FORMATURA DO BIBICA, O DOUTOR DO ABC.
- Antônio Tupinambá
- 8 de jun.
- 4 min de leitura
ANTONIO TUPINAMBÁ
AAML, CAD. 40=EM
07/12/2016
Bibica é o meu neto. Na verdade, Yaniv David Benchimol (as coisas da cultura judaica engoliram o Nogueira, da mãe), com seis anos de idade, baixinho, muito inteligente, tem uma queda para guardar datas e coisas de calendário. Ainda mais: é bom de jiu-jitsu (já o vi derrubar garotos grandões, segundo ele quase adultos)!
Ontem foi a solenidade de formatura do Bibica. Agora ele é doutor no (ou do) ABC, muito embora seja excelente em matemática.
Como costumo fazer, cheguei ao local da solenidade, o teatro do Shopping Manauara, bem antes do horário marcado no convite, e fiquei sentado no lugar determinado para mim, observando os pais e convidados chegarem, pensando sobre a inutilidade de tudo aquilo que mais satisfazia a vaidade dos pais mas de nenhum significado para as crianças.
De repente abrem um telão por sobre o palco e começam a passar vídeos institucionais, da escola onde o Bibica estuda. Eu, ali, criticamente analisando as mensagens que a direção da escola queria fazer chegar aos pais, mostrando um pouco das atividades com que as crianças e os adolescentes estavam envolvidos enquanto partícipes de um projeto educacional que utiliza os mais variados métodos pedagógicos para despertar seus interesses pelo esporte, pela cultura, pelo convívio social sadio, e naturalmente pelos números e pelas letras.
Teatro lotado ouve-se a voz da mestra encarregada do cerimonial chamando à Mesa o diretor geral da organização escolar, seguido de coordenadores e professores. Os trabalhos são declarados abertos e é franqueada a entrada dos formandos, todos togados, tendo início à cerimônia propriamente dita.
Depois dos discursos lidos pelos representantes dos formandos, crianças entre seis a oito anos, um dos professores tomou de um violão e começou a dedilhar a introdução de “Aquarela”, de Toquinho, e então aqueles mais de cem formandos, em pé, constituíram um verdadeiro coral e cantaram aquela canção com muita afinação e eloquência, levando-me a substituir o pensamento críticos por um nó na garganta, totalmente tomado pela emoção.
Enquanto continuava a cerimônia com o imprescindível juramento de que iriam continuar a vida escolar numa nova fase, e a chamada nominal dos estudantes para receberem seus certificados, até toda aquela criançada lançar seus capelos ao ar, como fazem os formandos de cursos superiores, eu ia navegando por um mar de pensamentos sobre o sistema educacional brasileiro, sobretudo aquele gratuito, oferecido pelo Estado, a Escola Pública, em comparação com aquele que eu estava testemunhando existir, oferecido pela iniciativa privada para quem pode pagar.
Desde muito cedo sempre ouvi que as crianças eram o futuro do Brasil. Certamente que são, sobretudo aquelas crianças que estão tendo suas personalidades forjadas em ambiente familiar e escolar saudáveis, como no caso do meu neto. Se bem conduzidos, serão elas as ferramentas da transformação de caráter que nossa nação está precisando para alcançar um lugar de destaque positivo entre outras nações. Mas o que dizer da grande maioria daquelas crianças que provém de famílias acometidas de doenças sociais e que, quando muito, frequentam a escola pública apenas como justificativa para sair de casa? O que dizer daquelas que em vez de atividades socioculturais encontram na escola o ambiente doentio do consumo de drogas e prática de pequenos delitos que o passar dos anos vai tomando proporções inimagináveis; daquelas que em vez de compromissados com um projeto de educação os professores têm de conviver com remuneração humilhante, sujeitos a sofrer violência física de seus próprios alunos; daquelas crianças ribeirinhas esquecidas pelo poder público nos beiradões dos nossos rios?
Não pude deixar de comparar duas épocas e duas situações antagônicas: a minha época de criança na escola e a época do meu neto.
Certa vez publiquei no facebook que nasci na Ilha Grande do Soariano, município de Itacoatiara, no meio do maior rio do mundo tanto em extensão quanto em volume d’água. Aprendi a ler com minha mãe, numa época em que nem escola existia quanto mais creche, pré-escola, professor, transporte escolar, merenda escolar, kit escolar, e todas essas facilidades que existem hoje à disposição dos estudantes. O meio de transporte era a canoa, movida a remo; o sustento provinha da agricultura de subsistência e da pesca no lago atrás de casa; a economia familiar fundava-se no plantio e colheita da juta; a escola formal (se é que uma mesa na sala da casa de um ribeirinho, onde ao derredor crianças de diversas idades sentavam-se e recebiam instrução de uma professora, pode ser chamada de escola formal) era acessada mediante pequena viagem de canoa, durante cerca de uma hora. Só depois dos treze anos de idade fui conhecer a cidade e lá estudar, por esforço do meu pai que queria, de qualquer forma, que eu fosse alguém na vida. Foram anos de sofrimentos, humilhações, fome, “gastar sola de sapato” para chegar à escola... O futuro naqueles momentos me sorria de forma enigmática, sem que eu pudesse vislumbrar quaisquer possibilidades de sucesso.
Comparando tudo isso com a festa de formatura do Bibica, um pensamento tomou todo meu ser:
- Deus proteja nossas crianças e as desvie dos caminhos do mal, sobretudo aquelas que não podem pagar uma escola de qualidade para preparar-se para o futuro; aquelas nascidas no seio da miséria; aquelas esquecidas pelas autoridades nos beiradões dos nossos rios.
Amém!
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