringueiro seguia o instinto e a tradição regional: a seringueira deveria ter no mínimo uma braça de circunferência; a sangria deveria obedecer a uma “bandeira” instintivamente planejada e imaginariamente desenhada no seu tronco, limitada por duas “guias” (riscos na casca) sendo a primeira com a função coletora do látex e a outra delimitadora do tamanho do corte; em nenhuma hipótese a “faca” (instrumento de corte) deveria tocar no lenho da seringueira, protegendo-a de morte precoce.

Os grandes cacauais das várzeas focadas neste testemunho eram parcialmente sombreados com seringueiras, não restando vestígios do desmatamento decorrente do preparo da terra para o plantio das mudas. Mas o ciclo da juta veio na sequência, dando início ao desmatamento e, via de consequência, ao prejuízo ecológico e cultural experimentado nos dias de hoje.

No início do ciclo da juta um grupo de jovens e obstinados imigrantes japoneses enfrentou uma odisseia em plena floresta amazônica, nas décadas de 30 e 40 do Século XX, para introduzir a cultura da fibra de juta no Brasil. Originária da Índia, a fibra era indispensável ao comércio internacional, usada nos sacos de café e outras mercadorias, por absorver umidade e preservar seus conteúdos. Mas poucos países a produziam em larga escala, e Parintins, no Amazonas, foi o canteiro experimental dessa nova cultura.

Vencida a euforia da produção da juta, o ribeirinho ficou sem alternativa de sobrevivência econômica, e começou a dedicar-se à criação de gado bovino. Para isso, havia necessidade de produzir alimentos para os animais, o que só era possível com a derrubada da floresta para plantio do capim próprio para esse fim.

Tanto para o plantio do cacau quanto da juta, e dos campos de pastagem, havia a necessidade do preparo da terra, agente da transformação que a floresta ainda sofre hoje. Como pode ser percebido, essa transformação não aconteceu de uma hora para outra. Demandou anos. Em cada um deles primeiro era feita a “broca”, depois a derrubada das árvores que geravam pouca sombra, seguida do “desgalhamento” das árvores derrubadas; um período para secar as folhagens; queimada; coivara; limpeza da área; plantio das sementes ou mudas; plantio de espécimes silvestres produtoras de sombras (no caso do cacau); capina periódica e, permanentemente, o cuidado com as pragas próprias que poderiam prejudicar a plantação, entre elas o carieiro.

Fazer tudo isso sem qualquer instrumento que não fosse o terçado, o machado e a enxada, naquela época, era vencer etapas desgastantes.

Enquanto um trabalhador hodierno avança a passos largos o estágio da “broca” usando roçadeiras motorizadas, o mais forte dos homens não conseguia avançar senão alguns metros por dia usando apenas o terçado e o “cambito”. Essa tarefa era geralmente realizada durante o verão amazônico, período entre os meses de agosto e setembro, com o sol a pino, embora sob a proteção da sombra das árvores de maior porte, mas sufocado pelo calor causticante causado pela umidade do ar naquele ambiente onde o vento refrescante não penetrava.

A derrubada das árvores era outra etapa da preparação da terra para o plantio, e certamente faria tremer qualquer ambientalista da atualidade. O caboclo, machado em punho, acercava-se da árvore que lhe cabia derrubar, media-a com um olhar que ia desde o rés-do-chão até o mais alto da sua copa, como a desafiá-la para um duelo de vida ou de morte, mas na verdade estudando qual seria o ângulo que deveria impor ao corte para que a árvore caísse no sentido leste/oeste, de onde e para onde sopram os ventos. Sem nenhum outro pensamento que não fosse vencer aquela batalha, dava a primeira machadada (na árvore) mais ou menos à altura de sua barriga, cerca de cinquenta a oitenta centímetros acima do rés-do-chão. A árvore deixava cair sua primeira lágrima, em forma da seiva que envolveu o fio do machado, numa tentativa vã de evitar aquele embate. À primeira, segue a segunda, a terceira... tantas machadadas quantas fossem necessárias, ora tendo como guia a destra, ora a sinistra do caboclo. O som de cada machadada ecoava na floresta virgem como grito de terror provindo das profundezas dos pesadelos mais terríveis, num aviso explícito de que, prosseguindo, o homem iria destruir aquela fonte de vida. Mas o caboclo, alheio a esses avisos, continuava sua faina até que um ruido forte se fizesse ouvir:

“Créhéhéhéhéhéhéhéhéhéhéééééé!!!!!!!!

Era o estalar da madeira anunciando que aquela batalha chegara ao fim, e que ela, a árvore que muita sombra ofertara aos habitantes da floresta, muitos frutos fornecera às aves e peixes de épocas diferentes, estava indo ao chão. A guerra com o homem estava perdida.

Um último grito:

- Pega filha da puuuuuttttttaaaa!!!!!!!!

Era o caboclo dando seu grito de guerra e, ao mesmo tempo, avisando aos companheiros de faina que a árvore estava indo ao chão, para que eles se protegessem.

Como numa corrida desesperada para fugir do seu algoz, durante a queda aquela até poucos instantes árvore frondosa, ia como que tropeçando noutras árvores de menor porte que se encontravam no seu caminho, e a elas ligadas ou não pelos cipós que durante muitos anos construíram uma rede de entrelaçamento familiar, levando-as também ao chão. Enquanto caia, o estalar do robusto caule sendo separado do coto que continuava preso ao chão, ia se juntando ao som dos galhos que se iam quebrando, transformando aquela barulheira toda no último alento das vidas que ali terminavam.

Ao final da etapa, aquelas árvores, tal qual corpos estendidos no chão, denunciava uma batalha fratricida entre o homem e a floresta, com resultados que só o futuro viria dizer.

Depois da derrubada, aguardavam-se uns cinco a sete dias para que as folhagens murchassem, e tinha início o estágio do desgalhamento. Desgalhar era separar, a golpes de machado ou terçado (facão), os galhos que não foram separados do caule durante a queda da árvore derrubada, reduzindo tudo a um amontoado de madeira e folhas, prontas para a queimada. Embora trabalhosa essa etapa não trazia nada de maior relevância, a não ser o registro de que com ela estava-se incrementando grande volume de material combustível e programando-se o estágio do encoivaramento para uma etapa mais amena.

Importante, mesmo, era o estágio da queimada, cerca de vinte a trinta dias depois da derrubada, única sem trabalho algum que não fosse o caboclo, archote improvisado na mão (pano velho de algodão embebido em querosene, preso ao pedaço de um galho qualquer), ao meio-dia dirigir-se à parte mais oriental da área a ser queimada. Riscar o palito de fósforo, acender o archote, impô-lo a um amontoado de galhos e folhas secas, aguardar um instante para ver o fogo propagar-se, partir para outro foco, e... continuar, continuar, continuar... até à extrema mais ocidental da área, virar as costas àquela grande fogueira acesa por ele e dela fugir porque o perigo dele próprio ser queimado era iminente. Com grande sensibilidade poética o compositor Ernesto Maia retratou esse momento telúrico, tocante, na Toada “Lamento de Raça”, com que o Boi Garantido defendeu suas cores num dos festivais de Parintins:


“O índio chorou, o branco chorou

Todo mundo está chorando

A Amazônia está queimando

Ai, ai, que dor

Ai, ai, que horror

O meu pé de sapopema

Minha infância virou lenha

Ai, ai, que dor

Ai, ai, que horror

Lá se vai a saracura correndo dessa quentura

E não vai mais voltar

Lá se vai onça pintada fugindo dessa queimada

E não vai mais voltar

Lá se vai a macacada junto com a passarada

Para nunca mais, voltar

Para nunca mais, nunca mais voltar

Virou deserto o meu torrão

Meu rio secou, pra onde vou?”


A saracura, a onça pintada, o macaco, ou outro ser vivente qualquer que não tivesse conseguido fugir era, logo no dia seguinte, facilmente encontrado morto no meio daquele mundo de cinza, carvão, árvores e galhos sabrecados.

Uma semana depois, tempo suficiente para resfriamento tanto da terra quanto do madeirame queimado, tinha início o estágio do encoivaramento. Encoivarar era reunir em montes mais ou menos equidistantes todos os galhos que o fogo não conseguira reduzir a cinzas, e, depois, queimá-los, sobrando apenas árvores de maior porte e não muito facilmente queimáveis, até que o tempo, senhor de todos os poderes, se encarregasse de destruí-las e se consumasse o processo de devastação da floresta que ali se iniciara.

Mesmo numa boa queimada, ou seja, quando os elementos convergiam para que as árvores derrubadas ficassem bem ressecadas e o fogo destruísse maior parte dos galhos, o encoivaramento era um trabalho difícil e desgastante porque feito em pleno sol do verão amazônico, de ordinário entre as sete horas da manhã às dezessete horas, com pequeno intervalo para uma refeição precária (pirarucu seco assado no fogo de lenha, acompanhado de chibé de farinha) chamada de almoço. Tudo isso num lapso temporal de uma a duas semanas.

Uma boa queimada trazia alegria ao caboclo porque, ele sabia, sua exposição ao sol era bem menor, em que pesasse o abrasamento maior decorrente daquele ambiente infernal em que se transformara a verdejante mata, nada que um gole de água, bebida na boca do balde de cuia, não pudesse refrescar.

Quando a queimada não era boa, esse período estendia-se para até um mês, ou mais, com prejuízos que ia desde o tempo perdido com o incremento do material a ser juntado, amontoado e queimado, passando pela possibilidade de ser perdido o tempo apropriado para o plantio. O perigo de insolação andava junto com o perigo de queimaduras decorrentes da ação dos raios solares diretamente no corpo do caboclo.

Finalmente, quando a última coivara ardia já se via e ouvia ao longe sinais de que o verão estava indo embora, cedendo lugar às chuvas intermitentes que transformavam as cinzas da queimada e das coivaras em adubo para a lavoura.

A terra estava pronta para receber as mudas ou sementes, com a ecologia sofrendo seus primeiros dissabores.

Apenas começara a devastação da floresta.

Durante o verão amazônico, ainda sói acontecer, grandes extensões de vegetação rasteira que um dia foi floresta, sobretudo à margem dos lagos, ressecam sob o sol causticante, transformando-se em material altamente inflamável.

Foi nesse mundo que vivi minha infância.

Quando nele voltei, depois de mais de meio século, não encontrei mais meus igapós, minhas capoeiras, meus murinzais... Onde existiam, restou a terra nua, pisoteada pelos bois que representam a fonte de renda dos meus conterrâneos atuais.

 

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