GENIALIDADE, LOUCURA, AMOR E DECEPÇÃO
- José H. C. Abreu

- há 10 minutos
- 2 min de leitura
Por José H. C. Abreu
Há, sim, uma linha tênue — quase invisível — que separa extremos humanos que moldam a história, os afetos e as tragédias.
A genialidade e a loucura caminham lado a lado porque ambas nascem de uma mesma fonte: a ruptura com o comum. O gênio não aceita o mundo como ele é; o louco, muitas vezes, sequer reconhece seus limites.
Um cria novas realidades, o outro se perde nelas. Em ambos, há um excesso — de imaginação, de sensibilidade, de visão — que ultrapassa o que chamamos de normalidade. Por isso, realizam o que a maioria não ousa nem conceber. Não por escolha racional, mas por compulsão interna. A genialidade, nesse sentido, é incontrolável: não se liga e desliga, não se ajusta ao relógio social, não pede licença. Ela irrompe.
Já o amor e a decepção, embora igualmente intensos, pertencem a outra ordem. Eles não nascem do excesso, mas da relação. São construções entre dois, alimentadas por expectativas, frustrações, silêncios e palavras mal ditas.
A decepção raramente surge do nada; quase sempre é o amor que adoeceu. E justamente por serem relacionais, são ajustáveis. Podem ser redimensionados, ressignificados ou dissolvidos — não pelo tempo, mas pelo diálogo. Onde há palavra, há possibilidade de reconciliação ou, ao menos, de pacificação.
O paralelo transcendental está aí: enquanto a genialidade e a loucura habitam o indivíduo e escapam ao controle consciente, o amor e a decepção habitam o vínculo e podem ser transformados pela escuta. Um eixo é vertical — nasce de dentro e explode para fora. O outro é horizontal — circula entre pessoas e pode ser reorganizado.
Talvez a maturidade humana consista em reconhecer essa diferença: aceitar o que em nós é indomável, sem romantizá-lo, e assumir responsabilidade pelo que pode — e deve — ser ajustado. Porque criar mundos pode ser destino. Destruir relações, não.
***

Comentários