2 - HOMENAGEM À DONA LITA, NO CÉU
- Antônio Tupinambá
- 24 de ago. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 20 de nov. de 2025
No dia 13 de maio de 2017 fiz uma homenagem à minha mãe, pela passagem do Dia das Mães. Hoje, 24 de agosto de 2025, quero usar as mesmas palavras, com algumas adaptações, para lembrar o dia da sua passagem para o Oriente Eterno, em 1996.
“Enquanto escrevo, meus pensamentos voam para um passado não muito distante e vejo aquela mulher de finos traços que as intempéries da vida transformaram numa rústica e honrada interiorana, mais da lavoura do que das coisas do lar. Falo da minha querida e inesquecível mãe, dona Lita, hoje já residente na mansão etérea do Grande Arquiteto do Universo, e a quem quero homenagear por sua passagem para a vida eterna, no dia 24 de agosto de 1996.
De quase nenhum saber das letras e dos livros, era Mestra na arte de fabricar a argamassa da personalidade impoluta dos seus filhos, mesmo algumas vezes utilizando os instrumentos da psicologia à sua mão: o falatório causticante no meu entender de menino, a palmatória, o galho de cuieira, o cipó fino, a corda de rede, ou qualquer outro objeto que lhe estivesse próximo e pudesse ser vibrado ou atirado contra nossos corpos, de formas a nos conduzir para o caminho do homem de “vergonha na cara”.
No beiradão desse Amazonas então insondável, onde o progresso passava ao largo, seu dia, que começava quando os galos amiudavam o canto na amplidão da madrugadinha, era ativo e produtivo, indo desde o preparar do cafezinho para “acordar o estômago” enquanto sua voz de soprano expulsava-nos (a mim e meus irmãos) da rede para o labor diário, passando pelo quebra-jejum, pelo aguar de suas plantas, pelo dar de comer às suas aves; nossa mestra das primeiras letras conseguia somar o bê-á-bá do ABC com o destro manipular da enxada, do terçado, do machado, tanto no preparo da terra quanto na colheita da sua plantação de milho, feijão, melancia, macaxeira, tudo para que no período da entressafra não faltasse alimentos para os seus filhos, a única forma que conhecia de manifestar seu grande amor maternal. Mas... Ai daquele que lhe faltasse com o respeito de entremeter-se em suas conversas com os mais velhos, de levantar a voz para lhe responder “de atravessado”, de mentir... Falar palavrão, então... Que Deus se apiedasse do atrevido.
Essa era a MÃE ARTESÃ, forjadora dos princípios éticos que norteiam minha vida até os dias de hoje. Por trás dela, estava a MÃE AMOR, frágil nos momentos de aflição decorrentes de moléstias que se nos acometiam, de perigos que são próprios da vida interiorana, sejam de acidentes com animais peçonhentos, com instrumentos de trabalho, com a fúria dos ventos e temporais a fazer banzeiros trágicos para as nossas pequenas montarias... Nessas ocasiões só lhe restava rezar, clamar a Deus para proteger e trazer seus filhos sãos e salvos para o seu convívio. É a essa MÃE ARTESÃ que agradeço pelo que hoje sou; é do colo dessa MÃE AMOR que sinto saudades, a entalar-me com a emoção, a fazer rolar lágrimas pelo meu rosto enquanto escrevo estas lembranças.
Dedico a ela, minha inesquecível mãe, as belas palavras saídas do fundo d’alma de Eduardo Mayr, com adaptações, agradecendo ao Confrade e Irmão Edson Gomes da Silva, quem m´as forneceu:
AS MÃOS DE MAMÃE
Mamãe tinha as mãos feias.
Seus dedinhos eram tortos,
Suas veias salientes.
Não era bonitas como seu sorriso...
Eram mãos de trabalho,
Estragadas pela azáfama do dia-a-dia,
Das montanhas de roupas para lavar.
Sempre no jirau de louças,
A costurar, pregar botões, remendar.
Cozinhar, fazer beijus,
Descasca, fritar...
E para variar, mexer no terreiro,
Fazer tricô, crochê,
Limpar, varrer,
Criar encanto.
As mãos de mamãe só descansavam
Para dormir.
Não eram mãos bonitas.
Mas quando eu as vi,
Mãos postas no repouso eterno,
Compreendi como havia sido pretencioso
E desinformado.
As mãos de mamãe já não me pareciam feias.
Muito ao contrário,
Havia uma radiosidade que delas emanava.
Aquelas mãos postas, de dedos entrelaçados,
Que dizia muito mais que sua imagem,
Diziam de carinhos incontidos,
Cuidados, desvelo,
Horas perdidas à cabeceira,
Esperar, preocupações...
Falavam de lágrimas enxugadas,
De almas confortadas.
Falavam de mágica e encanto.
Eram indicativas de amor,
De um amor verdadeiro
Por mim, pelos meus, por todos,
Pela humanidade.
E então eu compreendi
Que aquelas mãos feias não eram feias,
Que aquelas mãos enrugadas não eram enrugadas.
Eram mãos de fada,
Eram mãos doces,
Eram mãos suaves,
Eram mãos lindas,
Eram mãos maravilhosas.
Eram como as mãos de Deus.
***
Sua benção, minha querida e inesquecível mãe
Do seu filho,
ANTONIO TUPINAMBÁ

Querido Tupi, é um misto do hilário e de saudosismo triste. Vc é um mestre das letras, do conhecimento, do amor fraterno, vc é o verdadeiro pedreiro! Bjosss saudosos do seu perfume imponente, dos seus ralhos destinados aos meus arroubos. Rsrs.
Emocionante e bela homenagem a sua saudosa e amada mãe, a pessoa mais importante de sua vida! Agora caro amigo, está nas suas mãos o poder de artesão, para tecer bem as teias de sua vida!
Emocionante e bela homenagem a sua saudosa e amada mãe, a pessoa mais importante de sua vida! Agora caro amigo, está nas suas mães o poder de artesão, para tecer bem as teias da vida!
Sua habilidade na escrita e capacidade de expressar gratidão, amor e afeto de forma sincera e autêntica, em especial pela amada mãe, é incontestável e não há como não ficar preso na leitura. Você é fonte de inspiração e emoção! Gratidão por ter cruzado com você na trajetória dessa vida.