top of page

1 - ENFRENTANDO O GENERAL ALZHEIMER

  • Foto do escritor: Antônio Tupinambá
    Antônio Tupinambá
  • 3 de jun. de 2025
  • 2 min de leitura

Atualizado: 20 de nov. de 2025


ANTONIO TUPINAMBÁ

AAML, Cad. 40-EM

03/05/2025

 


Hoje pela manhã um Irmão de Ordem, o Sato, me encaminhou o texto a seguir, que eu não soube identificar o autor. De princípio entendi tratar-se de um outro Irmão de Ordem, o José Abreu, lá das terras de Castro Alves, Rui Barbosa, e do violão baiano Marta Rocha. Disso não tenho certeza, mas uma coisa é certa: me identifiquei com o texto, e achei interessante e útil para esse público que, como eu, já dobrou o Cabo da Boa Esperança. Por isso, vou reproduzi-lo na íntegra, registrando meus agradecimentos ao Sato e ao Abreu.


Enfrentando o General Alemão por José H. C. Abreu CONFRADE da ACADEMIA DE CULTURA DA BAHIA:

Chegar aos 77 é como alcançar o alto do morro depois de uma longa caminhada. O fôlego já não é o mesmo, é verdade, mas o horizonte se abre com uma clareza que só a idade pode oferecer. E é aí que começa uma das fases mais ricas e silenciosas da vida: a fase contemplativa. Nesta estação da existência, não é mais o amanhã que nos seduz — é o ontem que nos visita. E como visita! Basta um cheiro de café, uma velha canção ou uma fotografia esquecida para que memórias brotem como flores fora de época. É nesse tempo que muitos de nós descobrem que recordar é, na verdade, resistir. Porque quando revisitamos a infância em preto e branco, os primeiros amores, os tropeços da juventude e os silêncios da maturidade, estamos fazendo mais do que relembrar: estamos reafirmando quem somos. Como quem folheia um velho álbum e diz: “Eu estive aqui. Eu vivi.”

Esse exercício diário de rememoração, quase um ritual, pode parecer apenas saudosismo para alguns. Mas acredito, com convicção e carinho, que é também uma forma de nos protegermos daquele velho inimigo sorrateiro, que atende pelo nome de General Alzheimer — esse alemão indesejado que tenta apagar justamente aquilo que nos torna humanos: a nossa história.

Sim, a memória é nossa trincheira. E mantê-la ativa é uma forma de resistência. Falar dos filhos, dos amigos que já partiram, dos carnavais em que dançamos até o dia clarear, das cartas trocadas com emoção — tudo isso é como passar a mão sobre os degraus da escada por onde subimos. E ao tocar esses degraus com a lembrança, mantemos viva a luz que nos trouxe até aqui.

Na fase contemplativa, não estamos parados — estamos em movimento interno. E é talvez o movimento mais importante da vida. Porque enquanto o corpo desacelera, a alma viaja. A contemplação não é rendição: é sabedoria. É olhar para dentro com gratidão, rir de antigos medos, perdoar-se com ternura, e aceitar que tudo foi como precisava ser.

Se você chegou aos 70, celebre. Você entrou na fase em que cada lembrança é um diamante lapidado pelo tempo. E ao contá-las, ao compartilhá-las com os mais jovens, você se torna farol. Talvez não lembre mais onde deixou os óculos, mas lembra perfeitamente da noite em que dançou com sua esposa como se o mundo fosse acabar. E isso, meu amigo, ninguém pode tirar.

Portanto, siga lembrando. Siga contando. Siga vivendo nesse museu íntimo onde cada peça tem seu valor. Porque enquanto houver memória, haverá presença. E o tal General que espere sentado.

 

 

 

Comentários


  • Facebook B&W
  • Branca Ícone Instagram
bottom of page