top of page

9 - CARTA A UM INTERNO DO SISTEMA PRISIONAL DAGMAR FEITOSA

  • Foto do escritor: Antônio Tupinambá
    Antônio Tupinambá
  • 9 de jul. de 2025
  • 7 min de leitura

Atualizado: 20 de nov. de 2025


No início do ano de 2010 chegou às minhas mãos uma carta escrita por um menor infrator, aprisionado numa instituição denominada Dagmar Feitosa. Dela, da carta, retirei a essência da mensagem de Natal que ele mandou para sua psicóloga, e a digitei na forma a seguir. Como tinha sido escrita à mão em papel de péssima qualidade, muitas palavras não consegui decifrar, então "ajustei" o texto a uma linguagem um pouco mais legível. Veja o texto:

 

Oi, Silvia,

 

(Aqui) é o Leonardo quem escreve esta carta só para agradecer por ter me ajudado e ainda esta(r) me ajudando. Com você eu aprendi a compreender as coisas; eu aprendi a ser forte; a entender que preciso tomar meus remédios.

É por isso que eu declaro que a liberdade e o prazer de viver são meus direitos, independentemente das intempéries da vida que estou atravessando.

Não preciso dos efeitos das drogas para ser livre e feliz. Estou ciente de que a mentira e a dependência são amigos íntimos. (Assim), declaro que fico livre tanto da mentira como da dependência, assim como o Mestre dos Mestres, Jesus Cristo, declarou com autenticidade que sua alma estava angustiada antes de morrer. Também eu decido falar dos meus sentimentos e desejos com sinceridade: viverei a arte da autenticidade. Reconheço a minha doença, mas decido convictamente que não quero ser um doente fármaco-dependente, deprimido, obsessivo etc. Enfrento sem medo as minhas dores emocionais, ansiedade, angústia, frustração, humor deprimido, e as trabalho com dignidade e sabedoria, pensando antes de agir. Estou consciente de que, uma vez dependente, o meu problema não é mais só as drogas fora de mim, mas a imagem dela registrada na minha mente, no meu inconsciente.

Portanto, reescrevo minha memória cada momento com ideias saudáveis e inteligentes; critico todas as ideias e pensamentos negativos que povoam o palco da minha mente e que me desanimam de reconstruir uma nova vida; transformo os meus invernos em belas primaveras; resgato a liderança do eu nos focos de tensão gerados pelas minhas perdas, dificuldades e frustrações, e, consequentemente, domino o gatilho da memória que produz a ansiedade, o humor deprimido e a compulsão pelas drogas. Nunca vou desistir de mim.

Determino a abstenção completa das drogas, incluindo o álcool. Todavia, se eu recair, redobrarei meu ânimo e recomeçarei imediatamente meu trabalho, e não me afogarei no sentimento de culpa e de autoabandono. Posso perder algumas batalhas, mas não perco a guerra contra minha doença psíquica. Supero todo fracasso, angústia e desmotivação. Construo um oásis em cada deserto que atravesso.

Tenho plena convicção de que o autor da existência, Deus, me criou para ser livre, alegre e saudável. Por isso eu O amo com toda a minha alma.

 

Dagmar Feitosa, 21/12/2009

Obrigado

Leonardo.

Feliz Natal.

Natal de 2009

 

.............................................................................................

 

 

Quando li esse texto, fiquei comovido. Conhecia um pouco da história daquele adolescente, contada por outra psicóloga que trabalhava naquela instituição. Resolvi tentar ajudá-lo, e o fiz escrevendo-lhe logo em seguida uma carta. Veja o texto:

 

Leonardo,

 

Você não me conhece, e possivelmente não vai me conhecer. Sou um senhor de 65 anos de idade. De família muito pobre, nasci no beiradão do rio Amazonas e vivi naquele lugar até aos 24 anos de idade, trabalhando na agricultura e sobrevivendo do plantio e colheita de juta, da pesca, e de outros afazeres interiorano, ajudando meu pai que hoje conta 92 anos. Vim para Manaus, estudei, fiz faculdade, passei em concurso público e, hoje, posso dizer que “venci na vida”, embora tenha experimentado muitas vezes a fome, a falta de onde dormir, a saudade da família que deixei no interior, especialmente meu pai, minha mãe e meus irmãos.

Li o texto anexo (uma carta que você mandou para sua psicóloga) e fiquei me perguntando por que um rapaz como você foi parar num lugar como esse (Dagmar Feitosa). Não é difícil de imaginar que a causa principal foi o consumo das drogas a que você se refere na carta; o que quer que você tenha cometido, certamente foi por ou para satisfazer as necessidades que lhe foram impostas pela dependência química dos produtos que você consumia. Mas esse é um assunto que poderá ser mais bem estudado entre você e sua psicóloga; esta carta não tem o objetivo nem de censurar nem de julgar você. Estou escrevendo porque percebi em você virtudes e/ou qualidades que poucas pessoas no mundo possuem, mas que precisam ser estimuladas e melhor desenvolvidas.

Percebi que você possui a virtude da gratidão. Enquanto muitos dos internos do Dagmar Feitosa tentam prevalecer sobre seus guardiões (desculpa por eu não conhecer a linguagem utilizada para designar as pessoas que cuidam dos internos) utilizando a força da violência, manifestada em atos de intimidação, de desrespeito à autoridade, à dignidade da pessoa humana, etc., você simplesmente RECONHECE o esforço que sua psicóloga faz para ajudar você a reconstruir sua vida, e AGRADECE por isso com belas palavras, nascidas num canteiro onde o sentimento da gratidão não costuma vingar.

A sua declaração de que a liberdade e o prazer de viver são seus direitos, me dizem da sua vontade de romper com o passado e RECOMEÇAR sua vida de conquistas pela força do TRABALHO HONESTO, com DIGNIDADE, longe de tudo que possa servir como justificativa para privá-lo desse bem inegociável, que é próprio do homem civilizado: a LIBERDADE com RESPONSABILIDADE. De fato, a liberdade e a alegria de viver são seus direitos, mas, para conquistá-los, ou para não os perder, você vai precisar trilhar o caminho da retidão de caráter, da RESPEITABILIDADE, da busca daquilo que as nossas leis nos garantem quando obedecemos as suas regras: a CIDADANIA. Sinto nas suas palavras que dentro de você existem forças que, se você realmente quiser, podem levá-lo à liberdade e ao prazer de viver (a tão decantada FELICIDADE), lhe permitindo reescrever suas memórias, a transformar seus invernos em belas primaveras, a construir um oásis em cada deserto que você atravessar, como você mesmo declarou poeticamente na carta. Estou torcendo para que suas promessas se transformem em realidade. Mas... como fazer para que isso aconteça?

Percebo, na sua carta, que você tem facilidade com a palavra escrita, senão você não conseguiria colocar no papel aquela bela mensagem de Natal para sua psicóloga.

Quem sabe não é esse o seu caminho?

Escrever!

Talvez contar para o mundo como é a vida numa instituição como o Dagmar Feitosa; de onde vem a violência que grassa nesses ambientes; como funciona a mente de um delinquente compulsivo; o que impulsiona o submundo das drogas; o que pensa um dependente químico a respeito de tudo, e por aí afora. Garanto que sua produção literária, dependendo da direção que você der a ela, poderá ser uma contribuição para o GOVERNO corrigir as falhas do SISTEMA PRISIONAL que impedem a transformação de jovens transgressores em cidadãos respeitáveis. O SISTEMA vigente foi construído há muito tempo, com base em informações de teóricos que NÃO VIVERAM a realidade que você vive, e, daí, a quase inócua função desse SISTEMA. Você, com sua produção literária, poderá contribuir para, verdadeiramente, levantar templos à VIRTUDE e cavar masmorras ao VÍCIO, ao mesmo tempo em que constrói sua nova vida, tijolo por tijolo, usando a argamassa do amor ao próximo para consolidar essa obra.

Você, ou alguém que ler esta carta, poderá pensar que estou delirando; que isso é pura utopia; que você e os seus companheiros de infortúnio não tem jeito. Em defesa do meu pensamento eu digo que a única diferença entre você e eu é que eu nunca usei drogas, e consequentemente nunca oportunizei momentos que pudessem me levar a perder minha liberdade. Para eliminar essa diferença, aí estão os remédios que você precisa usar; usando-os permanentemente, nos nivelaremos em tudo, salvo que eu nunca estive numa prisão. Quanto à liberdade de ir e vir que você perdeu, isso certamente você recuperará depois de pagar sua conta com a justiça. Não esqueça que você só perdeu a liberdade de ir e vir, e que a verdadeira liberdade você mantém: a liberdade de pensar. Use esse pensamento para construir ferramentas que o ajudarão na construção do seu futuro sem máculas.

Voltando ao assunto da real possibilidade de você enveredar pelos caminhos da literatura, é verdade que o seu texto padece de uma boa revisão gramatical, mas isso é só uma questão de treinar (leia-se ESTUDAR – e aí está incluído a leitura de bons livros), e em pouco tempo você produzirá textos irreparáveis. Nesse sentido, remeto você à leitura de uma obra que considero perfeita para ilustrar o que é a busca da perfeição naquilo que a gente se propõe a fazer: Fernão Capelo Gaivota. É uma alegoria que o autor usa para ensinar o quanto a força de vontade ajuda na conquista de um objetivo; o quanto o esforço físico e mental desprendido para o aperfeiçoamento de uma obra pode iluminar as trevas que impedem o homem de alcançar o seu lugar no mundo espiritual.

Você é jovem, como um dia eu fui; você ainda não tem a idade que eu tinha quando saí do interior, quase analfabeto; você é forte, porque sobrevive num mundo de violência e de desequilíbrios psíquicos.

Se eu consegui conquistar um espaço invejável no mundo, você também vai conseguir. Basta querer, e percebi que você quer isso. Certamente você vai precisar de ajuda e, para tal, você deve encontrar a porta certa (talvez uma instituição religiosa, mesmo uma igreja) e nela bater; leve como escudo protetor o Volume das Sagradas Escrituras e o conhecimento da PALAVRA inspirada de Deus e da DOUTRINA do Seu filho, Jesus, o Cristo.

Cumpra sua promessa: nunca desista de você.

Que Deus te proteja.

 

ANTONIO TUPINAMBÁ

 

...................................................................................................

 

Algum tempo depois fiquei sabendo que esse jovem foi morto pela polícia, quando tentava fugir da cena de um crime que ele acabara de praticar.

Por quê?

 

1 comentário


Suzi Moraes - Psicóloga
22 de jul. de 2025

O Dagmar Feitosa é uma instituição prisional que pertence ao sistema socioeducativo do estado do Amazonas. Tem como pano de fundo o resgate da socialização de menores que cometeram crimes ou infrações que ferem a legislação.  Contudo, na realidade, o objetivo principal é a  punição, com a privação da liberdade. Por conta disso ocorrem grandes rebeliões.

Por mais que o interno cumpra sua pena e saia com a intenção de exercer valores que o leve para uma vida digna, não existe um programa de acompanhamento que guie essa pessoa para a retidão. Ele, o interno, saí do sistema solitário e com marcas de rejeição social  que podem contribuir para a reincidência, uma vez que ele enfrenta desafios para se reintegrar…

Curtir
  • Facebook B&W
  • Branca Ícone Instagram
bottom of page