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8 - CARTA ABERTA AO IRMÃO HIRON FERREIRA LIMA (Em Memória)

  • Foto do escritor: Antônio Tupinambá
    Antônio Tupinambá
  • 9 de jul. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 20 de nov. de 2025



Manaus, 22 de fevereiro de 2014.

 

 

Caríssimo Irmão Hiron (Ferreira Lima),

 


Certa vez li um texto que dizia ser a vida uma viagem de trem, onde passageiros sobem e descem. Eu penso que é uma viagem de barco, desses em que os passageiros dependuram suas redes, cochilam ou conversam até desembarcarem no seu destino. É mais apropriado para esta região onde os rios substituem as rodovias e ferrovias de outras plagas.

Era uma festa de confraternização, quando embarquei nesse barquinho. Faz alguns anos, e muita gente já estava a bordo.

Na minha viagem, tal qual a da alegoria do trem, vi muita gente embarcar e desembarcar. Com alguns, que armaram suas redes próximas à minha, travei algum tipo de relação; com outros, apenas estávamos no mesmo barco.

Em certo momento o barquinho parou num porto e, um Irmão muito querido que já estava a bordo, Josélio, te recebeu no primeiro convés e determinou que amarrasses tua rede bem próxima à minha. Naquele momento pensei poder construir uma grande amizade contigo: Josélio já havia me falado das tuas qualidades, especialmente da tua brilhante inteligência, elevada cultura e, muito enfaticamente, da tua habilidade com o violão. Fostes então recepcionado com uma festa. A partir daí, a viagem, que era minha, passou a ser nossa.

Enturmamo-nos para essa grande viagem pela vida. Lembro que Dermeval (Mendes Rocha) e seu irmão, (Sebastião) Pinto, Isaac (Lopes), Wilson (Ayub), Luís Roseira, Edson (Duarte de Aquino) e outros que integravam essa grande Fraternidade Universal chamada Maçonaria, eram viajantes no mesmo barquinho da vida.

Durante a festa, expressastes tua opinião sobre vários assuntos, destacando-se a religião, particularmente a doutrina pregada pela Igreja Assembleia de Deus; falaste de política, de políticos, de justiça e injustiça, de medicina e de médicos. Parece que sabias de todos os assuntos.

Foi então que apareceu um violão. Passado de mão em mão, até chegar às tuas, o abraçaste como se abraça uma pessoa muito amada. Tangeste suas cordas para afiná-lo, delas retirando sons maviosos. Ouvi pela primeira vez tua interpretação de” Odeon”, de Ernesto Nazareth, e meu queixo “caiu”; quando interpretaste “Abismo de Rosas”, de Canhoto, fui às lágrimas. E assim foste fazendo desfilar canções que tocaram e hão de tocar no fundo d’alma daqueles que apreciam o belo em todas as suas manifestações. Ao fim, senti ter criado um vínculo inquebrantável contigo.

Já faz muitos anos desde o primeiro momento. Durante essa viagem, outros passageiros embarcaram nos mais variados portos; tantos desembarcaram. Fiquei muito triste quando desembarcou o Conte (Francisco Conte Fernandes); chorei quando o Samuel Guerra desembarcou; chorei mais ainda quando o barquinho aportou para o desembarque do Edson Duarte de Aquino; Francisco Queiroz Gomes, Dermeval, Jorge Ayub, Santiago...

Enquanto o barquinho corria, as coisas iam acontecendo. Umas boas, outras nem tanto.

Conquistaste um diploma Bacharel em Direito, que te habilitou ao exercício da profissão de advogado. E dos bons! Teus filhos ficaram homens; tua esposa, apesar das tuas peraltices, foi a Coluna que te sustentou; tua velha mãe nunca te negou a benção; teus verdadeiros amigos continuam a te admirar; tua habilidade com o violão, nem se fala.

Hoje o barquinho está ancorado num porto que mais parece um PORTAL para grandes INICIADOS. A notícia que corre é que vais desembarcar, obrigado a isso por força de uma lei imutável.

Se eu pudesse, meu Irmão, pagaria ao Comandante do barquinho a extensão de tua passagem para que pudéssemos continuar juntos, nem que fosse o suficiente para que dedilhasses “Cordas de Aço”, do Cartola, e eu, muito desafinado, tentasse cantar, como muitas vezes fizemos:

 

“Ah, essas cordas de aço

Este minúsculo braço

Do violão que os dedos meus acariciam

Ah, este bojo perfeito

Que trago junto ao meu peito

Só você violão

Compreende porque perdi toda alegria

E, no entanto, meu pinho

Pode crer, eu adivinho

Aquela mulher

Até hoje está nos esperando

Solte o teu som da madeira

Eu você e a companheira

Na madrugada iremos pra casa

Cantando...”

 

Do teu Irmão e Amigo

Antonio Tupinambá

 



PS: Tive que me afastar um pouquinho do convés onde viajávamos. Soube, logo depois, que desembarcaste no dia 25 de fevereiro de 2014, às 11:30 horas. Fiquei muito triste com teu desembarque, mas, ao mesmo tempo, certo de que passarás por aquele PORTAL a que me referi alhures, INICIARÁS uma nova viagem, adentrarás na Mansão Etérea do Grande Arquiteto do Universo, e de lá, de alguma forma, aliviarás os nossos pesares. Só me resta te desejar uma boa viagem nessa tua nova jornada pela ETERNIDADE!

 

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