DISCURSO DE POSSE DE JOSÉ AURI DE GUSMÃO VASCONCELOS NA ACADEMIA AMAZONENSE MAÇÔNICA DE LETRAS
- Antônio Tupinambá
- 29 de abr.
- 6 min de leitura
· Senhor presidente da Academia Amazonense Maçônica de Letras, querido confrade Luiz Filipi Batista Cardozo;
· Sereníssimo Grão-Mestre da Grande Loja Maçônica do Amazonas, Querido Irmão, Tufi Salim Jorge Filho;
· Autoridades Maçônicas aqui presentes;
· Mui Dignos Confrades da Academia Amazonense Maçônica de Letras;
· Queridos Irmãos da Ordem,
· Queridos Irmão de minha amada oficina Loja Rio Negro nº 4;
· Minhas Senhoras, meus Senhores,
· Minha amada esposa, minha querida filha, meu querido filho Igor que nos assiste em transmissão ao vivo pelo Whatsapp no Rio de Janeiro.
INTRODUÇÃO
É com profundo senso de honra, humildade, responsabilidade e emoção que compareço a esta tribuna para assumir a Cadeira nº 11 da Academia Amazonense Maçônica de Letras.
Tomar posse nesta Augusta Casa não é apenas alcançar uma distinção honorífica — é aceitar um compromisso moral, intelectual e espiritual com a palavra, com a memória e com o futuro do pensamento maçônico e amazônico.
Aqui não se ingressa para ocupar um espaço vazio.Aqui se ingressa para guardar uma chama. A chama do conhecimento, da transformação e perpetuação do saber.
Hoje me cabe assumir uma Cadeira, cuja história honra esta Casa e cuja linhagem literária e simbólica nos impõe respeito, estudo e continuidade.
Mas....
REVERÊNCIA AO ANTECESSOR – URIAS SÉRGIO DE FREITAS
Antes de qualquer palavra sobre o patrono, é dever — e honra — render tributo àquele que me antecedeu.
Confrade Urias Sérgio de Freitas,Receba, onde você estiver, minha sincera reverência.
A cadeira que ora assumo conserva ainda a marca de sua presença, de sua produção intelectual e de seu compromisso com esta Academia. Toda posse é também um gesto de continuidade; ninguém começa do zero — começamos sobre os ombros de quem veio antes.
Que este gesto não seja de substituição, mas de sucessão respeitosa, de reconhecimento e gratidão pelo legado deixado.
Sua passagem brilhante por 18 anos nesta casa muito contribuiu para o seu engrandecimento. Ao confrade Urias Sérgio de Freitas, minha especial reverencia!
BENJAMIN SANCHES E O CLUBE DA MADRUGADA
É com espírito de admiração intelectual e profundo respeito a tradição desta Augusta Casa que evocamos, nesta Sessão Solene, a memória e o legado de Benjamin Sanches de Oliveira, patrono da Cadeira nº 11 da Academia Amazonense Maçônica de Letras, o qual é portador de uma peculiar expressão literária com a qual me identifiquei.
Benjamin Sanches integra uma geração que encontrou no Clube da Madrugada não apenas um movimento literário, mas uma posição ética diante da arte.
O Clube da Madrugada foi um movimento artístico e literário típico do século XX que surgiu como reação à modernidade artística inaugurada pela Semana de Arte Moderna de 1922, chegando ao Amazonas quase três décadas depois.
Foi nesse caldeirão cultural cavalgando no galope do experimentalismo, que surge BENJAMIN SANCHES DE OLIVEIRA, nascido em Manaus em 21 de abril de 1915, onde também faleceu em 1978. Poeta e contista, Benjamin foi engenheiro agrônomo de formação e profissão e é reconhecido como uma das figuras mais singulares da literatura amazonense do século XX. Sua trajetória literária foi marcada por certa discrição pública e por um relativo afastamento dos círculos editoriais nacionais, o que contribuiu para um longo período de esquecimento após sua morte. Contudo, a partir do final do século XX, sua obra passou por um processo de revalorização acadêmica, sendo objeto de estudos e análises críticas.
Na contramão dos que falam do esquecimento para com Benjamin Sanches, encontrei uma Dissertação de Mestrado, apresentada em 2020 por Jackeline Mendes Brandão, ao Programa de Pós- Graduação em Letras e Artes da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), onde descobri a paixão que Benjamin nutria pelo Nacional Futebol Clube, agremiação esportiva amazonense, da cidade de Manaus. Em dezembro de 2025, a Revista Xapuri Socioambiental publica o poema Iara de Benjamin Sanches, junto a uma crônica intitulada A FORMA PERFEITA DA TEZ MORENA. E, pasmem, encontrei no Spotify o poema Iara sendo declamado por uma aluna chamada Fernanda Gomes Ferreira, da 8ª série da Escola Pássaro Azul, em São Félix do Xingu, no estado do Pará.
Homem descrito como manso, silencioso, quase invisível socialmente, escondia sob essa discrição um projeto literário sofisticado e inquieto.
Talvez por isso tenha passado tanto tempo à margem dos grandes circuitos editoriais. Talvez porque sua obra exigisse algo raro: leitores dispostos a enfrentar a si mesmos.
Em sua trajetória de poeta e contista, Benjamin Sanches publicou dois livros: um de poesia, Argila, em 1957, e o segundo de contos, cujo título é o outro e outros contos, em 1963. Contudo, iniciou seu trabalho literário por meio de poemas e contos que eram publicados nos jornais da época.
ARGILA: A POESIA DO HOMEM INACABADO
No livro Argila, Benjamin nos oferece uma poesia que abandona o exótico e abraça o drama do existir. O próprio título é revelador: Argila é matéria primordial. Barro moldável. Forma que ainda não é forma. É o homem em estado de pergunta.
Seus poemas falam do tempo, da morte, da solidão, da instabilidade do “eu”. Há ali ecos existencialistas, tensões ontológicas e uma poesia que não consola — interroga.
No poema Ser e Não Ser, o sujeito não se conhece plenamente, vive suspenso, incompleto, lançado no mundo sem garantias — profundamente moderno, profundamente humano.
IARA: DO MITO AO SÍMBOLO
Quando Benjamin recorre ao mito amazônico no poema Iara, ele o faz de maneira radicalmente nova. A Iara que ele constrói não é folclore decorativo.
É força erótica, ambígua, fecundante e destrutiva. Aqui, a Amazônia deixa de ser cenário. Passa a ser símbolo universal da condição humana.
Benjamin compreendeu algo essencial: O regional só se torna grande quando toca o universal.
A PROSA DE “O OUTRO E OUTROS CONTOS”
Já no livro o outro e outros contos, Benjamin aprofunda ainda mais sua investigação. Os conflitos externos quase desaparecem. O drama acontece na consciência. Seus personagens não são heróis — são homens comuns, urbanos, fragmentados, angustiados. Pensam mais do que agem. Sofrem sem saber exatamente por quê. Manaus surge não como paisagem exuberante, mas como espaço psicológico, por vezes opressivo e labiríntico.
No conto O outro, a alteridade não é externa — é o lado obscuro interior. Um diálogo com aquilo que Carl Jung chamou de sombra, e que todos carregamos.
Sua prosa enxuta, psicológica e simbólica, faz dele um dos ficcionistas mais sofisticados do Clube da Madrugada. À luz da psicologia freudiana, sua obra revela-se um campo fértil para compreender como o homem amazônico moderno lida com repressão, culpa e fragmentação interior. Trata-se de uma literatura que não busca confortar, mas desvelar e por isso Ler Benjamin Sanches hoje é perceber o quanto ele permanece atual e inquietante.
ATUALIDADE DE BENJAMIN SANCHES
Sua obra antecipa discussões contemporâneas sobre identidade, alienação, fragmentação psíquica e saúde mental. É literatura que não envelhece porque não se apoiou em modismos, mas em questões permanentes do humano.
Dessa forma, podemos dizer que Benjamin não é apenas um autor regional. É um escritor que colocou a Amazônia no centro do pensamento moderno.
COMPROMISSO COM A ACADEMIA
Ao assumir esta cadeira, assumo também um compromisso.
E quero neste momento, falar em nome dos colegas que hoje tomam posse junto comigo nesta Augusta Casa, José Maia Cruz e Maximilian César da Silva Moreira de Araújo, juntos estamos prontos para assumir:
Compromisso de honrar a memória dos Patronos de nossas cadeiras, mantendo viva sua obra, estimulando sua leitura, promovendo o debate crítico e resgatando sua importância para as novas gerações.
Compromisso de contribuir ativamente com a Academia Amazonense Maçônica de Letras — com estudo sério, presença constante, produção intelectual e espírito fraterno.
Compromisso de integrar uma linhagem simbólica iluminada pelos Valores da Maçonaria, nossa sublime Instituição. Conscientes de que aqui, cada cadeira não é ocupada: é zelada. E cada patrono não é lembrado apenas como um nome, mas como consciência viva que inspira o presente.
E, sobretudo,
Compromisso de compreender que uma Academia não é um espaço de vaidade, mas de serviço à cultura, à palavra e à sociedade.
AGRADECIMENTOS FINAIS
Permitam-me, senhores, fazer agora os agradecimentos por este momento tão especial!!!!
Agradecer ao GADU – por oportunizar esta celebração transbordante de felicidades.
Agradecer aos Confrades Acadêmicos – pela confiança ao nos elegerem para compor esta Academia;
Agradecer aos irmãos da Loja Rio Negro, companheiros de jornada iniciática e humana, cuja presença nesta noite é para mim uma profunda alegria, destaco os incentivos constantes do Ir. Zulmar Bonates e sobretudo do Ir. Paulo Cezar Fortes Couto, hoje Grande Benemérito da Ordem, e que tanto me estimulou a escrever como articulista da revista Arte Real, assim como os inúmeros incentivos as minhas palestras maçônicas.
Agradecer aos amigos e convidados que compartilham conosco este momento.
E, permitam-me,
Agradecer a minha esposa Valdécia e minha filha Laura, e o meu filho Igor pelo apoio incondicional e constante, pois nada disso faria sentido sem vocês.
ENCERRAMENTO
Senhoras e senhores;
Que eu seja digno da Cadeira nº 11.Que eu seja fiel ao espírito inquieto de Benjamin Sanches.E que a palavra — livre, honesta e humana — continue sendo o elo que nos une nesta Academia.
A todos, muito obrigado.
Por:
José Auri de Gusmão Vasconcelos (Cadeira nº 11)
25/04/2026
Palácio Maçônico Rio Negro / Manaus / Amazonas

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