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HOMENAGEM AOS RECÉM-ADMITIDOS ACADÊMICOS DA ACADEMIA AMAZONENSE MAÇÔNICA DE LETRAS

  • Foto do escritor: Antônio Tupinambá
    Antônio Tupinambá
  • 27 de abr.
  • 6 min de leitura


Antonio Tupinambá

AAML, Cad. 40-EM

27/04/2026

 

 


Na noite do dia vinte e cinco de abril deste ano de dois mil e vinte seis, foram admitidos três novos acadêmicos ao quadro de Acadêmicos da muito querida Academia Amazonense Maçônica de Letras.

Na sua saudação ao público presente, o recém-admitido Acadêmico José Auri de Gusmão, em nome da turma, fez uma referência à obra “o outro e outros contos”, de autoria do seu Patrono, Benjamin Sanches (1915-1978). Contista brasileiro, membro do “Clube da Madrugada” destas paragens de Manaus - um movimento artístico fundado por jovens intelectuais em 22 de novembro de 1954, Benjamin Sanches passou a ser minha referência intelectual, não pelo pouco que produziu, mas como usou o verbo para dizer das nossas coisas.

Segundo Antonio Paulo Graça, doutor em Teoria da literatura e Professor da Universidade do Amazonas, Benjamin Sanches sofreu sob a mais poderosa arma da província: o esquecimento. Malpassada a primeira década de sua morte, ninguém mais lhe lembrava sequer o nome. Dificilmente alguém sabe quem foi ele, onde nasceu e morreu ou como viveu. Publicou dois livros, um de poemas, Argila (1957) e "o outro e outros contos" (1963). Escreveu no prestigioso Suplemento Dominical do Jornal do Brasil e participou ativamente do Clube da Madrugada, mas não há registro de que tenha recebido sequer uma homenagem de seus companheiros. Seus livros não foram reeditados (injustiça agora corrigida pela coleção Resgate) e ele se tornou o silêncio mais eloquente das letras amazonenses.

Tratava-se ele de uma figura de exceção. Ao contrário de nossos demais prosadores, quase todos seduzidos pelo regionalismo, não raro conservador, Benjamin Sanches investia na experimentação, na invenção. Cultivava excentricidades, como só escrever com minúsculas e alinhar o fim dos parágrafos pela direita. Isso eram apenas traços exteriores de forte individualidade, de imaginação caudalosa.

Escorado nessas colunas, permito-me reproduzir, em forma de homenagem, o conto de Benjamin Sanches intitulado “O Outro e Outros Contos – O Estropiado”, usando quela mesma forma de escrita daquele saudoso autor.

 

O ESTROPIADO

 

nunca teceu redes, não as estendeu para secar nem remendou as malhas rotas pela mistura do sacudido dos peixes ou pelos dentes das piranhas que caem naquele sorvedouro. àquilo (que) achava ser uma prática apoucada e cansativa. sempre deu preferência à bomba. com ela conseguia melhor pesca com menos tempo e trabalho. mas, uma coisa sempre acontece para quebrar as vantagens que se leva e muitas vezes vem de um vazio onde acumulamos toda a nossa vigilância. são as faces múltiplas da vida, cuja poeira de ouro é-nos uma constante ameaça.

logo que manobrou ao alcançar a embocadura, sentiu a pá do remo tornar-se mais pesada. faltavam-lhe as mãos e teve que curvar o peito para fixá-lo aos braços com mais segurança. deste modo conseguiu dominar a canoa que havia recuado, alguns palmos, empurrada na goela verde que espremia a água encapetada na inquietação de fugir ao aperto. mais além, onde as margens distanciavam-se, as remadas voltaram ao leve compassado que agrada aos músculos e aos ouvidos que não ignoram o belo da música.

- não pensei que você fosse tão nervoso - e volvendo a cara para a popa, prosseguiu - em vez de me ajudar com as suas remadas, fincou a língua nessas rezas ensinadas pelo diabo. não sei para que você quer essas mãos.

uma resposta malcriada ameaçou formar-se na garganta do menino, mas desapareceu antes de tomar consciência. preferiu guardar silêncio embora o vermelho da sua cara dissesse que não gostou daquela grosseira recriminação.

o podre da madeira deixava o rio gargarejar no côncavo do casco, obrigando-os ele quando em quando, a usar a cuia para lhe devolver a água que ameaçava atingir o estrado onde haviam depositado algumas bombas já preparadas e o restante ela munição para a carga.

aquela ocupação retardava a viagem. seus olhos pincelaram o firmamento e, pela posição dos astros, viu que para atingir a entrada do lago antes ela passagem do cardume, teria que acelerar as remadas que, agora, com impetuosidade, passaram a estraçalhar a lua que aquelas últimas horas noturnas, ainda teimava lamber o lodo do remo.

três dias antes, quando com o auxílio de amigos, bebericava num boteco flutuante, afirmara com jactância que apesar de ter perdido as mãos, não abandonaria a pesca fácil da bomba, pois, habilmente arremessava-a do ângulo formado pela articulação do braço e antebraço e, disso, se vangloriava constantemente. parecia-lhe, com aquilo, estar ajustando contas com o demônio. chegou mesmo a afirmar que se perdesse o que lhe sobrara dos membros superiores, passaria a utilizar os pés, sem contudo, abandonar aquela arriscada modalidade da profissão de matador de peixe. todos o ouviam com atenção e alguns chegavam ao ponto de admirar aquela corajosa determinação, no entanto, sempre o aconselhavam que largasse aquela perigosa tarefa, embora os seus olhos miúdos entonassem a atenção do grupo o ódio que lhe dera a trágica sorte, cuja lembrança, carregava em seus braços, naquela permanente visão da nítida forma do não aparecer.

remara mais de trinta quilômetros ao longo daquela noite branca de luar, e, no momento, deveria levar ao máximo a sua faculdade de atenção, no entanto, a lembrança daquelas imprecações traziam-no nervoso. Parecia-lhe que aquelas palavras retornavam em forma de unhas desfiando os seus nervos, enquanto a neblina da madrugada gelava a sua pele.

- preparou o jereré? - perguntou ao menino.

- já. respondeu e inclinando a cabeça fez o sinal-da-cruz.

- então faça o favor de ficar direito e acabe com este medo besta.

sentado, como se achava, atirou a primeira bomba que explodiu em profundidade sem surtir o efeito desejado. mandou para a tona apenas um esboço ela sua cólera. jerônimo impacientou-se. levanta-se e depois de encurtar o rastilho da segunda, encosto-a na brasa do cigarro que esmagava entre os lábios, mas, antes de arremessá-la, o petardo, na violência do seu furor cego, espedaça-lhe a cabeça e atira o seu corpo na água, que depois de mostrar o seu sangue, julgara tê-lo escondido para sempre. o estampido depois de haver rolado pelo verde da folhagem, espantando as aves, perdeu-se na crista daquela região quase deserta.

o imaterial de jerônimo acaçapou-se na proa envolto em maciça fumaça que foi crescendo para os lados e para cima até se tornar transparente, tirando-o daquele esconderijo sem o deixar sentir que não era alguém. mesmo desagregado do corpo não perdera a sua individualidade. no pensar existir passou a existir no pensar.

o menino que viajava na popa, foi precipitado pelo brusco deslocamento do ar e se não fora isso, o susto o teria amarrado à canoa. estonteado, conseguiu alcançar a margem depois de varar a muito custo um espesso coágulo ele folhagens. ainda apavorado ante o terrífico inesperado, subiu a pequena ladeira da margem, correu pela mata quase impenetrável até atingir esbofado o mais próximo barracão, que distava cerca de quatro quilômetros. pela primeira vez experimentara, em seu todo, o sentimento do medo. passados alguns minutos, livre da mudez do cansaço, mais ainda com a respiração irregular, esmiuçou a desgraça - isto mais cedo ou mais tarde teria que acontecer - quase que disseram em coro - nunca pensei que houvesse gente tão teimosa neste mundo - disse a negra isaura, esbugalhando os olhos ainda tufados de sono – e prosseguindo - era o último da tradicional família dos martins e nunca quis se casar. teve uma vida cheia de nada e uma morte que ninguém perdeu ou tirou proveito dela - e encerrou - era um pobre-diabo!

quando saiu daquele fulcro de trevas, onde agonizou o seu corpo e sem se afastar um segundo da vida em que esteve, vivia aquele instante sem traduzir os minutos anteriores. nem ao menos se recordava de ter ouvido o estampido que lhe despregara a cabeça e, talvez, em nada lhe importaria quaisquer recordações. perdera a vida, porém agora tinha a eternidade no bojo de sua canoa. não mais se ressentia da falta dos seus membros e julgava-se mais vivo do que nunca. sua mentalidade tornara-se mais ativa. procurando e criando as coisas desejadas, levando-o a viver no mundo espiritual, com os mesmos sentimentos que o dominavam na ocasião da morte. neste estado não encontrava dificuldades para dirigir a matéria tangível e grosseira, pois ficara, apenas, preso a um ténue laço que o ligava à ela.

a frágil embarcação levada pela correnteza, descia desgovernada. as pesadas gotas da chuva, acumulando-se em seu bojo, ameaçavam-na soçobrar. jerónimo. não encontrando a cuia encuiou a mão e esgotou-a. na ilusão do ainda sou, toma o remo e passa a navegar sem a cabeça e sem os braços. acompanha-o agudo assobio ele uma brasa sonora que tenta escapar do seu pescoço decepado.

 

***

 

1 comentário


Luiz Cardozo
28 de abr.

Excelente texto! Foi realmente uma noite excelente. Que revivamos mais vezes a memoria dos que nos inspiram!

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