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AVÔ, CONTA-ME A TUA HISTÓRIA

Foto do escritor: Antônio Tupinambá
Antônio Tupinambá
há 31 minutos
93 min de leitura

 

 

 

                                                                                       

 

 

APRESENTAÇÃO

 

 

 

Meu neto, de 15 anos, que mora em Portugal, quando do meu aniversário de 80 anos, mandou-me de presente o projeto de um livro proposto por Elma van Vliet, distribuído pela Porto Editora, de Portugal. Junto com o livro veio um bilhete dizendo:

 

Vila Verde (Distrito de Porto, em Portugal), 25/09/2025”. 

Oi, vovô, quero lhe parabenizar. Muitos anos de vida. Tudo de bom. Muito obrigado por ser o melhor vô que tive. Sempre ao meu lado nos momentos mais difíceis. Mesmo longe de mim, você sempre está no fundo do meu coração. Sua presença sempre me alegra.

Parabéns pelos seus 80 anos de vida!

Para mim você é o maior exemplo de determinação, conseguiu grandes conquistas sendo quem você é.

Te amo muito, vovô!

Yaniv

TE AMO VOVÔ!!!!!!

 

Vovô, estou encaminhando um livro no  qual o senhor escreverá sua história. No futuro irá devolver este livro para eu ler e guardar, para sempre, a sua história inspiradora e emocionante.

 

Ao abrir o livro para uma leitura rápida, percebi que não conseguiria escrever minha história no pequeno espaço que a autora Elma van Vliet reservou para isso. Então estou pedindo emprestado o roteiro do livro proposto em forma de perguntas do meu neto e as minhas respostas, aproveitando coisas que já escrevi, com o acréscimo de outras que vão brotando nas minhas lembranças. Minhas respostas se referem a coisas da minha vida, que vou contar para meu neto.

No projeto de livro que ele mandou, vou registrar apenas pequenos textos daquilo que vou escrever como sendo minha biografia.

Antes, permito-me cismar sobre o que sobrou de mim nestes 80 anos de existência!

Hoje sou um octogenário, que se considera curumim[1]  do beiradão[2] do rio Amazonas. Acometido das mazelas da idade, sofrendo de um dos males que atacam a mente, a depressão, sentado na cadeira confortável do meu escritório, num dos bairros mais nobres da cidade, depois de uma rápida olhada no presente de aniversário que meu neto mandou, ponho-me a cismar.

O que estou fazendo aqui? Saí daquele beiradão de meu Deus por vontade do meu pai, para estudar e construir uma vida longe daquelas paragens inóspitas, onde certamente eu não sobreviveria se lá continuasse. Constituí família, gerei filhos a quem dei o conforto que nunca tive, luxos que nunca tive, oportunidades que nunca tive; ajudei parentes, amigos, fiz o que pude fazer para quem um dia me estendeu a mão... Realizei tudo o que me obriguei a fazer em benefício dos meus pais, dos meus irmãos, dos meus parentes!

E agora?

Por que não consigo me encontrar comigo mesmo? Por que ando tão só mesmo estando ao lado da minha família, dos amigos conquistados, dos conhecimentos apreendidos nas Ordens Iniciáticas?

E segue o curumim cismando...

Buscador, nas minhas buscas no mundo material, tanto quanto no mundo da indagação filosófica, ou no mundo espiritual, não encontro nada que possa preencher o vazio que me invade a alma nesses momentos de melancolia profunda. A fé, me foi tirada pelos líderes religiosos ao pregarem suas doutrinas construídas em cima de verdades que passam longe da moral e da ética; a esperança, de que alguma coisa possa acontecer para mudar os rumos da nação, esvaiu-se com a realidade das políticas de governo, quer do meu país quer de outras nações.

Com a velhice, já sem forças para iniciar novas jornadas, agrava-se meu estado depressivo à medida que imagens da minha infância vão surgindo na minha mente. Do caleidoscópio, brota a lembrança daquela casa simples, inteiramente construída pelo meu pai com as ferramentas simples de que dispunha na época, coberta e cercada de palhas de babaçu; dos brinquedos por mim mesmo construídos; das fugidas para aventuras na capoeira crescida na restinga daquele beiradão onde estava erguida a casa do meu pai, em busca da confiança de sonhados passarinhos pousando em minhas mãos; nas idas ao lago que servia de dispensa, onde inicialmente ia pescar de caniço; das visitas à casa da minha avó, que demandava mais de quatro horas de viagem de canoa movida a remo; das histórias e “causos” que ouvia de um velho e querido tio-avô...

Muitas lembranças!

E eu a cismar!

- O que estou fazendo aqui? Essa cidade, suas ruas, seus coloridos, as pessoas, tudo, tudo não me diz mais nada.

E concluo.

- Já viajei pelo mundo, já conheci outras paragens, mas nada mais disso me interessa mais. Vou voltar para o meu beiradão! Vou voltar para os braços da minha mãe! Quero abraçar meu pai, meus irmãos... Quero tomar o mingau de banana-sapo feito pela minha irmã naquele fogão a lenha... Quero brincar com os cata-ventos feito de pedaços de palha arrancados da parede da casa... Enfim, quero voltar a ser o curumim que sempre fui!

 

 

 FALA-ME SOBRE A TUA INFÂNCIA

E SOBRE COMO CRESCESTE

 

 

 1 - SOBRE A TUA INFÂNCIA

 

 Meu neto pergunta: Quando e onde nasceste?

Minha Resposta:

Para responder às perguntas deste capítulo, entenda-se como infância o período que vai desde o nascimento da criança até aos doze anos de idade, e, adolescência, dos treze aos vinte anos.

A essa primeira pergunta vou responder explicando como nasciam os curumins no beiradão do rio Amazonas, onde nasci, no final do segundo quartel do Século 20. 

A Segunda Guerra Mundial havia terminado há pouco, com a rendição do Japão em 02 de setembro de 1945 e a consequente extinção do Eixo[3]. A Alemanha já havia se rendido quatro meses antes, mas só depois de haver matado mais de 6 milhões de judeus, e mais: entre 200 a 500 mil ciganos, mais de 3 milhões de prisioneiros de guerra soviéticos, cerca de 200 mil deficientes...

Enquanto isso, a gravidez da futura mamãe fluía normalmente. Seus trabalhos domésticos não paravam, salvo para o repouso noturno. A cozinha era parte de sua responsabilidade familiar, assim como o jirau à beira do rio, onde as roupas eram lavadas à mão. Nas horas vagas dos seus afazeres cotidianos, a caminho da roça, suas mãos calosas seguravam a enxada com que ia capinar o mato que estava invadindo sua plantação de mandioca, milho, feijão, tudo para o consumo daquela família que deveria ser constituída apenas por ela e o pai da criança, mas, dada certas circunstâncias, envolvia outros familiares.

Já no sexto mês da gravidez algumas providências haviam sido tomadas. Os pintos já estavam grandinhos, quase frangos que serviriam de alimento durante os primeiros sete dias do resguardo. Poderiam até ser castrados e mantidos em local separado das demais aves, onde seriam alimentados especialmente para a engorda.

E assim estava sendo feito.

O objetivo era aqueles frangos estarem no ponto certo, gordos e sadios, até o final do oitavo mês de gravidez daquela moça de já trinta e um anos de idade. Ainda jovem, mas, para a tradição daquele mundo de meu Deus, era considerada idosa para uma maternidade tranquila.

Por iniciativa dela, com a ajuda e os conselhos da mãe, os vizinhos e a parentela estavam contribuindo com o fornecimento de roupas usadas para serem transformadas em cueiros destinados à proteção e ao conforto daquela criança. As plantas de folhas e raízes cheirosas despontavam nos canteiros, prometendo os primeiros banhos, do futuro bebê, aromatizados com mucura-caá, arruda, cidreira, e outras ervas, que também serviriam de escudo contra doenças e maus-olhados que poderiam acometer o recém-nascido.

Também já havia sido feito uma primeira visita à autodidata parteira que há muitos anos aparava a curuminzada nascida naquele beiradão, muitos deles já adultos. O contrato tácito arranjado naquela visita rezava que aproximadamente uma semana antes da data prevista para o parto, ela deveria ser buscada em sua casa, para ficar à disposição da parturiente quando a natureza se manifestasse em forma das primeiras dores características da expulsão da criança pelo organismo da mãe. Enquanto não chegasse a hora, a parteira aplicava alguns apalpados na barriga da futura mamãe, para colocar a criança na posição correta; purgantes e chás, com o objetivo de facilitar a dilatação vaginal na hora do parto.

A contrapartida desse contrato tácito era um compadrio entre pai, mãe e parteira, que, por força desse dispositivo consensual, ela, a parteira, assumia a condição dividida de “mãe” daquela criança para o resto da vida.

Por sua vez, o pai já havia providenciado o “foguete” Adrianino, junto com uma boa cachaça, para saudar a criança depois do primeiro choro. Os peixes já estavam salgados, a farinha ensacada, os beijus empalhados, tudo aguardando o tão esperado momento.

Pelas contas da parturiente, a criança deveria nascer entre o final do mês de setembro e metade o mês de outubro. Razão disso, o pai do nascituro foi buscar a parteira, já no vigésimo quinto dia do mês de setembro daquele ano que, segundo se ouvia dizer naquele beiradão, tinha acontecido, ou estava acontecendo, uma grande guerra. Mas isso não importava, porque essa guerra, diziam, era no estrangeiro, muito longe daquelas paragens. Importante mesmo era a criança nascer.

Curumim, ou cunhantã? Isso só iria ser descoberto depois que a criança nascesse. Naqueles recuados anos, e no beiradão do rio Amazonas, não havia como saber antecipadamente o sexo de uma criança antes do seu nascimento, ou, se existisse como, essa novidade ainda não havia chegado lá, nem por ouvir dizer.

Desde o dia seguinte à chegada da parteira, a futura mamãe foi submetida a uma pesada vigilância. Ela era seguida por toda parte pela parteira, que lhe observava e avaliava tanto física quanto psicologicamente. E haja chás, fricções, regimes alimentares, conselhos, e tudo o que fosse necessário para acalmar aquela inexperiente futura mamãe. Ela, que queria ir ver suas plantações, estava proibida de arredar o pé fora de casa; chegar perto do rio, nem pensar – os botos vermelhos poderiam causar estragos na saúde daquela criança que ainda estava no seu ventre; o verão, com calor insuportável, era amenizado com banhos dentro do próprio quarto de dormir; a água, trazida para ali em latas vazias de querosene, era carregada pelo futuro papai.

O mês de setembro terminando, e nem sinal dos sintomas do parto. Os cuidados dispensados por dona Honorina, a parteira, continuaram, mas no primeiro dia do mês de outubro a futura mamãe foi recolhida a um dos quartos daquela casa de madeira de tantos outros quartos, construída entre o final do século XIX e início do século XX para abrigar a família dos pais dela. Na madrugada do dia seguinte, as primeiras dores do parto foram sentidas, ainda muito espaçadas. Todos da casa foram avisados do evento, e os procedimentos iniciais foram tomados. Primeiro, foi improvisada uma “cama”, com redes e roupas velhas estendidas sobre o assoalho previamente higienizado, porque naquela casa não existia cama: todos dormiam em redes; também foi providenciada uma gamela[4] de madeira, contendo água, que deveria ser mantida sempre quente, para uso no momento adequado; depois, a parteira Honorina foi peremptória com o taciturno pai:

- Compadre, sai! P´ra fora! Só as mulheres ficam, para ajudar. Deixa tua mulher comigo. Tudo vai dar certo, se Deus quiser. E ele há de querer!

E lá vai o futuro papai com a cabeça cheia de pensamentos, fantasiando o futuro da família enquanto se afastava para o terreiro. Ele tinha consciência das suas limitações: não sabia ler nem escrever, mas poderia ensinar ao filho suas habilidades com a enxó, a serra, o formão, o martelo, a goiva, a plaina, e outras ferramentas que manuseava com a destreza de um carpinteiro, formado na escola do mundo pelas necessidades de sobrevivência. As letras, isso seria ensinado pela mãe, que era muito “estudada”.

No terreiro, os homens, maridos das irmãs da parturiente que auxiliavam a parteira, aguardavam silenciosos ouvirem o choro da criança, para beberem o “mijo”. Ocasionalmente relatavam experiências recentes sobre esses momentos, ou comentavam sobre o estado das suas plantações, criações, pescarias.

No quarto, à luz de lamparina de querosene, a parteira vigiava silenciosamente enquanto suas ajudantes se revezavam em idas à cozinha ou para alimentar o fogão de lenha, ou para aquecer o café que servia para espantar o sono, ou para preparar mais um chá para parturiente que, nessas alturas, gemia com mais intensidade as dores do parto.

- Comadre!

Era dona Honorina, a parteira.

- Minha filha, essa dor vai aumentar muito depois que a bolsa estourar, e isso pode acontecer a qualquer momento! Isso é normal. Você vai ter que reunir todas as suas forças para expulsar essa criança de dentro de você. O dia já vai amanhecer e as dores vão amiudar e aumentar de intensidade. A dilatação já começou, mas ainda está muito pequena. Logo, logo a bolsa vai estourar e tudo vai se abreviar. Tem fé em Deus que tudo vai dar certo!

Amanheceu o terceiro dia daquele outubro de sol. Finalmente a bolsa amniótica se rompeu, e com isso as dores foram amiudando, crescendo. Os gemidos transcendiam para gritos de desespero. A dilatação já estava bem avançada ainda insuficiente para dar passagem ao feto, até que, lá pelas tantas da tarde daquele dia, aquela criança nasceu.

Debaixo dos cuidados da parteira Honorina, todas as providências foram tomadas para o primeiro e essencial choro e, imediatamente depois, a definitiva separação física da dependência materna, pelo corte do umbigo.

- O que é? O pai grita pelo lado de fora da porta.

- É um curumim, respondeu dona Honorina, em couro com as demais mulheres que assistiram e ajudavam em todo o trabalho do parto.

E lá vai o pai levar a notícia aos demais homens que se encontravam naquela casa para ajudar de alguma forma, agora, em vez do terreiro, todos estavam sentados ao redor de uma mesa no ambiente da casa que servia de sala de jantar.

- Nasceu! É um curumim, grita o pai cheio de orgulho.

- Bota o mijo, respondem os outros homens, todos aguardando com ansiedade aquele momento!

E foi com satisfação que aqueles rudes homens receberam aquele curumim que ainda nem havia aberto os olhos para ver a luz do dia! E lá se vai a cachaça das garrafas, bebida com grande satisfação, e o espocar dos fogos de artifícios, tudo para festejar o nascimento daquele curumim.

...

Foram essas as circunstâncias do meu nascimento, no dia três de outubro do ano de 1945. Naquele beiradão, não havia hospital, nem médico, nem enfermeiros, nem instrumentos cirúrgicos, nem medicamentos, nada, apenas o sentimento de amor fraternal entre os interioranos.

 

Meu neto pergunta: Qual é o teu nome completo?

Minha Resposta:

 

Na minha certidão de nascimento estou registrado em cartório do município de Itacoatiara, Estado do Amazonas, com o nome de Antonio Tupinambá Melo Nogueira.

 

Meu neto pergunta: Sabes por que é que teus pais escolheram teu nome? Minha Resposta:

 

Sim!

Na verdade, não foram meus pais que escolheram meu nome completo. Naquela época, na família do meu pai era costume as crianças do sexo masculino receberem dois nomes próprios, sendo o primeiro nome o mesmo primeiro nome do avô, e, o segundo nome, de livre escolha dos pais. Só que quem escolheu o meu segundo nome, Tupinambá, foi meu avô paterno. E ele o fez, segundo minha mãe, em homenagem ao seu “guia” espiritual, o “Caboclo Tupinambá”, que “baixava” (incorporava) no corpo de um sensitivo local, pertencente a uma das categorias de espiritistas, para orientar pessoas necessitadas de atenção à saúde, ou portadoras de necessidade materiais ou espirituais.

 

Meu neto pergunta: Tinhas (ou tens) alguma alcunha carinhosa?

Minha Resposta:

 

Tinha, sim, e ainda tenho!

As pessoas, parentes ou não, sempre me chamaram de Tupi. Hoje entendo isso como uma forma carinhosa de dirigirem-se a mim, creio que em razão do meu nome ser muito extenso, e as pessoas serem preguiçosas. Razão disso, encontraram uma forma de economizar fôlego.

Até pouco tempo atras eu não gostava disso, mas depois de ingressar na Academia Amazonense Maçônica de Letras, onde todos me tratam carinhosamente por essa alcunha, resolvi encarar com normalidade o assunto.

 

Meu neto pergunta: Como eras em criança?

Minha Resposta:

 

Sempre fui uma criança com saúde muito frágil (entenda-se como criança o meu período de vida até os oito anos de idade).

Isso, entretanto, não me impediu de querer ser criança, como de fato fui. Mas ser criança na região onde nasci e fui criado é muito diferente de ser criança na cidade, principalmente naquela época em comparação com os dias de hoje. Mais adiante vou tentar explicar a razão.

Ainda hoje sinto-me criança em algumas situações, como por exemplo quando encontro uma criança e sinto aquela vontade enorme de brincar com ela, falar bobagens etc., sob o olhar desconfiado dos pais dela.

Meu neto pergunta: Eras tímido ou extrovertido?

Minha Resposta:

 

Fui uma criança muito tímida, e isso transcendeu para a pré-adolescência, adolescência, puberdade, e até para a fase adulta da minha vida. Mas isso era comum no beiradão onde nasci.

Lá, as famílias viviam isoladas, longe de um convívio social. No período de minha infância, minha família (meu pai, minha mãe, eu e meu irmão dois anos mais novo do que eu) tínhamos como vizinho mais próximo uma família há aproximadamente dois quilômetros de distância, pela parte de baixo do rio Amazonas; o outro vizinho, pela parte de cima, distava uns três quilômetros.

Raramente recebíamos visitas. Quando isso acontecia, nós, crianças, escondíamo-nos atrás das portas, paredes ou árvores, para “bisbilhotar” o visitante. E, quando nos aproximávamos, éramos “gentilmente” obrigados pelos nossos pais a deixar o recinto, para “não ouvir conversas de gente grande”.

Não havia como ser extrovertido, até porque não havia crianças com quem pudéssemos nos relacionar.

 

Meu neto pergunta: Tinhas algum super-herói preferido?

Minha Resposta:

 

O meu primeiro super-herói, só vim conhecê-lo aos dezesseis anos de idade, quando já era aluno interno da Escola de Iniciação Agrícola do Amazonas, o “Paredão” de muitas lembranças.

Era o Tarzan, personagem de um filme do mesmo nome, onde o super-herói emitia lindos gritos convocatórios aos animais das savanas africanas para auxiliá-lo na proteção da mocinha Jane.

Antes disso, nunca ouvi sequer falar em ou sobre super-heróis. Nem eu, nem criança alguma daquele beiradão.

As personagens que existiam brotavam da minha imaginação, depois de ouvir estórias contadas por um tio já muito idoso, embalando nas redes amarradas a um dos cantos da casa, antes de dormir. Essas estórias envolviam personagens das lendas amazônicas, como o Curupira (que tinha os pés voltados para trás porque precisavam despistar seus perseguidores); o Juma, gigante de um olho só, coberto de pelos, e que se alimentava de gente perdida na floresta; a Matintaperera, que emitia assovios para desnortear caçadores invasores do seu mundo; a Tapiraiauara, onça guardiã da vida aquática e dos rios!

A Tapiraiauara é uma figura mítica da tradição amazônica, especialmente entre os povos indígenas. Ela é descrita como um ser que mistura características de uma onça-pintada com a de uma anta, sendo uma criatura sobrenatural, de grande poder e significância dentro das mitologias locais. A Tapiraiauara é muitas vezes associada a uma entidade protetora das florestas e das águas, sendo considerada uma figura que guarda o equilíbrio da natureza.

Em algumas versões da lenda, ela é descrita como um espírito guardião das matas, que possui a habilidade de se transformar em diferentes formas, sendo uma forma animal, ou até mesmo humana. Ela também é relacionada a diversos elementos de força e sabedoria ancestral, muitas vezes sendo uma figura central nos mitos de criação ou de proteção.

Além disso, a Tapiraiauara é uma representação de como a natureza e o mundo espiritual estão intimamente ligados nas culturas indígenas amazônicas. A lenda simboliza a importância da preservação da floresta e dos seres que nela habitam, refletindo a conexão dos povos da Amazônia com o ambiente natural.

 

Meu neto pergunta: que memórias tens de quando eras criança?

Minha Resposta:

 

Muitas! Muitas memórias de quando eu era criança.

Numa das mais remotas, eu devia ter um ano de idade, talvez mais talvez menos, lembro do meu pai, Dunga Nogueira, como se fosse hoje, sentado em uma rede estendida em um dos cantos da casa que foi do meu avô materno, na Ilha Grande do Soriano, meio do rio Amazonas, minha prima Marion e eu sentados no colo dele. Ele cantando para nós dois dormir enquanto mamãe, minha avó e outras mulheres, que imagino hoje terem sido minhas tias, preparavam um jantar.

Outra lembrança, talvez um pouco mais tarde talvez um pouco mais cedo, um irmão da minha mãe, ainda muito jovem, havia comprado máscaras para brincar o carnaval. Na noite da festa, que foi realizada na casa que foi de uma das irmãs do meu avô paterno, meu tio colocou a máscara e veio brincar comigo. Entrei em verdadeiro pânico vendo aquela coisa no rosto dele: nunca tinha visto e nunca hei de ver alguma coisa mais tenebrosa do que aquela. Gritei desesperadamente no colo da minha mãe, que me tirou dali e me levou para a rede que ela havia atado na cozinha daquela casa para eu dormir oportunamente.

Uma outra lembrança está relacionada com uma das minhas primeiras pescarias. No período de cheia do rio, pelas gretas do soalho daquele casarão de madeira que fora do meu avô paterno, eu via peixinhos passarem nas águas, e tentava pescá-los com anzol e linha que ele, meu pai, preparava para mim.

São tantas... 

 

Meu neto pergunta: São memórias felizes?

Minha Resposta:

 

Depende do que você entende por felicidade.

Felicidade para mim, hoje, significa o prazer de estar vivendo um momento, quer em harmonia com a natureza, quer desfrutando satisfatoriamente da companhia de alguém, quer lendo um livro que traga informações relevantes etc. Para mim, essas lembranças são prazerosas porque me remetem ao ambiente onde nasci e vivi minha infância com prazer.

À época, os momentos da minha vida significavam felicidade (no meu conceito atual). Então são memórias felizes.

 

 

Meu neto pergunta: Quais eram, para ti, as pessoas e as coisas mais importantes?

Minha Resposta:

 

Na minha infância as pessoas mais importantes eram, em primeiro lugar, minha mãe. Depois, pela ordem da importância vinha meu pai, minhas avós e meus tios.

Dentre os tios, duas tias se destacavam para mim: uma irmã do meu pai, porque brincava com a criançada toda quando reunidas na casa da minha avó. Eram brincadeiras de “roda”, com aquelas que eu considerava as mais belas de todas as cantigas, e que algumas delas ainda me povoam a lembrança; era brincadeira de “cabra cega”, do “esconde-esconde”, da “manja” ... Nas noites de luar, na época da cheia do rio, ela nos colocava numa canoa grande e nos levava até a uma árvore conhecida como “tarumãzeiro”, um pouco afastada da margem, onde subíamos para comer tarumã (frutos do tarumãzeiro) e brincávamos subindo nos seus galhos, ao som das cantigas daquela tia, e sob o olhar dos nossos guardiões adultos (tios e tias) à margem do rio, prontos para intervir a qualquer peraltice fora do aceitável, ou que colocasse nossa segurança em risco.

Essa tia muito amada pela meninada nos deixou quanto eu tinha apenas onze anos de idade. Nunca ela saiu dos meus pensamentos.

A outra tia, era irmã da minha mãe. Essa, sempre me tratou como se eu fora um bebê.  Mesmo depois de adulto, ela falava comigo como as mães interioranas daquela época falavam com os seus bebês: imitando a voz de criança quando está aprendendo a falar, ela dizia que eu era “a coisa mais linda da tia”, “uma fofura” ... essas coisas de agrados.

Eu era muito apegado a essa tia.

Quando eu estava com mais ou menos de dez a doze anos de idade, a família dela morava na Ilha Grande do Soriano, onde sempre a visitava. Mas, na época da salga do pirarucu[5], se mudava para o lago “Itaparazinho”, um dos muitos lagos que ficava entre dois rios: a margem direita do rio Amazonas e a margem esquerda do paraná Autaz Mirim, mais ou menos uns cinco a oito quilômetros distante da casa dos meus pais.

Aos domingos, às seis horas da manhã, eu embarcava numa canoa, e, junto com meu irmão mais novo, íamos visitar essa tia.

A canoa era movida a remo. Eu sentado à proa, e meu irmão à popa, remávamos subindo o rio Amazonas, entrávamos no igarapé do “Itapará”[6] e íamos até a casa de senhor Genésio, onde desembarcávamos. Seguíamos uma jornada de uns dois quilômetros, a pé, dentro da floresta, até chegar ao lago Mutuca, onde embarcávamos em outra canoa para atravessar aquele lago, entrar no paraná Itaparazinho e navegar até chegar à casa da minha tia, lá pelas onze horas da manhã.

À chegada, éramos recebidos como príncipes. Ela continuava falando comigo como se eu fosse bebê.

Brincávamos com os filhos dela, nossos primos, até a hora do almoço.

Mais ou menos pelas duas horas da tarde, iniciávamos o caminho de volta para casa, para não termos que andar ou navegar durante a noite, com medo de cobra-grande e sereia encantada que habitavam o perau do rio.

Afinal, ainda éramos crianças!

 

Meu neto pergunta: Quando eras criança, tiveste alguma doença grave?

Minha Resposta:

 

Sim!

Segundo minha mãe, tive sarampo, uma doença contagiosa que era comum no beiradão. Mas dessa doença não lembro nada porque eu era muito criança ainda. Mas lembro de quando adoeci de coqueluche, chamada de “tosse de guariba” pelo interiorano.

Foi um período muito difícil para mim, para meus dois irmãos e para meus pais.

Lembro dos acessos de tosse que nos acometiam, deixando-nos sem fôlego, quase morrendo. Aliás foi num desses acessos que meu irmão mais novo faleceu, porque não conseguiu mais respirar.

 

Meu neto pergunta: Alguma vez estiveste internado no hospital?

Minha Resposta:

 

Não lembro que isso tenha acontecido quando eu era criança, por duas razões: primeiro, minha criancice foi vivida na zona rural do amazonas, que chamo de beiradão porque à margem do rio. Lá, no beiradão, não tinha hospital, nem médicos, nem remédios, nem escola, nem transporte escolar, nada disso. Nos casos muito graves a pessoa era levada em canoa movida a remo para a cidade mais próxima, que no meu caso era Itacoatiara.

 

Meu neto pergunta: Tinhas algum brinquedo favorito? Qual era?

Minha Resposta:

 

No conceito moderno de brinquedo, eu não tinha nenhum. Meus brinquedos, assim como os brinquedos de toda criança do beiradão, já remetiam à sobrevivência. Eram arco, flecha, caniços, e outros relacionado com pescarias, fabricados por um tio por quem eu nutria um profundo sentimento de amor e camaradagem.

 

Meu neto pergunta: Quais eram as tuas brincadeiras favoritas?

Minha Resposta:

 

Nos dias de hoje quando se fala em brincadeiras, somos remetidos a pensar em soltar pipas (papagaio), jogar bolinhas de gude – já muito raro - ou possuir carrinhos de plástico motorizados ou não, e, principalmente, usar o celular.

As brincadeiras favoritas da minha infância eram as pescarias, que eu fazia a partir dos oito anos de idade, quando minha mãe já permitia que eu fosse pescar sozinho no lago que ficava por detrás da nossa casa.

Quando eu conseguia flechar ou fisgar algum peixe, a felicidade me arrebatava.

Mas também brincava de armar arapuca para pegar rolinhas e outros pássaros pequenos que viviam nas proximidades da nossa casa. Não lembro de ter pegado algum.

 

Meu neto pergunta: Ainda vês as brincadeiras do teu tempo hoje em dia?

Minha Resposta:

 

Lamentavelmente, não.

Hoje o meu beiradão já está contaminado com as coisas da cidade. A chegada da energia elétrica por lá trouxe consigo a televisão e seus programas invasivos para a saúde da família. Outro vírus, que acompanhou a energia elétrica, foi o celular.

Tenho que reconhecer que tanto um quanto o outro representam benefícios sociais. Mas também permitem a formação de um público indesejado para mim: o traficante e o consumidor de drogas.

Já não vejo mais as brincadeiras inocentes da minha infância, como rodar pião, subir em árvores, nadar no rio, brincar de roda nas noites de luar.

Valores como o respeito aos pais e aos idosos, e outros valores, estão em extinção, substituídos que estão sendo pela violência, pela decadência moral de infantes, adolescentes e adultos.

 

Meu neto pergunta: Com quem gostava mais de brincar?

Minha Resposta:

 

Onde fui criado, não tinha alternativa. Ou brincava com meus irmãos, ou brincava sozinho.

A diferença de idade entre nós, acrescida da diferença de sexo de um para outro irmão, não permitia que brincássemos com os mesmos brinquedos. Então, de ordinário eu brincava sozinho, salvo as vezes em que íamos visitar minha avó, quando, sob o comando da minha tia aqui já referida, reuniam-se todos os primos aproximadamente da mesma idade, para brincarmos juntos.

 

Meu neto pergunta: Preferias brincar em casa ou na rua?

Minha Resposta:

 

Durante toda minha infância morei na zona rural do Amazonas, onde não existia nem ruas e nem vizinhos por perto. As minhas brincadeiras se resumiam em armado de estilingue (que eu chamava de baladeira),  arco e flecha, a andar pela capoeira (floresta em crescimento) nas proximidades da nossa casa, caçando lagartos e passarinhos. Lagartos (réptil), porque os imaginava venenosos; os passarinhos, para eu mesmo assá-los e comê-los.

 

 

Meu neto pergunta: O que fazias à noite e aos fins de semana?

Minha Resposta:

 

Onde morávamos não havia o que fazer à noite.

Na verdade, a noite começava com o sol ainda acima do horizonte. É que tinha muito carapanã (mosquito que suga sangue humano), fato que obrigava a fechar portas e janelas da casa antes do anoitecer, para tentar evitar suas picadas incômodas. Além disso, não podia acender a lamparina (única fonte de luz existente – não havia energia elétrica). Mais um detalhe: para tentar evitar que os carapanãs entrassem em casa de alguma forma, embaixo do assoalho queimava-se cupinzeiro (casa de cupim, um inseto mais ou menos igual a uma formiga), esterco de gado, folhas verdes, qualquer coisa que produzisse fumaça, para espantar os indesejáveis mosquitos sugadores de sangue.

Nessas condições, adultos e crianças recolhiam-se para dormir imediatamente depois do sol se esconder no horizonte.

Para as crianças do beiradão da minha época, não havia muita diferença entre os dias da semana. P’ra mim, o que mais marcava era a presença do meu pai que, nos domingos e dias santificados, fazia pequenos serviços em casa, como limpar os capins (ervas) que cresciam ao redor de casa, partir lenha para minha mãe usar na cozinha durante a semana, organizar suas ferramentas de trabalhos para a semana entrante etc.

 

Meu neto pergunta: E o que fazias nas férias?

Minha Resposta:

 

Até aos doze anos de idade eu não tinha estudado numa escola formal. Toda minha escolaridade era devida à minha mãe, que ensinava a mim e outras crianças da vizinhança. Não havia um período escolar entremeadas por férias escolares, como acontece nos dias de hoje.

Então não havia diferença entre os dias do ano que as crianças da cidade tinham como férias. Eu continuava com as mesmas brincadeiras, vivendo pequenas aventuras pelos igapós ou pelas matas (floresta) das proximidades da nossa casa.

 

Meu neto pergunta: Que livros lias quando eras criança?

Minha Resposta:

 

Quando criança, nunca li um livro. Já no início da adolescência, meu pai trouxe p’ra casa um exemplar da bíblia. Foi o primeiro livro com que tive contato. Nele, consegui ler as histórias do Gêneses, Êxodo e as sabedorias de Eclesiastes.

Esses livros da bíblia despertaram em mim o interesse pela leitura, mas não pude dar continuidade porque meu pai a cedeu por empréstimo, e nunca mais a vi.

Depois, só no início da puberdade vim ter contato com os livros de contos que a filha ainda criança da professora com quem fui morar na cidade, lia nas horas de descanso. Desses livros, lembro de “Poliana”, que conta a história de uma menina órfã que, apesar das adversidades, transforma a vida de uma cidade inteira através de seu otimismo inabalável e do "jogo do contente". O “jogo do contente” era uma filosofia ensinada pelo pai de Poliana, que consistia em encontrar sempre um lado positivo, por menor que fosse, em qualquer situação, por mais difícil que parecesse. Um exemplo clássico é quando, ao receber muletas em vez de uma boneca, Poliana ficou feliz por não precisar da boneca e sim das muletas, porque dependia destas para andar, em decorrência de um acidente sofrido que a deixou imobilizada.

Na mesma época, já estudando em uma escola formal, no terceiro ano primário usei o livro “Nosso Brasil”, um dos manuais escolares de leitura e formação cívica mais usados nas escolas primárias brasileiras. Ele fazia parte de uma série de livros didáticos voltados à educação moral, cívica e patriótica, num contexto em que o ensino fundamental tinha forte ênfase na formação do caráter nacional e no amor à pátria.

Daí, foi um passo para chegar aos livros de autores brasileiros, entre eles “Iracema”, de José de Alencar. Me apaixonei por esse livro porque, escrito em prosa, eu o entendia, como ainda entendo, como um verdadeiro poema.

Foi essa a minha porta para descobrir o prazer da leitura.

 

Meu neto pergunta: A tua família lia muito?

Minha Resposta:

 

Sobre isso, entenda como minha família meus pais e meus irmãos. Já mencionei que meu pai era analfabeto. Logo, meu pai não lia nada.

Quanto a minha mãe, ela também aprendeu a ler e escrever com o pai dela, que era português, estudante da universidade de Coimbra, que veio para o Brasil em visita à família e nunca mais voltou para sua terra natal. Ocorre que, mesmo sabendo ler e escrever, minha mãe não lia pela simples razão de que no beiradão onde morávamos naquela época não existirem livrarias, nem livros, nem jornal, nem revistas.

Pela mesma razão, nem eu nem meus irmãos líamos nada, salvo, como disse acima, aqueles livros da bíblia já mencionados.

 

Meu neto pergunta: Que músicas cantavas quando eras criança?

Minha Resposta:

 

No beiradão onde nasci as crianças não conheciam músicas porque, embora já existisse o rádio, esse era um item que meus pais não tinham recursos financeiros suficientes para comprar. As músicas que ouvíamos eram aquelas solfejadas pela minha mãe enquanto estava ocupada em costurar nossas roupas.

Aos cinco anos de idade, fui estudar na casa da minha avó Maroca, Lá, participei de apresentações de teatro, engendradas pela professora Amélia, onde eram apresentadas danças, comédias, e outras, quando do encerramento do ano letivo. Daquela época, guardo ainda hoje na lembrança uma musiquinha que falava de uma boneca que veio de Paris para a menininha. Essa boneca, escorregou, caiu no chão, quebrou seu narizinho e pé, e perdeu sua fala. Mas, chamando o Doutor, seu irmão, ele mandou ministrar uns remédios, resultando na cura completa da boneca.  

No ano de 1954, quando eu tinha nove anos de idade, candidatou-se ao governo do Estado o advogado e político Plínio Ramos Coelho, pelo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro). Durante sua campanha, foram distribuídos cadernos escolares, onde na última capa era reproduzida a letra do hino daquele Partido, a saber:

 

Poderoso, invencível, inquebrantável,

adorado, meu partido, o PTB,

rutilante, inconfundível, insofismável,

Trabalhando para o bem comum viver.

 

Impoluto, persistente, combativo,

defendendo o povo ordeiro e varonil,

o partido só tem um objetivo:

trabalhar pela grandeza do Brasil!

 

Refulge o Senado com seus oradores,

a Câmara rebrilha com seus deputados,

batalham com fibra os seus vereadores,

as vozes levantam direitos sagrados.

 

Lutar pela ordem, tranquila e serena,

harmonia e respeito, moral e distinção,

iluminar a verdade é o nosso lema,

temos todos por um sem qualquer distinção.

 

Trabalhistas do Partido Trabalhista Brasileiro!

A vós depositamos toda a confiança,

bem dizer e louvar o PTB primeiro,

reavivando sempre o fogo da esperança.

 

Aplaudir e louvar nossos representantes,

soldados que defendem a pátria brasileira,

insignes sentinelas, sempre vigilantes,

lutando pela causa da nação inteira.

 

Relevar o partido, é nossa obrigação,

incentivar devemos no Brasil inteiro,

realçar e divulgar de todo coração,

o Partido Trabalhista Brasileiro!

 

Eram essas as músicas que eu cantarolava quando criança, e de vez quando me pego relembrando.

 

Meu neto pergunta: Quem te ensinou?

Minha Resposta:

 

No caso da boneca acidentada, aprendi com minha tia Marivalda, que auxiliava a professora Amélia com a disciplina dos alunos. No caso do Hino do PTB, com auxílio dos políticos de Itacoatiara meu pai havia contratado uma moça para servir de minha professora (e das crianças que moravam com seus pais nas proximidades da nossa casa). Era ela, a professora Nazinha (Maria de Nazaré Drumond Soares), que nos ensinava a cantar os hinos cívicos, e o hino do PTB. Eu gostava muito deste último, não sei explicar a razão.

  

 

 

 

 

Meu neto pergunta: Qual era o teu dia da semana preferido?

Minha Resposta:

 

Eu não tinha nenhuma preferência por nenhum dia da semana, nem do ano. A todos, eu aproveitava da mesma maneira. Fora do horário escolar, era desbravar a floresta nas proximidades de casa, caçar passarinhos e lagartos, apreciar os macacos selvagens pular de galho em galho, contemplar os quelônios expondo-se ao sol...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 - SOBRE OS TEUS PAIS E AVÓS

 

 

 

Meu neto pergunta: Como se chamavam os teus pais?

Minha Resposta:

 

Meu pai era conhecido como Dunga. Seu nome de verdade era Antonio Nazaré Nogueira, mas ninguém o conhecia como tal, e essa coisa de conhecer as pessoas apenas por alcunhas, era tradição no beiradão.

Sobre ele, é preciso dizer que, quando dos seus oito anos, ele e o pai, meu avô Bertholdo, retornavam de uma pescaria no Lago do Castanha, na Costa da Conceição, onde moravam, quando uma rajada de vento derrubou uma árvore que caiu sobre este último, deixando-o desmaiado, ao sabor da ainda hoje forte correnteza do igarapé Cainamãzinho, naquela época um lugar absolutamente desabitado. A luta daquele garoto para retirar o pai da água e colocá-lo no porão da canoa foi algo inexplicável em face de pouca idade e pouca força física que detinha. Mais ainda inexplicável foi conseguir remar contra a correnteza desde onde aconteceu o acidente, lá pelas duas horas da tarde, e vir chegar à sua casa lá para oito horas da noite, com o porão da canoa cheio de sangue e o pai desacordado. Ele nunca explicou como conseguiu aquele feito; as poucas coisas de que lembro foram contadas pela minha mãe, minha avó Maroca e minha tia Celina, já que meus tios também não comentavam esse assunto, inclusive porque, ou ainda não haviam nascido ou eram muito pequenos.

O caráter desse homem foi forjado na dureza da vida interiorana do primeiro quartel do século passado. Aos treze anos começou lutar pela sobrevivência dele, do pai (ainda com graves sequelas do acidente acima mencionado), da mãe e irmãos menores. Como era muito novo para enfrentar as aventuras do ciclo da borracha, muito bem reportadas por Álvaro Maia, restou-lhe a extração da balata, da sorva, da castanha, e outros produtos abundantes no rio Urubu. E foi p`ra lá que ele se dirigiu, sob o financiamento de Pedro Rubim (ou Rubinho), deixando todos seus familiares com a garantia de víveres até sua volta em data indefinida. Cada “fábrico” (período de coleta dos produtos) não demandava menos de seis meses, o tempo que ele passava longe da família, muitas vezes sozinho naquela imensidão de floresta, tendo que explorá-la para localizar cada árvore produtora do látex que buscava. Naquele período, entre os treze e os vinte e cinco anos de idade, foram muitas noites insones sob o fogo e o frio de malárias infindas; foram muitas dificuldades vencidas com igarapés transbordantes em rios quando de uma chuva mais forte, a levar-lhe o “rancho” do tapiri improvisado em casa; foram longos dias de absoluta solidão e incertezas em razão da perda da sua canoa num dos temporais que de ordinário caiam sobre aquela região, e aquela canoa era o único meio de transporte a garantir-lhe o retorno para o lar; foram muitos, muitos sofrimentos.

Foi pensando nisso, talvez, que ele nunca mediu esforços para que seus filhos estudassem; para que “fossem alguém na vida”; para que ele tivesse o prazer de exibir “um filho educado”. Esse era o Dunga Nogueira, meu pai, minha referência na vida.

Quanto a minha mãe, dona Lita, registrada mais tarde como Esther de Melo Nogueira, teve oito filhos, sendo eu o mais velho. Meu pai, quando se casou com minha mãe, já tinha uma filha.

As primeiras letras, as conheci através da minha mãe, que as conheceu através do meu avô, português nato que, pelos idos do começo do Século XX, se apaixonou por uma índia que já arrastava pelas mãos um curumim de cerca de cinco anos de idade quando se conheceram, possivelmente à sombra dos cacauais.

Minha mãe, senhora de finos traços que as intempéries da vida transformaram numa rústica e honrada interiorana, mais da lavoura do que das coisas do lar, hoje é residente na mansão etérea do Grande Arquiteto do Universo. Mulher de quase nenhum saber das letras e dos livros, era Mestra na arte de fabricar a argamassa da personalidade impoluta dos seus filhos, mesmo algumas vezes utilizando os instrumentos da psicologia interiorana à sua mão: o falatório causticante no meu entender de menino; a palmatória; o galho de cuieira, o cipó fino, a corda de rede, ou qualquer outro objeto que lhe estivesse próximo e pudesse ser vibrado ou atirado contra nossos corpos, de forma a nos conduzir para o caminho do homem de “vergonha na cara”.

No beiradão desse Amazonas então insondável, onde o progresso passava ao largo, seu dia, que começava quando os galos amiudavam o canto na amplidão da madrugadinha, era ativo e produtivo, indo desde o preparar do cafezinho para “acordar o estômago” enquanto sua voz de soprano expulsava-nos (a mim e meus irmãos) da rede para o labor diário, passando pelo quebra-jejum, pelo aguar de suas plantas, pelo dar de comer às suas aves; nossa mestra das primeiras letras conseguia somar o bê-á-bá do ABC com o destro manipular da enxada, do terçado, do machado, tanto no preparo da terra quanto na colheita da sua plantação de milho, feijão, melancia, macaxeira, tudo para que no período da entressafra não faltasse alimentos para os seus filhos, a única forma que conhecia de manifestar seu grande amor maternal. Mas, ai daquele filho atrevido que lhe faltasse com o respeito; que ousasse entremeter-se em suas conversas com os mais velhos; levantar a voz para lhe responder “de atravessado”; de mentir...  Falar palavrão, então, que Deus se apiedasse do infeliz.

Essa era a MÃE ARTESÃ, forjadora dos princípios éticos que norteiam minha vida até os dias de hoje. Por trás dela, estava a MÃE AMOR, frágil nos momentos de aflição decorrentes de moléstias que se nos acometiam, de perigos que são próprios da vida interiorana, sejam de acidentes com animais peçonhentos, com instrumentos de trabalho, com a fúria dos ventos e temporais a fazer banzeiros trágicos para as nossas pequenas montarias. Nessas ocasiões só lhe restava rezar, clamar a Deus para proteger e trazer seus filhos sãos e salvos para o seu convívio. É a essa MÃE ARTESÃ que agradeço pelo que hoje sou; é do colo dessa MÃE AMOR que sinto saudades, a entalar-me com a emoção, a fazerem rolar lágrimas pelo meu rosto enquanto escrevo estas lembranças.

 

Meu neto pergunta: Em que dia e em que cidade nasceram?

Minha Resposta:

 

Os dois nasceram naquele beiradão que nunca me sai da lembrança. Meu pai nasceu no dia oito de setembro do ano de 1918; minha mãe nasceu no dia quatro de outubro do ano de 1914. Portanto, nenhum dos dois nasceu em cidade.

 

 

 

 

 

Meu neto pergunta: E os teus avós? Sabes onde e quando nasceram?

Minha Resposta:

 

Não tenho essa informação completa. Só sei que meu avô materno nasceu numa pequena cidade, ou vila, do norte de Portugal, chamada Oliveira do Bairro, de onde veio para conhecer as fazendas de cacau que a família possuía aqui no Amazonas, quando conheceu minha avó Botão (Elvira Lira de Melo), por ela se apaixonou e nunca mais voltou à terra natal. Quanto aos meus avós paternos, as evidências sugerem que eles nasceram no mesmo beiradão que nasci.

 

Meu neto pergunta: Sabes como é que teus avós se conheceram?

Minha Resposta:

 

Não. Não tenho a menor ideia. De como eles se conheceram. A única coisa que sei é que meus avós paternos eram filhos da mesma região entre o Paraná da Eva e a cidade de Itacoatiara, no rio Amazonas. Quanto aos meus avós maternos, ele veio de Portugal e encontrou minha avó naquela mesma região de Itacoatiara.

 

Meu neto pergunta: Conheceste os teus avós?

Minha Resposta:

 

Não conheci nenhum avô. Ambos já haviam morrido quando eu nasci. Conheci as duas avós, de quem nunca vou esquecer, razão do quanto elas foram importantes para mim.

 

 

Meu neto pergunta: Foram figuras presentes na tua vida?

Minha Resposta:

 

Sim. As duas avós foram figuras muito importantes na minha vida.

 

Meu neto pergunta: Qual era o trabalho deles?

Minha Resposta:

 

Todos eram ribeirinhos que viviam da agricultura de subsistência, ou seja, plantavam, cuidavam, colhiam, se alimentavam e se protegiam das intempéries com o produto do seu trabalho.

 

Meu neto pergunta: Quais são as melhores memórias que tens dos teus avós?

Minha Resposta:

 

Da minha avó Botão, mãe da minha mãe, minhas melhores lembranças estão relacionadas com nossas pequenas viagens para visitar os filhos dela, meus tios e tias, que moravam distantes. Ela, minha avó, morou conosco nos últimos anos de sua vida. Em várias oportunidades íamos, ela, meu irmão mais novo e eu, embarcados numa canoa movida a remo íamos subindo ou descendo o rio. Enquanto meu irmão e eu remávamos, ela, de idade já muito avançada, sentada no banco do meio da canoa cantava linda canções das suas vivências passadas. Eu a ouvia extasiado!

Da minha avó Maroca, mãe do meu pai, lembro das nossas caminhadas. pelo cacaual, eu a acompanhando, ela olhando os cacaus e outros frutos que abundavam, e ao mesmo tempo em que localizavas ervas de passarinhos, e outras ervas daninhas, para em seguida tomar providências que fossem necessárias à eliminação daquelas parasitas.

Enquanto caminhávamos, ela conversava comigo e me dava conselhos para a vida de adulto que eu estava prestes a abraçar.     

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                

Meu neto pergunta: A tua família encontrava-se com frequência?

Minha Resposta:

 

Neste contexto, vou considerar “família” os meus avós e seus filhos e netos (meus tios e primos).

Como já mencionei antes, a casa dos meus pais estava localizada à margem direita do grande rio Amazonas, distante de vizinhos. Mais distantes ainda residia o restante da família, uns na Ilha do Soriano, entre a Costa do Itapará e a Costa da Conceição, outros na marguem esquerda do rio (Costa da Conceição). Essa distância era impeditiva de inter visitações que, quando aconteciam, transformavam-se numa verdadeira festa para a meninada.

 

Meu neto pergunta: Tinhas familiares preferidos?

Minha Resposta:

 

Não. Todos os meus familiares tinham o mesmo grau de preferência. Meus tios e tias eu os considerava meus pais; meus primos, eu os considerava irmãos; minhas avós, eu as sublimava.

 

 

 

 

Meu neto pergunta: Por que é que gostavas tanto deles?

Minha Resposta:

 

Porque, desde criança, minha mãe me ensinou a respeitá-los e considerá-los como tal. Eu não os temia, eu os amava não só como tios e primos, mas como pais e irmãos. 

 

Meu neto pergunta: Havia alguma ovelha negra na tua família? Quem era?

Minha Resposta:

 

Não lembro de nenhum familiar que, no conceito de hoje – mesmo daquela época - possa ser caracterizado como “ovelha negra”.

 

Meu neto pergunta: Havia alguma pessoa famosa na tua família?

Minha Resposta:

 

Nos dias de hoje uma pessoa é famosa quando é rica ou quando se destaca no meio socioeconômico pela sua expertise em áreas do saber, do conhecimento, da literatura etc. No caso da minha família, ninguém se enquadrava nesse conceito, até porque naquele beiradão ninguém era rico, nem sábio, nem letrado. Tanto a sabedoria quanto o conhecimento dos ribeirinhos de então estavam relacionados com sua sobrevivência ou suas experiências de vida. Nesse contexto, tinha sempre alguém que sabia “pegar desmentiduras”, “costurar rasgaduras”, “benzer quebrantos”, fazer um remo, calafetar uma canoa etc. etc. Por exemplo, meu pai era procurado por quem necessitava de conselhos para tomar uma decisão importante eu sua vida. E ele era famoso nesse sentido.

Havia gente que chegava em casa aos domingos de manhã, para conversar e se aconselhar com meu pai. Ficavam de conversa desde a hora da chegada, almoçavam, e, logo mais depois do almoço, sentavam-se à sombra de uma árvore que ficava em frente da casa, com o vento norte soprando-lhes nas faces em refresco ao verão escaldante de certas épocas, quando o visitante abordava o assunto da sua visita: a opinião do meu pai sobre uma situação que ele, o visitante, precisava decidir. E lá se ia embora o resto da tarde naquela conversa sem fim, até quase ao cair da noite, quando a despedida acontecia.

 

Meu neto pergunta: A tua família falava muito sobre o passado?

Minha Resposta:

 

Não.

Geralmente as pessoas remetem-se ao passado contando quanto ele foi glorioso e o seu presente é sofrido, ou quando o seu passado foi sofrido e o seu presente é glorioso. E fazem isso para lamentar o presente ou para glorificar o passado, ou o inverso disso.

Os interioranos da minha época de menino não dispunham de tempo para perder com essas “besteiras” porque o labor pela sobrevivência carecia de atenção. Qualquer divagação durante o manejo de seus instrumentos de trabalho poderia resultar em acidentes tais como aquele acontecido com meu pai durante a passagem de um dia de Natal, mencionado anteriormente.

 

Meu neto pergunta: Costumavam conversas sobre o quê?

Minha Resposta:

 

Conversavam sobre as coisas do dia a dia de suas vidas, envolvendo notícias sobre a saúde de um deles, sobre a fartura ou dificuldades para encontrar peixes, o alimento básico do interiorano; conversavam sobre a iminente cheia ou seca do rio, a prejudicar sua lavoura de subsistência; conversavam muito sobre a carestia de produtos como o açúcar e o café, de grande consumo no interior do Estado...

 

Meu neto pergunta: Como eram os teus pais? Eram modernos ou conservadores?

Minha Resposta:

 

Não dá para dizer que meus pais eram modernos ou que eram conservadores. Eles eram apenas pessoas que habitavam o beiradão do rio Amazonas, onde não havia esse tipo de diferença social.

 

Meu neto pergunta: Como era a relação deles?

Minha Resposta:

 

Era a relação normal de um casal interiorano da época.

 

Meu neto pergunta: Era uma relação tradicional?

Minha Resposta:

 

Muito tradicional para aquelas paragens: ele levantava-se cedo, ainda com o sol debaixo do horizonte, e dedicava-se às primeiras tarefas do dia, como cortar lenha, abastecer os baldes de cuia com água do rio, limpar o terreiro das ervas abundantes. Ela também se levantava cedo, cuidando do cafezinho para “acordar o estômago”, providenciar o “quebra-jejum”, aguar (molhar) suas plantas, dar de comer às suas aves. Logo depois ambos iam para os afazeres das plantações das suas roças.

 

Meu neto pergunta: Sabes como é que os teus pais se conheceram?

Minha Resposta:

 

Não sei. Apenas suponho. Essa suposição decorre de informações de que minha mãe, por alguma razão, saiu da casas dos pais, que ficava na Ilha Grande do Soriano (meio do rio Amazonas, nas imediações da foz do rio Madeira), e foi morar com o irmão mais velho, o meu tio Ari (Moacyr Lira), que morava na Costa da Conceição, margem esquerda do rio Amazonas, onde os pais do meu pai moravam. Imagino que essa tenha sido as circunstâncias que permitiam meus pais conhecerem um ao outro.

 

Meu neto pergunta: Eles falavam sobre isso, nessa altura?

Minha Resposta:

 

Nunca meus pais falaram comigo sobre isso, até porque a rígida disciplina familiar na amplidão do interior amazonense não permitia esse tipo de intimidades.

 

Meu neto pergunta: A religião era importante para eles?

Minha Resposta:

 

Naquelas paragens onde nasci e me tornei infante, não havia líderes religiosos, nem igrejas, nem padres, nem pastores. A fé era decorrência da tradição familiar, onde todos acreditavam na existência de Deus, de Jesus Cristo e dos Santos, todos habitantes do Céu, operadores de milagres e protetores dos humildes, mesmo que não existisse doutrinação para esse tipo de crença.

 

 

Meu neto pergunta: Qual era o trabalho do teu pai?

Minha Resposta:

 

Meu pai era agricultor. Era da agricultura que ele e sua família, ascendentes e descendentes, sobrevivia economicamente. De forma simples e humilde, mas muito honrado e respeitado.

 

Meu neto pergunta: Como era o teu pai?

Minha Resposta:

 

Já falei sobre isso, mas não custa nada repetir parte daquilo que falei.

O caráter do meu pai foi forjado na dureza da vida interiorana do primeiro quartel do século passado. Aos treze anos começou lutar pela sobrevivência dele, do seu pai (ainda com graves sequelas de um acidente com uma arvore caída sobre eles quando retornavam de uma pescaria), da mãe e irmãos menores. Como era muito novo para enfrentar as aventuras do ciclo da borracha, muito bem reportadas por Álvaro Maia, restou-lhe a extração da balata, da sorva, da castanha, e outros produtos abundantes no rio Urubu. E foi p`ra lá que ele se dirigiu, sob o financiamento de Pedro Rubim (ou Rubinho), deixando todos seus familiares com a garantia de víveres até sua volta em data indefinida. Cada “fábrico” (período de coleta dos produtos regionais da selva amazônica) não demandava menos de seis meses, o tempo que ele passava longe da família, muitas vezes sozinho naquela imensidão de floresta, tendo que explorá-la para localizar cada árvore produtora do látex que buscava. Naquele período, entre os treze e os vinte e cinco anos de idade, foram muitas noites insones sob o fogo e o frio de malárias infindas; foram muitas dificuldades vencidas com igarapés transbordantes em rios quando de uma chuva mais forte, a levar-lhe o “rancho” do tapiri improvisado em casa; foram longos dias de absoluta solidão e incertezas em razão da perda da sua canoa num dos temporais que de ordinário caiam sobre aquela região, e aquela canoa era o único meio de transporte a garantir-lhe o retorno para o lar; foram muitos, muitos sofrimentos.

Fisicamente, meu pai era um homem comum, nascido e criado no interior do Amazonas. Analfabeto, mas criativo na arte da sobrevivência interiorana: sabia fazer casas, embarcações, utensílios de pesca, qualquer coisa em madeira. Era um artista, na excelência da expressão.

 

Meu neto pergunta: Como era a tua relação com ele?

Minha Resposta:

 

Era uma relação de respeito, e não podia ser diferente. Naquele tempo, há mais ou menos setenta anos, não havia como os costumes serem violados. Era a cultura do povo do beiradão o respeito aos pais, aos avós, tios, e aos idosos de um modo geral. A disciplina rígida não decorria de violência doméstica, ou do medo, mas sim do absoluto respeito e obediência que, no caso, eu devia aos meus pais.

 

Meu neto pergunta: Que boas recordações guardas do teu pai?

Minha Resposta:

 

Muitas boas recordações.

Uma delas, foi uma pescaria de Jacaré Açu, para vender o couro em troca de produtos básicos, tipo açúcar, café, sabão etc.

Ao contrário do Jacaré Tinga, o Jacaré Açu tinha o couro muito valorizado, e era utilizado pela indústria para a fabricação de bolsas, cintos, sapatos etc.

A pesca sempre ocorria à noite, e de duas formas diferentes. Uma, consistia em engatar uma isca em um anzol fortemente amarrado em uma corda, chamada “arpoeira”, que por sua vez era fortemente amarrada em um galho de árvore do igapó (floresta meio submersa pelas águas da enchente do rio). O conjunto desse instrumento era chamado “curumim”.

As iscas eram vísceras de peixes, animais domésticos, mesmo peixes que não eram servidos à mesa porque considerados não apropriados para alimento humano.

À noite, vinha o jacaré, engolia a isca e ficava preso ao “curumim”, vindo às vezes morrer durante à noite, para serem capturados durante a manhã do dia seguinte.

Outra forma de pesca era a “focagem”, que consistia em procurar os animais no meio do lago, durante as noites sem luar. Meu pai na proa da canoa, armado de arpão fortemente preso à arpoeira e a uma haste de madeira, tudo seguro pela sua mão direita, enquanto a mão esquerda segurava uma lanterna, com a qual ia procurando os jacaré. Eu, na popa da canoa, impulsionando-a sempre para a frente, na direção que meu pai indicava balançando a lanterna.

Quando o foco da lanterna incidia sobre os olhos do jacaré, aparecia uma chama vermelha, que era os olhos do animal contrastando com o foco de luz expedido pela lanterna.

Meu pai balançava a luz da lanterna na direção que ele queria que a canoa seguisse, mantendo o animal encandeado até à distância certa para ser arpoado. Depois de arpoado, vinha a “briga” do meu pai para matá-lo e colocá-lo dentro da canoa. Essa “briga” consistia em fazê-lo cansar, adormecê-lo a cacetadas, puxá-lo para dentro da canoa, e, por fim, cortar o espinhaço do bicho entre a cabeça e o restante do corpo, isso para evitar o risco dele, jacaré, reviver das cacetadas e atacar aos seus algozes, como era comum acontecer.

Isso se repetiu muitas vezes.

Se para meu pai isso era sobrevivência e manutenção da família, para mim era o prazer de uma aventura.

 

 

 

 

 

Meu neto pergunta: A tua mãe trabalhava fora de casa?

Minha Resposta:

 

O conceito moderno de “trabalhar fora de casa” não se aplicava no interior do Amazonas. Nesse sentido, ela não trabalhava fora de casa.

 

Meu neto pergunta: Se sim, qual era o trabalho dela?

Minha Resposta:

 

Dentro de casa, minha mãe era a “dona de casa”: fazia de tudo.

“Fora de casa”, ela era a agricultora de traços finos (pai português de nascimento), mas rústica, como algumas vezes já declarei.

Como agricultora, tinha sua roça de milho, macaxeira, mandioca, feijão, e ainda ajudava meu pai na sua roça de juta.

Muitos pensam que no interior do Amazonas tudo é fartura. Não é exatamente assim.

Dependendo da época, tudo relacionado com a subida ou descida das águas do rio, falta peixe, falta farinha, falta milho, e o caboclo passa fome.

Numa dessas vezes, faltou farinha em casa. Faltou porque morávamos em terras de várzea, tudo dependendo no nível do Rio Amazonas, e naquele ano o rio subira muito, alagando as restingas. A solução foi nos socorrermos das “terras firmes”, aonde a água não chega, por maior que fosse a enchente.

Fomos, então, ao lago do Soares, onde minha mãe tinha um amigo, para fazer uma “farinhada, de meia” (ele entrava com a plantação de mandioca, nós fazíamos a farinha e, ao final, dividíamos no meio a produção, metade para ele, metade para nós).

Embarcamos, mamãe, Carlos meu irmão, eu e Mansour, um amigo de infância, rumo ao Lago do Soares, que não era nada farto em peixe nem em caça.

A roça de mandioca, com que se faz a farinha nossa de todos os dias, ficava mais ou menos há uns dois quilometro da casa do amigo da mamãe, e ela resolveu que iríamos “morar” lá enquanto estivéssemos fazendo a farinha.

“Morar” significava ficar na “casa de farinha”, onde não tinha paredes, nem quartos, nem salas, nem banheiros, nada que se possa hoje entender como uma residência. Muto pelo contrário, nela estava assentado um forno da torrar farinha, uma prensa para prensar massa de mandioca, e uma “roda” para movimentar a “bolandeira” que transforma a mandioca em massa. Nada mais.

Três dias depois de instalados naquele local absolutamente inóspito, o peixe seco que havíamos levado acabou. Não tínhamos mais o que comer.

Mesmo assim, fomos arrancar mandioca, para continuar o trabalho do fabrico de farinha. Lá pelas tantas da manhã, Mansour gritou para chegarem todos a um determinado lugar, onde tinha um buraco na terra, que ele guardava como quem guarda um tesouro.

Quando chegamos junto ao Mansour, ele mandou que meu irmão cortasse um “basculho” (um filhotão de arvore com aproximadamente dois metros de tamanho) para introduzir no buraco, enquanto ele, Mansour, introduziu um pequeno galho de árvore na saída. Meu irmão providenciou o “basculho” e minha mãe ficou com “basculho” na mão esperando Mansour dizer o que fazer.

Ele, Mansour, com terçado (facão) em punho na mão direita, se posicionou em frente à entrada (na verdade saída) do buraco e mandou que minha mãe introduzisse o “basculho” na entrada do buraco. Ela fez isso, e foi quando (me recordo perfeitamente) percebi que Mansour deu uma terçadada na direção do buraco, acertando precisamente a cabeça de uma paca. Era um animal muito apreciado pela cozinha interiorana, que nos alimentou durante os cinco dias que ficamos longe da civilização.

Passado esses instantes de muita adrenalina, continuamos com a farinhada, ajudando mamãe arrancar os troncos das maniveiras, cujas raízes são as mandiocas, matéria prima para o fabrico da farinha.

Mas o serviço não parava por aí. Depois de arrancadas, as mandiocas eram separadas da maniveira, colocadas em um paneiro, e conduzidas parte para a casa de farinha, onde iam ser descascadas, depois sevadas e misturadas com massa de mandioca amolecida nas águas de um igarapé que ficava mais ou menos próximo à casa de farinha. Outra arte da mandioca arrancada era conduzida para o igarapé, colocadas de molho em um recipiente fabricado para esse fim, e, ao final do segundo ou terceiro dia eram descascadas e conduzidas para a Casa de Farinha, onde eram misturadas com a massa das mandiocas sevadas, e depois levadas a forno, onde aquela mistura era torrada em fogo mais ou menos lento.

Mamãe participava de tudo isso, quer carregando paneiros de mandioca, quer cortando lenha para o forno, quer cevando (cevar: transformar a raiz da mandioca em uma massam usando uma cevadeira, um equipamento usado para esse fim) ou descascando mandioca amolecida na água, quer torrando a farinha. Era ela que dava as ordens e iniciava o labor diário naquela ou em qualquer outra roça.

 

Meu neto pergunta: Como era a tua mãe?

Meu neto pergunta: Como era a tua relação com ela?

Meu neto pergunta: Que boas recordações guardas da tua mãe?

Minha Resposta:

 

Em resposta a essas perguntas, permito-me reproduzir o texto de uma homenagem que fiz a ela:

 

HOMENAGEM À DONA LITA

 

Antonio Tupinambá

13/05/2017.

Enquanto escrevo, meus pensamentos voam para um passado não muito distante e vejo aquela mulher de finos traços que as intempéries da vida transformaram numa rústica e honrada interiorana, mais da lavoura do que das coisas do lar. Falo da minha querida e inesquecível mãe, dona Lita, hoje já residente na mansão etérea do Grande Arquiteto do Universo, e a quem quero homenagear pela passagem do dia das mães.

De quase nenhum saber das letras e dos livros, era Mestra na arte de fabricar a argamassa da personalidade impoluta dos seus filhos, mesmo algumas vezes utilizando os instrumentos da psicologia à sua mão: o falatório causticante no meu entender de menino, a palmatória, o galho de cuieira, o cipó fino, a corda de rede, ou qualquer objeto que lhe estivesse à mão e pudesse ser vibrado ou atirado contra nossos corpos, de forma a nos conduzir para o caminho do homem de “vergonha na cara”.

No beiradão desse Amazonas então insondável, onde o progresso passava ao largo, seu dia, que começava quando os galos amiudavam o canto na amplidão da madrugadinha, era ativo e produtivo, indo desde o preparar do cafezinho para “acordar o estômago” enquanto sua voz de soprano expulsava-nos (a mim e meus irmãos) da rede para o labor diário, passando pelo quebra-jejum, pelo aguar de suas plantas, pelo dar de comer às suas aves; nossa mestra das primeiras letras conseguia somar o bê-á-bá do ABC com o destro manipular da enxada, do terçado, do machado, tanto no preparo da terra quanto na colheita da sua plantação de milho, feijão, melancia, macaxeira, tudo para que no período da entressafra não faltasse alimentos para os seus filhos, a única forma que conhecia de manifestar seu grande amor maternal. Mas... ai daquele que lhe faltasse com o respeito de entremeter-se em suas conversas com os mais velhos, de levantar a voz para lhe responder “de atravessado”, de mentir... Falar palavrão, então... que Deus se apiedasse do atrevido.

Essa era a MÃE ARTESÃ, forjadora dos princípios éticos que norteiam minha vida até os dias de hoje. Por trás dela, estava a MÃE AMOR, frágil nos momentos de aflição decorrentes de moléstias que se nos acometiam, de perigos que são próprios da vida interiorana, sejam de acidentes com animais peçonhentos, com instrumentos de trabalho, com a fúria dos ventos e temporais a fazer banzeiros trágicos para as nossas pequenas montarias... Nessas ocasiões só lhe restava rezar, clamar a Deus para proteger e trazer seus filhos sãos e salvos para o seu convívio.

É a essa MÃE ARTESÃ que agradeço pelo que hoje sou; é do colo dessa MÃE AMOR que sinto saudades, a entalar-me com a emoção, a fazerem rolar lágrimas pelo meu rosto enquanto escrevo estas lembranças.

Dedico a ela, e a todas as mães, as belas palavras saídas do fundo d’alma de Eduardo Mayr para servir de ícone desse presente que todos nós recebemos do Supremo Criador:

 

AS MÃOS DE MAMÃE.

 

Mamãe tinha as mãos feias.Seus dedinhos eram tortos,Suas veias salientes.Não eram bonitas como seu sorriso...

Eram mãos de trabalho,Estragadas pela azáfama do dia a dia,Das montanhas de roupa para lavar e passar.Sempre na pia de louça,A costurar, pregar botões, cerzir.Cozinhar, fazer bolos,Descascar, fritar.E para variar, mexer no jardim,Fazer tricô, crochê,Limpar, varrer, espanar,Criar encanto.As mãos de mamãe só descansavam,Para dormir.

Não eram mãos bonitas.Mas quando eu as vi,Mãos postas no repouso eterno,Compreendi como havia sido pretensiosoE desinformado.As mãos de mamãe já não me pareciam feias.Muito ao contrário,Havia uma radiosidade que delas emanava.Aquelas mãos postas, de dedos entrelaçados, Que diziam muito mais que sua imagem,Diziam de carinhos incontidos,Cuidados, desvelo,Horas perdidas à cabeceira,Esperar, preocupações...Falavam de lágrimas enxugadas,De almas confortadas,Falavam de mágica e encanto.Eram indicativas de amor,De um amor verdadeiroPor mim, pelos meus, por todos,Pela humanidade.E então eu compreendiQue aquelas mãos feias não eram feias,Que aquelas mãos enrugadas não eram enrugadas.Eram mãos de fada,Eram mãos doces,Eram mãos suaves,Eram mãos lindas,Eram mãos maravilhosas.Eram como as mãos de Deus....

Sua benção, minha querida e inesquecível mãe!

 

 

 

 

Meu neto pergunta: O que gostavas de fazer com os teus pais nos tempos livres?

Meu neto pergunta: Quais eram as tuas atividades preferenciais?

Minha Resposta:

 

As respostas a essas perguntas já foram dadas ao longo do que até agora consegui responder. Mas, em resumo, a forma de criar filhos na época em que eu era criança era muito diferente da dos dias atuais. Naqueles tempos não existia nenhuma possibilidade de brincadeiras entre pais e filhos. Todo o diálogo entre eles era no sentido de transmitir e receber ensinamentos sobre sobrevivência, princípios éticos (tipo: nunca dê razão para alguém segurar tua munheca), respeito e respeitabilidade etc.

Quanto às atividades preferenciais, elas estavam relacionadas com a pesca, a caça, e, aos domingos, visitas à parentela.

 

Meu neto pergunta: Fisicamente, pareces-te mais com a tua mãe ou com o teu pai?

Meu neto pergunta: Como descreverias essa semelhança?

Minha Resposta:

 

Possuo traços físicos tanto do meu pai quanto da minha mãe: a cor, a corcunda, e a paciência, são da minha mãe; a estrutura física e o caráter, são do meu pai.

 

 

 

 

3 - SOBRE A TUA FAMÍLIA

 

 

 

Sobre as perguntas relacionadas com este item da proposta de livro enviada pelo meu neto, vou considerá-las como um roteiro para resumir as respostas em um texto só, facilitando a compreensão do leitor e a redação deste avô.

Outra coisa, vou considerar “Sobre tua Família” como constituída por meu pai, minha mãe e meus irmãos. Se houver necessidade de mencionar familiares ascendentes, descendentes e colaterais, farei as ressalvas necessárias.

Quando eu era uma criança de onze anos (nasci no ano de 1945), éramos quatro irmãos: além de mim, já eram nascidos o Carlos (1948), a Ivany (1953) e o Próspero (1956). Depois, nasceram Genilda (1958) e Raimundinho (1960).

Deles, eu era mais próximo do Carlos, por ser apenas dois anos mais novo. Era ele quem me acompanhava nas aventuras pelas matas, lagos e igapós do beiradão daquele rio, quer andando a pé ou de canoa movida a remos pela força dos nossos braços.

Na sobrevivência diária daqueles dias, as crianças tinham como responsabilidade abastecer a casa com água colhida do rio e trazida em baldes de cuia para armazenamento na cozinha e consumo de toda a família, inclusive para preparo de alimentos e higiene de louças e utensílios da cozinha. Era o que nós meninos fazíamos, além da responsabilidade de molhar as plantas e dar de comer aos animais e aves. À minha irmã Ivany cabia-lhe de início o cuidado com os mais novos (no caso, o Próspero) e a recém-nascida Genilda, e posteriormente, Raimundinho; quando ela ficou mais “taluda”, assumiu a cozinha, a lavagem das nossas roupas e tudo o mais que se relacionasse com os trabalhos caseiros, inclusive remendar, e até mesmo fabricar, nossas roupas e as dela, permitindo à nossa mãe mais tempo para cuidar da roça.

Quando crescemos mais um pouco, além dos nossos afazeres diários ainda íamos ajudar nossos pais na roça.  Ou seja, tínhamos responsabilidades diferentes.

Hoje vejo isso como a melhor coisa da minha família, herdada de uma tradição familiar desde meus avós, e que lembro com alegria e saudade.

*

Quanto às nossas roupas, conforme dito antes elas eram feitas pela minha mãe, que sabia costurar e tinha uma máquina de costura muito antiga, mas que meu pai mantinha sempre revisada e funcionando.

Roupa nova era muito difícil de aparecer, salvo quando perdíamos uma das peças ou porque havíamos crescido e elas não cabiam mais no dono, ou os estragos não permitiam mais remendo. As roupas que não cabiam mais em mim ou nos meus irmos eram transferidas para os irmãos mais novos.

Remendar uma roupa que se rasgava pelo uso contínuo ou por acidente, era um ato rotineiro no interior. Se o rasgo era no joelho, a providência imediata era encontrar um retalho de pano qualquer, de qualquer cor, estampado ou não, e costurá-lo à mão com agulha linha, ou na máquina de costura. Isso valia tanto para as crianças quanto para os adultos. Era comum encontrar crianças e adultos usando roupas remendadas: calças, camisas, vestidos, tudo podia ser remendado, para uso no dia a dia, inclusive domingos.

Usávamos todo tipo de roupa. Nunca usávamos roupa comprada em loja, até porque não existiam lojas no beiradão da minha infância. Nossas roupas provinham da herança de um irmão que cresceu demais, ou eram feitas pela nossa mãe, ou pela minha irmã Ivany, não importando em nada a condição de roupa nova.

*

Sobre a educação que recebi quando criança, e principalmente quando adolescente, quero referir-me à educação doméstica.

Conforme já mencionei em outras oportunidades, tanto meu pai quanto minha mãe eram gente rústica do interior do Amazonas, portanto diferentes da gente rústica de outras regiões do Brasil, especialmente do sul. Então, a preocupação deles era com o meu futuro, já que eu era uma criança muito frágil.

 Ser uma pessoa rústica nas regiões do centro-oeste, sudeste ou sul do Brasil, significa que essa pessoa é originária do campo, mas não obrigatoriamente pobre. O homem do campo dessas regiões possui fazendas, grandes plantações, máquinas agrícolas, veículos e outros bens que o homem do campo dos beiradões do Amazonas sequer cogitava na época em que eu era criança. E meus pais eram do mais remoto dos beiradões. Nossa casa era uma palafita cercada e coberta com palhas da região. Não havia escola. Não havia modelos de educação familiar a serem seguidos. E para agravar, meu pai era analfabeto e, minha mãe, de pouco estudo. Tudo girava no entorno da aprendizagem da sobrevivência naquela região inóspita para o homem moderno. Enfim, meus pais não tinham educação doméstica modelar para nos ensinar. Eles nos ensinavam apenas a sobreviver.

Entretanto, quando eu tinha doze anos meu pai me mandou para a cidade, onde fui morar com uma professora e onde observei que existia um padrão social de convivência familiar, a chamada educação doméstica. Foi lá que aprendi que haviam regras para sentar-se à mesa de refeições, para deitar-se e levantar da cama, usar o vaso sanitário, usar o chuveiro, e outras atividades, todas desconhecidas para mim até então.

Mencionei antes que as tarefas domésticas ficavam sob a nossa responsabilidade. Par exemplo, abastecer a casa com água para beber e usar na cozinha, molhar as plantas da nossa mãe (tanto as ornamentais quanto as que serviam de tempero para os alimentos), abastecer o fogo com a lenha necessária à feitura de alimentos etc. Isso era tarefa diária, para nos desincumbirmos delas

*

Na minha época de criança, mesmo adolescente, não havia aparelhos eletrônicos. Quando meu pai comprou um rádio de ondas curtas, eu já estava com mais de dezoito anos. Esse aparelho eu usei muito, tanto para saber o que acontecia no mundo, através principalmente dos noticiários, quanto para ouvir músicas.

*

Naquelas alturas o único produto de limpeza que usávamos era o sabão em barra. Ainda hoje me lembro do cheiro dele, mas não sei se ainda existe nas prateleiras dos supermercados.

 À pergunta de que programa de televisão gostávamos, e como era a casa onde morávamos, todas estão implicitamente respondidas acima. Sobre a casa, quero mostrar uma imagem que dá uma ideia de como ela era, e da qual nunca mudamos.

 


 

Nessa imagem é possível perceber que nesse tipo de casa não havia quartos individuais. Quando muito existia uma divisória no meio da casa separando o ambiente onde os pais dormiam do ambiente onde o resto família dormia. Não existiam camas, nem colchões, nem colchonetes, nem mesas, nem cadeiras, muito menos sofás ou outras mobílias. Dormíamos em redes. A nossa cozinha era uma casa igual a essa, um poco menor, construída ao lado da casa principal, mas sem as paredes, onde ficava uma mesa grade ladeada por bancos, todos de madeira, fabricados pelo meu pai.

Lembrança de cheiros, só o dos peixes cozinhando na panela, ou assando em um fogão de barro construído por meu pai naquela “cozinha”; quanto aos sons, só o do latido dos cachorros ou o granidos das aves de criação (galinhas, patos, perus, marrecos...), que eram os tesouros da minha mãe.

*

O meu cantinho preferido não ficava dentro de casa. Ficava cerca de duzentos metros longe dela, num barranco à beira do rio. Lá existia uma árvore muito frondosa, cheia de raízes expostas sobre a terra, rio Amazonas passando em frente, muita sombra, ventilação incessante provinda do leste, para onde as águas corriam e de onde o vento soprava. Ali eu ficava sentado por horas, pensando nos meus brinquedos favoritos (durante dia, pescar e caçar passarinhos; durante noite, ver a lua nascera no horizonte por detrás das matas), enfim, ali ficava a cismar, mesmo sendo ainda criança. Eram horas e horas de devaneios.

Foi ali e assim que passei minha infância.

 Era tudo diferente dos dias de hoje. Não havia coleguinhas para brincar. O vizinho mais próximo ficava há mais ou menos dois quilómetros de distância. Logo, salvo meus irmãos mais novos, não havia crianças com quem pudesse me relacionar.

*

As compras de gêneros alimentícios, material para minha mãe fabricar roupas, ou outra qualquer coisa, eram feitas sempre nos mesmos lugares, até porque não havia outros: o comércio de um “arigó” que distava no mínimo uma hora em canoa movida a remo, ou no comércio de um árabe, que distava quatro horas de distância, também em canoa movida a remo, onde não existia nem leite nem pão.

*

Para nós, comida era sempre comida, todas muito bem-vindas. Não havia comida ruim, nem variedade delas sobre a mesa. Ou era peixe cozido, temperado basicamente com sal, coentro e cebolinha, porque não havia temperos sofisticado, nem arroz. Quando assado no fogão à lenha, o peixe era temperado apenas com sal. Ou cozido ou assado, o acompanhamento era apenas a farinha que meus pais faziam. E isso era contínuo: entrava semanas e saía semanas.

Lanche? Isso não existia.

As refeições, singelas como acima descrevi, todas eram especiais, não importando se era aniversário de alguém, ou data comemorativa de um santo ou da pátria.

*

Meu neto faz, ainda outras perguntas, às quais respondo a seguir.

Sobre objetos na casa que estavam na família há muito tempo, só lembro de duas coisas: a “mala azul”, uma mala muito antiga que minha mãe herdou do pai dela, onde ela guardava suas roupas e outros objetos pessoais, tipo joias e  parte de um livro que contava uma história de uma família portuguesa, que ela também herdara do pai, e que a faziam lembrar Portugal, onde meu avô nascera. Outro objeto era uma pedra, que hoje imagino ter sido uma espécie de machado usado pelos humanos da idade da pedra, e que serviam na nossa casa para manter a porta principal da casa sempre aberta.

A “mala azul” ficou na nossa casa enquanto a casa existiu. A pedra, perdeu-se antes, quando foi usada para por mim para servir de contrapeso a uma “linha comprida” usada para pescar piraíba, um dos maiores “peixes liso” de água doce. 

*

Meu aniversário!

Datas comemorativas não eram comemoradas, inclusive aniversários, meus ou de outros membros da família.

As únicas datas comemoradas eram os dias santificados. A comemoração consistia em “guardar” aquele dia, que nada mais era do que não sair para o trabalho na roça. Quando muito era permitido, sair à procura de outra família, para uma visita cordial, quando aproveitávamos para brincar com outras crianças, que era o que mais eu gostava.

Também não existiam presentes de aniversário.

Festas de Natal e Ano novo eram comemoradas sim. Essa comemoração consistia em toda nossa família deslocar-se para a casa de minha avó, que ficava do outro lado do rio Amazonas, em frente à ilha grande do Soriano, há mais ou menos quatro horas de viagem em canoa movida a remo. É que lá, na Costa da Conceição, existia um clube de futebol famoso, que tradicionalmente realizava todo ano uma festa, com bailes dançantes, jogos de péla, e muita, muita brincadeira de crianças e adolescentes, quer durante o dia quer durante a noite, quando podíamos ir até onde nossas resistências físicas permitissem.

Para aquela festa chegavam pessoas que tinham suas raízes ali, mas que, em busca de crescimento sociocultural ou econômico, de lá saírem para outras terras. Com essas pessoas vinham seus convidados, clubes de futebol... Era uma verdadeira festa, onde passávamos os últimos dias do ano. Minhas lembranças me dão mais ou menos oito anos de idade.

Naquelas festas, realizadas na “séde” do clube local ou na casa de algum ribeirinho que festejasse um santo padroeiro, a parte mais esperada era o baile dançante, animados por músicos amadores que utilizavam os instrumentos musicais mais humildes, e executavam várias peças musicais de vários ritmos para os casais saírem volteando pelo meio do salão.

Meus irmãos e eu, quando vencidos pelo cansaço, íamos dormir em redes previamente armada pela mãe em um dos espaços da casa, onde já estavam armadas outras redes de outras crianças, tantas que as redes ficavam umas sobre outras, até ao final do baile ao amanhecer do dia.

Todas as comemorações eram coletivas. Não havia comemoração em família. Quando muito, nessas datas o evento era lembrado com um “olha, hoje é teu aniversário”!

Eu amava tudo isso.

*

Sair em família significava ir para a casa da minha avó paterna, ou visitar um parente, ou amigo do meu pai, ali pelas proximidades nunca menos do que uma hora de viagem em canoa. Naquelas ocasiões aproveitávamos para brincar com outras crianças, caso existissem no local visitado. 

*

Minha família não conversava abertamente obre sentimentos, nem sobre dificuldades. Usando uma gíria dos dias atuais, eu diria que todos engoliam calados todas as suas dificuldades, fossem elas de caráter emocional, físico ou social.

Não existiam dificuldades familiares de qualquer natureza. Tudo era normal ou, como minha mãe me fazia acreditar, eram determinações de Deus, às quais Deus dava a solução. Pessoalmente lidávamos muito naturalmente com as dificuldades, fossem elas leves ou pesadas. Nunca se conversava sobre isso.

*

Memórias de infância que hoje me fazem sorrir, são tantas. Uma delas está relacionada com uma das nossas obrigações do dia a dia: ajudar nossa mãe no quefazer diário.

Quando eu estava com oito anos de idade minha mãe mandou, meu irmão mais novo e eu, lavar os cueiros da minha irmã Ivany, recém-nascida. Isso implicava em sair de casa com a trouxa de roupa suja, andar cerca de cem metros em direção à margem do rio, e lá, em cima de um “cedro” - tronco de uma árvore já quase totalmente consumida pelo tempo, mas que servia de “banheiro” para esse fim, nossas roupas era lavadas. O sentido de mãe ante perigos que isso plicava para suas crianças, ordenou que meu irmão mais novo me acompanhasse. Só que ele em vez de lavar os cueiros junto comigo, começou a brincar na água dentro do rio, correndo o perigo de ser mordido por peixes carnívoros ou ferroado por arraias, que existiam em boa quantidade.

Quando o chamei por umas tantas vezes para me ajudar, e sair do rio, ele não me atendeu, e ainda gritou comigo. Em consequência, peguei um pequeno galho de arbusto e bati nele para chamá-lo à obediência.

Quando chegamos em casa, ele chorando, contei tudo para minha mãe, e ela também bateu nele.

Outra memória.

Conosco morava um primo nosso, filho de um tio que até hoje lembro com muita saudade, o tio Manoel Beckman. Era o Didi (seu nome era Galdino Ferreira Beckman).

Eu era companheiro de pesca do Didi, quando minha idade devia estar entre dez e doze anos.

Era dia de Santo Antonio, treze de junho, e Didi saiu para pescar. Por razões que não consigo lembrar, não fui com ele daquela vez.  A tralha de pesca, como sempre, era integrada por arco, flexa, caniços para peixes pequenos, caniço para peixes maiores, “aste” com arpoeira e arpão, e, daquela vez, ele levou uma espingarda calibre trinta e seis, que usava também bala calibre quarenta e quatro.

Mês de junho é uma época em que o nosso beiradão, naquele ano, estava com águas cobrindo toda a terra da várzea onde morávamos. Então o Didi foi pescar numa canoa, na esperança de conseguir peixes para o almoço.

Lá pelas tantas horas Didi volta para casa e traz peixes para o almoço, mas pede que eu o acompanhe até certo lugar no igapó, porque ele havia matado de tiros uma guariba, mas não conseguia ir apanhar o animal onde ele havia morrido no galho de uma arvore muito alta.

Fui com ele.

Lá chegando, me mostrou a guariba morta. Só que ela estava presa a um galho de uma árvore que conhecíamos como “miratinga”, cerca de cinquenta a setenta metros acima do nível do rio. Ele disse que eu tinha que subir, para derrubar a guariba, me orientando que havia um cipó que descia desde o galho onde a guariba estava presa, e com raízes no fundo daquele igapó.

De início fiquei com muito medo de subir, mas aquela era uma das raras oportunidades de comermos carnes. Os argumentos do Didi me convenceram.

Subi por aquele cipó, até alcançar o galho onde estava a guariba morta. Quando lá cheguei, pus-me de pé no galho onde ela estava e olhei em todas as direções. Enxerguei a casa do Xico Nobre, um “arigó” bastante idoso que festejava o dia de Santo Antonio, e que ficava do outro lado do Amazonas, por detrás de uma ilha; enxerguei a casa do Arico, um primo da minha mãe; enxerguei a casa de comércio dos Holanda, também na Ilha Grande; enxerguei a nossa casa. Fiquei por um momento observando o horizonte, enquanto o Didi gritava para eu mandar a guariba morta para baixo. Depois disso, peguei o animal pelo braço, levantei-o, afastei-o um pouco para fora do galho, e o soltei para o Didi apanhá-lo. Depois desci.

São lembranças que hoje me fazem sorrir.

*

Meu neto pergunta qual é a maior diferença entre crescer naquelas alturas e crescer agora.

Só posso dizer que, lendo o que escrevi neste espaço sobre minha infância, e comparando com os as crianças dos dias atuais, é fácil qualquer pessoa perceber a diferença.

Eu particularmente penso que naquela época a relação entre pais e filhos era muito mais proveitosa. O aprendizado estava vinculado aos caminhos que poderiam levar a uma vida adulta saudável, sem a influência de culturas e saberes construídos no mundo das ilusões do rádio, da televisão, e, principalmente, do conhecimento alienígena nascido dessas coisas trazidas pelo celular.

Não que isso seja abominável, mas porque consumido sem regras.

 

 

 

 

 

 

 

4 -SOBRE CRESCER E CHEGAR À VIDA ADULTA

 

 

 

Quantos anos eu tinha quando começaste a estudar? A minha mais remota lembrança me leva ao ano de 1950, talvez mais cedo ou mais tarde um poco, quando meus pais decidiram que eu iria morar com minha avó Maroca, para estudar com uma professora que estava morando temporariamente com ela. Essa foi a primeira vez que saí de casa para estudar. Logo, eu tinha entre quatro e seis anos de idade.

Era a casa da minha avó. Não era uma escola formal com um nome identificador e com salas de aula. As crianças da minha idade, assim como eu, e os de um pouco mais idade, sentavam-se ao redor de uma mesa retangular grande, com capacidade para dezoito assentos, colocada numa casa secundária, que era chamada de cozinha, ao lado da casa principal, onde hoje podemos identificar como sala de refeições.

Para mim, a única criança residente naquela casa, era muito cômodo porque eu não precisava deslocar-me para ir à escola. As crianças mais velhas um pouco, primos ou aparentados, vinham à escola trazidos pelos irmãos maiores, outros vinham sozinhos, andando a pé pelos caminhos dos cacauais que abundavam naquele beiradão.

Eu gostava da escola, porque tinha oportunidade de brincar com outras crianças. Mas do que eu gostava mais era do pós-escola, quando aproveitava para andar pelo cacaual colhendo seus frutos, e os de outras árvores frutíferas que existiam lá.

No meu tempo de criança, um dia escolar típico começava cedo. Às sete horas da manhã, começávamos cantando o Hino Nacional Brasileiro, com todos enfileirados e postura respeitosa – coisas ensinadas pela professora:

 

 

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas

De um povo heroico, o brado retumbante

E o Sol da liberdade, em raios fúlgidos

Brilhou no céu da pátria nesse instante

 

Se o penhor dessa igualdade

Conseguimos conquistar com braço forte

Em teu seio, ó liberdade

Desafia o nosso peito a própria morte

 

Ó Pátria amada,

Idolatrada

Salve! Salve!

 

Brasil, um sonho intenso, um raio vívido

De amor e de esperança, à terra desce

Se em teu formoso céu, risonho e límpido

A imagem do Cruzeiro resplandece

 

Gigante pela própria natureza

És belo, és forte, impávido colosso

E o teu futuro espelha essa grandeza

 

Terra adorada

Entre outras mil

És tu, Brasil

Ó Pátria amada!

Dos filhos deste solo, és mãe gentil

Pátria amada, Brasil!

 

Deitado eternamente em berço esplêndido

Ao som do mar e à luz do céu profundo

Fulguras, ó Brasil, florão da América

Iluminado ao Sol do Novo Mundo!

 

Do que a terra mais garrida

Teus risonhos, lindos campos têm mais flores

Nossos bosques têm mais vida

Nossa vida, no teu seio, mais amores

Ó Pátria amada,

Idolatrada

Salve! Salve!

 

Brasil, de amor eterno seja símbolo

O lábaro que ostentas estrelado

E diga o verde-louro dessa flâmula

Paz no futuro e glória no passado

 

Mas se ergues da justiça a clava forte

Verás que um filho teu não foge à luta

Nem teme, quem te adora, a própria morte

 

Terra adorada

Entre outras mil

És tu, Brasil

Ó Pátria amada!

Dos filhos deste solo, és mãe gentil

Pátria amada, Brasil!

 

Depois do Hino cantado, todos tomavam os seus assentos para as quatro horas seguidas de aula. Ao final, antes um pouco das onze horas, todos eram retirados e colocados em formação para cantarem o Hino à Bandeira do Brasil:

 

Salve lindo pendão da esperança

Salve símbolo augusto da paz

Tua nobre presença à lembrança

A grandeza da Pátria nos traz

 

Recebe o afeto que se encerra

Em nosso peito juvenil

Querido símbolo da terra

Da amada terra do Brasil

 

Em teu seio formoso retratas

Este céu de puríssimo azul

A verdura sem par destas matas

E o esplendor do Cruzeiro do Sul

 

Recebe o afeto que se encerra

Em nosso peito juvenil

Querido símbolo da terra

Da amada terra do Brasil

 

Contemplando o teu vulto sagrado

Compreendemos o nosso dever

E o Brasil por seus filhos amado

Poderoso e feliz há de ser

 

Recebe o afeto que se encerra

Em nosso peito juvenil

Querido símbolo da terra

Da amada terra do Brasil

 

Sobre a imensa Nação Brasileira

Nos momentos de festa ou de dor

Paira sempre sagrada bandeira

Pavilhão da justiça e do amor

 

Recebe o afeto que se encerra

Em nosso peito juvenil

Querido símbolo da terra

Da amada terra do Brasil.

 

Ao final, todos eram dispensados, retornando às suas casas.

Isso aconteceu comigo enquanto estudei no beiradão em que nasci e me criei. Também aconteceu no “Paredão”, de onde nunca esqueço.

E dessa forma as crianças e adolescentes aprendiam o bê-á-bá e os rudimentos da escolaridade mais avançada, enquanto suas mentes arquivavam princípios de disciplina, de respeitabilidade e de sentimentos pátrios, que não tenho notícias de que estão sendo plantados pelas escolas nas crianças e adolescentes dos dias de hoje.

*

Não tenho lembrança de que alguma vez tenha me portado mal na escola, seja durante o ensino primário, ensino básico, médio ou superior. Talvez pela forma com que fui educado, talvez pela minha origem interiorana, talvez pela timidez que sempre caminhou junto comigo, eu tenha sempre me comportado bem quer com meus professores quer com o pessoal administrativo das escolas onde estudei. A todos eu tratava bem, com muito respeito. Eu não tinha professor preferido.

*

Meu neto pergunta o que eu queria ser quando crescesses. É uma pergunta muito interessante, porque quando criança, entre os oito a dez anos dez idade, meu pai me levava com ele para ir à casa de comércio de um árabe que se estabelecera na Costa da Conceição, onde minha avó morava. Naquele estabelecimento eu fiava observando o trabalho do pessoal do escritório, especialmente do guarda-livros, relacionado com o registro que ele fazia da movimentação de entrada e saída de recursos financeiros.

Era aquilo que eu queria para mim no futuro: ser um guarda-livros, o que corresponde hoje a ser um Contador.

Ocorre que meu pai era epilético, e sofria crises noturnas que deixavam minha mãe num estado emocional tão forte que eu tinha medo de que ela morresse. Então pensei em ser um médico, para cuidar tanto do meu pai quanto da minha mãe. Entretanto os caminhos tortuosos da vida me levaram a um colégio comercial, o Sólon de Lucena, de onde saí técnico em contabilidade. Mais tarde o destino e a Universidade me fizeram Contador.

*

Sobre eu ter sido ou não um bom aluno, posso afirmar que sempre fui um bom aluno. Quando vim para a cidade, com treze anos, eu não tinha nenhum curso formal de primeiro grau. Mas como fui morar com uma professora, ela conseguiu, no mesmo ano, me matricular no segundo ano do primário, e dele saí aprovado com louvor. Ano seguinte essa mesma professora me matriculou numa escola oficial, um Grupo Escolar denominado Agnello Bittencourt, de onde saí aprovado ao final daquele ano (1959).

Com quatorze anos de idade me matriculei na única escola que aceitava exclusivamente aluno interno. Era uma escola de iniciação agrícola, do âmbito do governo federal, conhecida como “Paredão”, bastante adequada para mim que vim do interior do Estado para estudar, mas não tinha onde morar. Fiquei durante três anos nessa Escola.

Quando lá cheguei, encontrei mais de uma centena de pré-adolescentes e adolescentes, com quem me relacionei socialmente, e aproveitei para brincar brincadeiras que não existiam onde cresci. Só que brinquei demais, e perdi o primeiro ano, tendo que repeti-lo.

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Nas escolas pelas quais passei, inclusive de nível superior, eu não tinha alguma disciplina preferida. Gostava de todas elas. Nunca fiz visita de estudo para melhorar meu aprendizado. É que desde muito cedo tive que trabalhar para sustentar minha vida de estudante.

No Brasil não existe estudo obrigatório. Talvez por isso hoje exista muitos analfabetos, e, consequentemente, um grande número subempregado vivendo uma vida de pobreza intelectual e financeira.

Apesar de toda dificuldade encontrada por um interiorano que se aventura por um futuro no contexto social, consegui concluir o ensino superior e fazer especialização na minha área de atividade: a contabilidade.

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Meu neto quer saber como eu era na minha adolescência, e como eu via o mundo.  Creio que isso já escrevi: passei minha adolescência internado em um colégio de iniciação agrícola, o Paredão”.  Quando saí de lá, fui concluir o segundo grau em uma escola agrícola em Belém do Pará, de onde saí já adulto.

Naquelas alturas eu não “via o mundo”. Sonhador, eu só pensava em concluir meus estudos, arranjar um bom emprego, e trazer meus pais e meus irmãos do interior para a cidade, para lhes dar conforto em suas vidas de adulto e velhice. Foi o que fiz.

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Sobre os acontecimentos da época, tenho lembrança da guerra do Vietnã. Outro, foi o assassinato do Presidente dos Estados Unidos da América, John Kenedy. Mas essas coisas não traziam nenhum interesse para mim. O evento de grande relevância para mim adolescente foi a conquista da Copa do Mundo de 1958 e 1962.

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Sobre passatempo, lembro que comecei minha curiosidade por livro e leituras ainda muito cedo.

Certa vez - eu deveria ter entre seis oito ano de idade – em visita à vovó Maroca encontrei o exemplar de um jornal. Tinha começado a tarde daquele dia e, como já sabia ler, por curiosidade comecei q folhear aquele jornal, olhando as fotografias e, principalmente, os anúncios publicitários porque eram escritos em letras maiores e mais fáceis de ler. Foi então que encontrei um aviso da maçonaria, cheio de palavras estranhas seguidas por três pontos em triângulo. Fiquei curioso porque, naquelas alturas, a maçonaria significava homens muito ricos, cheios de poder, tudo conseguido em parceria com o demônio. Era o que os adultos diziam.

Tentei ler o anúncio. De inícios eu não consegui, mas a curiosidade foi muito grande. Descobri depois que aquelas palavras truncadas eram apenas abreviaturas de palavras normais, que todos conheciam, e saí à procura de outros anúncios para ver se encontrava mais alguma coisa interessante para eu ler, ou tentar ler. Como não encontrei mais nada, fui a um dos noticiários que contavam a história da enchente dos rios deixando ruas das cidades debaixo d’água. Foi quando minha mãe começou a chamar por mim, lá do terreiro, e eu querendo terminar a leitura, não atendia. Resultado, ela, minha mãe, chega com um cipó e brande-o na minha costa, tanto ela havia me chamado sem que eu lhe respondesse.

Depois disso, encontrei parte de um livro na “mala azul” da minha mãe, e comecei a lê-lo. Depois meu pai apareceu com outros livros, de caráter religioso, entre eles a Bíblia.

Eu os lia, mas não tinha definido ainda a qual gênero de leitura me dedicar.

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Quanto à música, eu ouvia quando possível, na voz da minha avó “Botão”, suas reproduções de cantores como Vicente Celestino, Nelson Gonçalves, Caubi Peixoto, Ângela Maria, Dalva de Oliveira etc., que interpretavam canções desde as mais poéticas até ao ritmo que sempre gostei: o samba de raiz. Muito mais tarde encontrei minha cantora preferida, Elis Regina.

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Meu neto quer saber se eu costumava sair, aonde eu ia, e se gostava de dançar.

“Sair”, na cidade dos dias atuais significa sair da casa dos pais para aquilo que a juventude atual do Brasil chama de “balada”, ou seja, sair para procurar clubes de dança e encontrar amigos, ou restaurantes, lanchonetes, tudo para observar jovens do sexo oposto, flertar, o até mesmo aventuras sexuais. No meu tempo de jovem eu não conhecia nada disso.

Morando na beiradão, de onde saí definitivamente com mais de vinte nos de idade, as “saídas” eram só para visitar um parente, ou, aos domingos, para participar de partidas de futebol. Isso porque na segunda-feira era dia de trabalho braçal nas roças da família, e tínhamos que estar descansados para o labor. Nos casos de uma “festa” em que o fundamento maior era o baile dançante, no dia seguinte, se fosse dia de semana, éramos obrigados ao trabalho na roça, cansado ou não, com sono, ou não.

Dançar, eu só aprendi adulto. Eu gostava de dançar, especialmente as canções de ritmo mais lentos porque, já naquelas alturas, os ritmos mais acelerados me deixavam muito cansado.

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 A moda no meu tempo de jovem, anos 60 e 70 do século passado! Ah, a moda no meu tempo.

Quando eu era jovem, os rapazes e as moças usavam calças pantalona e boca de sino.

 


 

De modo geral, a moda jovem dos anos 60 e 70 foi muito mais do que estética — ela funcionava como linguagem social, política e cultural. Nesse período, o vestuário passou a expressar contestação, liberdade e identidade, especialmente entre os jovens que se afastavam dos padrões conservadores das gerações anteriores.

Nos anos 60, com o Movimento Hippie, e a influência da música de artistas como The Beatles e Jimi Hendrix, surgiu uma moda mais experimental. Roupas coloridas, estampas psicodélicas, tecidos leves e um certo despojamento tornaram-se símbolos de ruptura com o formalismo.

Já nos anos 70, essa tendência evoluiu e se consolidou com mais ousadia. É nesse contexto que ganham destaque as pantalonas e, sobretudo, as calças boca de sino. Essas peças tinham como característica principal a abertura progressiva a partir dos joelhos, criando uma silhueta fluida e marcante. Mais do que uma escolha estética, elas representavam liberdade de movimento, quebra de padrões e unissexualidade na moda: homens e mulheres adotavam peças semelhantes, algo inovador para a época.

Em síntese, as pantalonas e calças boca de sino não eram apenas roupas: eram manifestações visíveis de uma geração que buscava reinventar o mundo — começando pelo modo de se vestir. Eu nãos as usava porque achava-as ridículas para o meu conceito de elegância, mais relacionado com a época boêmia das serenatas de tempos mais anteriores ainda. Eu preferia as roupas comuns.

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Sobre meu primeiro trabalho na cidade, nos idos do ano de 2017escrevi um texto que intitulei “Uma Encruzilhada da Vida”, falando disso com certo saudosismo.  

 

“Era o dia três de outubro do ano de mil novecentos e quarenta e cinco, quando vi a luz pela primeira vez, trazido das entranhas de minha mãe pelas mãos da parteira Honorina.

Tudo bem, se esse fato tivesse acontecido na Maternidade de uma cidade qualquer deste mundo de meu Deus. Mas, não! Foi lá no beiradão desse rio Amazonas, cobiça das nações estrangeiras! Ou melhor, foi no meio do rio Amazonas, na Ilha Grande do Soriano, uma terra de aluvião depositada pelo fenômeno da “terra caída” em frente à desembocadura do rio Madeira, no município de Itacoatiara, que a natureza transmutara numa referência geográfica até aos dias de hoje.

Naquele lugar, meus ancestrais portugueses cultivavam uma “fazenda de cacau”, nos áureos tempos da presença dos jesuítas por esta região. E foi lá que começou minha caminhada por essas estradas da vida.

Meu mundo estava circunscrito à Ilha Grande do Soriano no meio do rio, à Costa do Itapará pela margem direita, e à costa da Conceição pela margem esquerda.

Minhas primeiras lembranças remetem-me a duas crianças acomodadas no colo do meu pai, minha prima Marion à esquerda e eu à direita, sendo acalentadas por cantigas de ninar brotadas da alma que animava o corpo daquele homem rústico, tão sensível às coisas da vida, enquanto minha mãe, junto com minha avó materna e tias, preparavam o jantar para aquela numerosa família de descendência portuguesa. De um pouco mais tarde, as imagens refletem os primeiros momentos vividos junto com meus pais na nossa casa, construída naquele mundo de solidão que era a Costa do Itapará, e lembranças de visitas à casa de minha avó paterna, na Costa da Conceição.

E ali fui crescendo, entre brincadeiras com meu irmão mais novo e as primeiras atividades na agricultura de subsistência que meu pai praticava. Enquanto menino, de saúde sempre frágil, era acordar antes do sol nascer, carregar água para molhar as plantas da minha mãe, encher o pote, o camburão, os baldes de cuia, tudo para que não faltasse em casa o precioso líquido enquanto meu pai e eu estivéssemos cuidando das roças de juta, mandioca, milho, feijão etc. Na verdade, aqueles momentos eram considerados por mim como de lazer, ou de brinquedo, já que era naquelas oportunidades que, entre uma terçadada, ou uma enxadada, e outra, sempre havia tempo para embalar-me nos cipós que desciam das árvores mais altas, caçar passarinhos, lagartos, saborear camapu, ou até mesmo me deitar à sombra do caquizeiro ou outra arvore frondosa mais próxima, para um breve repouso sobre folhas secas caídas no chão.

Depois, já bem taludo, mas sempre com saúde frágil, esses brinquedos transmudaram para o labor responsável de quem se preparava para encarar a vida de interiorano tendo como modelo o pai analfabeto, mas de caráter a toda prova.

Essa roda viva era mantida por um sistema econômico baseado na produção de fibras de juta, com o objetivo de atender à grande demanda de sacaria, tanto pela produção cafeeira do sul do Brasil (entenda-se sul toda base territorial que não fizesse parte do Estado do Amazonas, assim como entendido no interior à época) quanto por outros produtos que precisavam ser embalados para comercialização (na época ainda não existia o polipropileno, uma das principais causas do encerramento do ciclo econômico da juta no Amazonas). Consistia no financiamento de empresas aos agricultores ribeirinhos, para o plantio e colheita de juta, aquelas fornecendo gêneros de primeira necessidade e estes lhes entregando ao final da safra toda a produção anual, oportunidade em que era feito um ajuste de contas de onde quase sempre o agricultor saía devedor, numa repetição do que havia acontecido durante o ciclo da borracha.

Nas primeiras duas décadas do século 20, já no início da decadência do ciclo da borracha, um comerciante de nacionalidade árabe, Abdon Raman Hauache, regatão do beiradão do rio Madeira, instalou-se na Costa da Conceição, numa área de várzea que ele veio a denominar de Lugar Santa Maria, e constituiu família com uma moça moradora da Colônia São José do Amatari, dona Leonor. O irmão dele, Abdul Razac Hauache, constituiu família com a irmã de dona Leonor, mas, ao contrário de Abdon Raman, com o tempo fixou residência em Manaus, onde desenvolveu atividade comercial no ramo de financiamento para compra e exportação de produtos regionais, entre eles a sorva, balata, borracha, piaçaba, castanha, cumaru, juta etc. Em parceria, os dois irmãos vieram a tornar-se uma potência econômica no final da primeira metade do século 20, a mais próspera e respeitável organização comercial do Estado do Amazonas, num conglomerado de empresas sob o comando da Indústria e Comércio Abdul Razac S/A., com produção de dezenas de milhares de toneladas de juta beneficiada e exportada para outros estados e para o exterior.

Meu pai era aviado (financiado) de Abdon Raman, e com ele mantinha relacionamento de muito respeito e consideração. Essa relação durou até o início da década de sessenta, do século passado, porque a saúde do árabe o afastou da Costa da Conceição em busca de tratamento lá para as bandas de São Paulo. À frente dos negócios em Manaus ficou o genro de Abdul Razac, Khaled Ahmed Hauache, casado com dona Sadie Rodrigues Hauache, que tratou de mandar seu sobrinho, o jovem Hany Hauache, para a Costa da Conceição, a fim de dar prosseguimento ao negócio de aviamento para a juta.

Hany, recentemente chegado no Brasil, foi recebido com muito carinho na Costa da Conceição, razão da sua simpatia e reconhecido carisma. Fez amizade com todo mundo, desde os mais jovens, e movimentou positivamente a economia local tanto quanto a vida social daquele pedacinho de Brasil. Foi quando o conheci.

Fizemos amizade, do tipo que é possível ser feita entre um príncipe das arábias e um jovem ribeirinho deste Amazonas de Deus. Com a derrocada do ciclo da juta, a família Hauache encerrou suas atividades comerciais em vários locais do interior amazonense, entre eles a Costa da Conceição, redirecionando-as para outras atividades, especialmente para a telecomunicação.

Com a saída dos Hauache, a Costa da Conceição experimentou um período de muitas dificuldades, face à perda da referência que era sustentada por aquela família. Não existia perspectiva de futuro para os jovens interioranos daquelas paragens de saudosa memória, entre eles eu, e a única saída era migrar para a Capital em busca de uma oportunidade de trabalho na recém-criada Zona Franca de Manaus. E foi o que aconteceu comigo.

Depois de perambular pelas ruas de Manaus, sem qualquer êxito, na tentativa de conseguir uma colocação, e quando o desânimo já tomava conta de mim, descobri Hany Hauache dono de uma drogaria na fervilhante Rua Barão de São Domingos, próximo ao Mercado Adolfo Lisboa. Criei coragem, venci meu medo e minha timidez, e lhe pedi emprego.

Ele deu uma pequena risada, mas me encaminhou para uma entrevista com o gerente e farmacêutico da drogaria, que depois de perguntar sobre minhas habilidades e outras questões por ele consideradas fundamentais ao exercício de qualquer função na empresa, reportou suas conclusões ao chefe, na minha frente: “esse rapaz não reúne nenhuma condição para trabalhar aqui”.

Outra risadinha, e Hany, me olhando de frente, disse: “Pega teus documentos. Começas amanhã. Ele fica, viu Dr. Waldemar?”

Eu estava numa encruzilhada da vida: o NÃO me faria voltar para o interior, onde certamente eu não resistira às intempéries, face à fragilidade da minha saúde diante do trabalho pesado que acomete o homem do interior na luta pela subsistência; o SIM, caiu como uma benção de Deus, abrindo caminhos com muitos espinhos, é verdade, mas que percorri com muita vontade de vencer qualquer obstáculo à minha frente. E venci.

O meu muito obrigado ao senhor Hany Hauache, que confiou em mim, e ao senhor Khaled Ahmed Hauache e à senhora Sadie Rodrigues Hauache, que me acolheram como filho no seio da sua família, oportunizando minhas conquistas.”

 

Esse foi o meu primeiro trabalho na cidade. Despois de exercer minhas habilidades com terçado, enxada e outras ferramentas usadas na roça, tive que aprender a usar calculadoras, máquinas de escrever, ler e interpretar documentos fiscais, tudo o que um auxiliar de escritório precisava fazer para ganhar um salário-mínimo de 112,80 cruzeiros novos, moeda da época. Para ter uma referência, compreenda que o salário-mínimo atual (2026) é de R$ 1.621,00.

Eu já estava com vinte e quatro anos de idade!

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Meu neto pergunta qual foi o meu primeiro carro, e quanto custou. Era um “Corcel”, automóvel tipo cupê, de cor amarela bem pálida. Não lembro quanto custou, mas lembro que comprei do Elson Farias, um escritor e poeta amazonense, casado com Roseli Franco de Sá, filha da família Franco de Sá, com quem minha esposa foi criada.

Naquelas alturas, anos de 1976, um pouco antes ou um pouco depois, eu não sabia dirigir automóveis. No ato de entrega do veículo, fui acompanhado por um amigo que estudara comigo no “Paredão”, e que estávamos dividindo o aluguel de um escritório no centro da cidade.

Feita a entrega, meu amigo levou o automóvel e estacionou próximo ao nosso escritório. Era um sábado. Na hora de voltarmos para nossos lares, ele dirigiu o automóvel até a casa dele, que ficava no conjunto D. Pedro, e me deixou em pé, contemplando o veículo enquanto ele entrava na casa dele para o almoço.

Fiquei ali matutando. E agora?

Eu observava sempre os condutores de automóveis enquanto dirigiam. Percebia que havia necessidade de mudanças de marchas à medida em que o veículo ganhava velocidade. Mas isso era apenas teorias, que me garantiam ser eu capaz de fazer o mesmo.

Tomei coragem, entrei no meu primeiro automóvel, liguei o motor como eu observa outros fazerem, engatei a primeira marcha e saí no rumo de casa. Quando a máquina acelerou demais na primeira marcha, passei para a segunda marcha e fui com ela até chegar em casa, uns três a cinco quilômetros depois. Mas chequei!

Ainda bem que naquele tempo o trânsito era muito devagar. Hoje eu não faria isso.

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Naquelas alturas eu já não morava com meus pais. A família Hauache havia me cedido uma casa que eles forneciam aos operários da Fábrica de Tecidos Matinha. Foi para essa casa que levei meus pais quando os trouxe do beiradão. Era uma casa muito humilde, toda de madeira, mas que meu pai foi consertando aos poucos para torná-la melhor habitável.

Pouco tempo depois comprei minha própria casa, para onde mudei, e passei a viver minha vida independente da vida dos meus pais, embora fosse eu que garantisse financeiramente o sustento deles. Quando do evento da compra do meu primeiro automóvel, eu já morava na minha própria casa.

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Na minha casa própria eu levava alguns dos poucos amigos que havia conseguido durante minha vida de interno em duas escolas agrícolas. Meu melhor amigo era um jovem chamado Paulo, que no internato era conhecido como “Mamadeira”. Sobre ele, escrevi no ano de 2018:

 

“Difícil abordar o tema. São apenas recordações quase perdidas no tempo, decorrentes de um momento muito triste porque um amigo de juventude se perdeu no espaço há mais de quarenta anos. Seu nome: Paulo Roberto de Almeida Lentz.

Há cerca de três anos o Facebook apresentou no meu perfil, lista de “Pessoas que talvez você conheça”, o nome de Neybe Lentz, para quem escrevi, via Messenger:

“Oi, Bom dia! Faz muitos anos conheci um moço chamado Paulo Roberto de Almeida Lentz. Seria ele um parente seu? Ele morava em Manaus, tinha uma irmã e a mãe dele chamava-se Sulamita.

Tenho procurado esse amigo de juventude e não o tenho encontrado. Estou com 71 anos e ele deve ter mais o menos a minha idade. é muito importante para mim reencontrá-lo. Você poderia me ajudar?”

 Ontem, ela respondeu:

“Poxa que pena que não vi sua mensagem antes! Ele era meu tio! Irmão de meu pai passou muitos anos desaparecido e voltou para MANAUS, acho que p(or)que) sabia que estava muito doente. Ele faleceu em 2016, e a mãe dele também! Uma pena!”

Essa notícia caiu como um raio sobre minha cabeça. Passei o resto do dia acabrunhado, entristecido, choroso, por fim, péssimo. Paulo e eu estávamos ligados por um vínculo muito forte, nascido das agruras do internato na Escola de Iniciação Agrícola do Amazonas, mais conhecida na época como “Paredão”, onde hoje está instalada uma estação da Marinha do Brasil; depois, na Escola Agrícola Manoel Barata, em Outeiro, Icoaraci, Belém do Pará.

Paulo era o menor, e mais novo da turma de noventa e três alunos, do “Paredão”. Por isso mesmo recebeu o apelido de Mamadeira, pelo qual vou referir-me a partir de agora. Era pequenino, branco, cabelo meio “sarará”, olhos verdes, o menor e mais novo, mas também o mais atrevido, o mais destemido, o mais valente da turma. Não calava ante a rabugice do professor Oscar, não recuava quando alguém dos “maiores” crescia em valentia sobre ele: enfrentava-o, mesmo que saísse da briga com a cara toda amarrotada.

Talvez porque eu fosse fisicamente muito frágil, apesar de possivelmente um pouco mais velho e mais alto do que ele, ou porque eu morava no interior do Estado, sem as malícias dos meninos da cidade, Mamadeira resolveu ser meu protetor. Foi ele quem primeiro me avisou sobre os “grandes” aliciarem os “pequenos” para aqueles servirem de protetor destes, mas na realidade queriam mesmo era se apossar de qualquer valor em dinheiro ou bens materiais. (Eu já tinha caído numa dessas, e quando cobrei meu escasso dinheirinho fui devidamente intimidado com promessas de violências sem fim).

Muitas peraltices vividas durante os cinco anos de internato. No “Paredão”, saídas furtivas aos finais de semana para visitar a Lourdes, pretendida namorada da garotada, uma moçoila que morava do outro lado do igarapé do Mauazinho, de onde quase sempre voltávamos imediatamente antes do “Guarda de Alunos” apitar silêncio, às dez da noite. Foram muitas travessias do Rio Negro em canoa movida a remo, com a Lourdes, mãe e irmãos menores, só pelo prazer da aventura; quantas pescarias nas “Lages”, de onde voltávamos para a Escola algumas vezes com grande quantidade de peixes, usados para o almoço de todos os alunos nos primeiros dias da semana seguinte.

No “Manoel Barata”, foram muitas escapadelas durante o veraneio, para admirar a beleza das garotas nas praias de Outeiro, ou um final de semana em Icoaraci; foram muitos jogos de futebol, esporte no qual Mamadeira achava que era craque, numa eterna disputa com o Xambari (Dilson da Silva Ramos).

E o tempo passou. No final do ano de 1964 nos separamos. Mamadeira continuou a jornada de estudante de agronomia; eu, de volta ao interior. Em 1969, recomeçou minha jornada de estudante em Manaus, desta vez no sempre lembrado “Sólon de Lucena”. Em 1973, recebi a visita de Mamadeira, e nos encontramos regularmente durante umas três semanas. Depois, ele sumiu. Nunca mais vi nem ouvi aquele querido amigo e irmão. Não sei se constituiu família, se teve filhos, se teve êxito na sua profissão. Ele passou pela minha vida como o vento passa, refresca nossos rostos e não deixa marcas outras que não seja a lembrança.

Como forma de homenagem Mamadeira, permito-me fazer a chamada nominal de poucos dos mais queridos companheiros daquela jornada iniciada em 1960 e concluída em 1964, com o perdão daqueles que a idade já me roubou da lembrança o nome, ou o apelido, ou o número de matrícula: Paulo Roberto de Almeida Lentz (Mamadeira); Dilson da Silva Ramos (Xambari ou Tralhoto); Antonio Ferreira Lima (Guaiamu); (Buxuxu); Silvestre Torres; Miguel Feitosa Barbosa; Neymar Ramos de Assis; Ruy de Oliveira Gomes; Cleomilton Ramos da Silva (Curió)...

Desses amigos, o único com quem ainda mantenho contato é com o Silvestre Torres. Os demais perderam-se pelos cantos da vida, ou passaram deste para outro mundo.

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Meu neto quer saber se a minha relação com meus pais mudou quando comecei a ganhar dinheiro.

Primeiro, o dinheiro que ganhei provinha do meu trabalho assalariado, que não era grande coisa, mesmo assim, era motivo de orgulho principalmente para meu pai.

Com o dinheiro do meu salário, mantinha a minha casa e a casa dos meus pais. Com minha independência financeira, nossa relação não havia mudado em absolutamente nada. Muito pelo contrário, meu vínculo com eles foi se fortalecendo, porque eu entendia que precisavam de mim para nas suas velhices. E foi exatamente isso que fiz até eles partirem deste mundo: amparei-os. Meu pai, que no beiradão era um homem respeitável e considerado, na cidade tornou-se um homem dependente principalmente de mim, e isso o fazia sofrer.

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Durante toda minha vida, posso garantir que tive dois empregos: o primeiro, com a família Hauache, com quem passei de um simples auxiliar de escritório ao Contador responsável por todo o grupo empresarial, envolvendo a Indústria e Comércio Abdul Razac S/A, a Fábrica de Tecidos Matinha S/A, a Companhia Brasileira de Fibras, a Sociedade de Televisão Ajuricaba Ltda., e outras. Foram tantos anos vinculado a essa família, de onde saí para o cargo público de Técnico de Controle Interno, mediante aprovação em concurso público, e depois para Auditor do Tribunal de Contas dos Municípios, de onde saí aposentado.

Eu gostava dos dois empregos. O Primeiro porque prevalecia a parte emocional decorrente do vínculo mantido com a família Hauache, principalmente com o patriarca Khaled Ahmed Hauache, que muito me ensinou sobre a vida. No emprego público, tive a oportunidade de crescer profissionalmente, de aprender escrever relatórios, pareceres, e outros documentos oficiais produzidos no âmbito do Controle Externo exercido pelo Tribunal de Contas dos Municípios.

Meu neto pergunta:  Na tua opinião, quais são as maiores diferenças entre estudar e trabalhar nessa altura e hoje?

Estudar e trabalhar para mim foi muito difícil.

Comecei a Faculdade no ano de 1970, ainda solteiro, mas já trabalhando com a família Hauache; concluí oito anos depois, justamente pelas dificuldades que foram aparecendo. Os três primeiros anos de ensino superior foram relativamente fáceis, porque minha grande preocupação era os meus pais. Mas depois que minha filha nasceu, o fardo da responsabilidade pesou muito mais e tive de me desdobrar para carregá-lo.

Eu saía para o trabalho de manhã, voltava às vezes para o almoço; à tarde, logo depois do almoço, retornava ao trabalho e de lá já ia para a Faculdade, de onde saía lá pelas vinte e duas horas, correndo para tomar transporte coletivo e voltar para casa, aonde chegava perto de meia-noite. Não havia tempo para brincar com minha filha, nem com meu filho que nasceu depois.

Hoje eu aconselho os jovens a não criarem suas próprias famílias enquanto estiverem estudando, especialmente aqueles jovens que já trabalham.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

II

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FALA-ME SOBRE O AMOR E SOBRE SER AVÔ

 

 

1 - SOBRE O AMOR

 

 

 

Meu neto pergunta como é que, quando jovem, eu conhecia as raparigas.

Primeiro quero esclarecer que aqui no Brasil “rapariga” não é uma palavra apropriada para referir-se a jovens do sexo feminino. Entretando entendo que, pelas perguntas seguintes, “rapariga” esteja se aludindo jovens mulheres, adolescentes, solteiras, filhas de famílias respeitáveis, e como tais, elas jovens respeitáveis. Nesse sentido, é muito difícil para mim falar sobre um primeiro amor.

Juventude é um período um tanto quanto indefinido. Por exemplo, estou chegando aos oitenta e um anos, mas ainda me sinto jovem, embora meu corpo não responda mais satisfatoriamente aos comandos da minha mente. Razão disso, vou entender como juventude o período que vai desde a minha adolescência até à data do meu casamento, separando o período de quando eu residia no beiradão do período que passei a residir na cidade.

Durante minha adolescência, no beiradão, meus olhos voltavam-se para aquelas jovens que estavam mais próximas de mim. No caso, minhas primas. Eu tinha certa paixão por algumas delas, que eram muitas. Mais tarde, comecei a perceber que existiam outras jovens além das minhas primas. Pelo menos duas delas marcaram minha vida, todas duas das proximidades da minha casa. A segunda delas, marcou profundamente meus sentimentos porque ela pertencia a uma família que eu considerava rica, e eu, pobre, não havia como pensar uma vida em comum com ela.

Essa moça casou-se, e eu, tal qual um romance cantado nessas canções antigas, fui ao casamento dela com um rapaz então considerado muito rico. Depois disso, deixei o beiradão, mas por outras razões.

Para a pergunta se eu tive algum tipo de educação sexual, minha resposta é não. Ninguém nunca me explicou essas coisas.

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Quanto a namoradas, não as tive. Eu era muito tímido, tanto nesse quanto em outros campos do relacionamento humano. Razão disso, ninguém nunca “partiu meu coração”.

*

Como conheci sua avó!

Não foi amor à primeira vista. Eu havia concluído o segundo grau, no Colégio Sólon de Lucena, onde estudei junto com uma moça, na mesma sala, durante três anos. Essa moça, por alguma razão, gostava de mim e me dava atenção e carinho fraternal, sem qualquer vislumbre de relacionamento amoroso. Eu frequentava a casa dessa moça, aonde ia geralmente para almoçar, merendar, estudar, e outras atividades de lazer. Era muito bem recebido por ela e pela sua família.

Foi lá que vi sua avó pela primeira vez. Ela era muito amiga dessa minha amiga, numa relação bastante antiga. Fui apresentado àquela moça e, a partir de então, nasceu um relacionamento que resultou no nosso casamento.

Sua avó, ao contrário de mim, sempre foi muito extrovertida, comunicativa, espargindo simpatia por onde passava. Eu nunca havia me relacionado com alguém igual, e isso foi o que mais gostei nela.

O dia do nosso casamento foi um dia muito especial para mim. Foi um acontecimento com o qual eu jamais poderia sequer sonhar.

Na oportunidade, eu tinha acabado de arranjar um emprego de auxiliar de escritório na empresa que pertencia a um grupo familiar muito respeitável e considerada no mundo dos negócios, aqui em Manaus, os Hauache de quem já falei. Nesse emprego eu ganhava um salário-mínimo, que muito mal dava para sustentar a mim e à minha irmã Ivany, que havia vindo recentemente do interior. Mas ela, sua avó, era filha de uma viúva, negra, com seis filhos para criar, sem recursos financeiros, restando-lhe uma solução: entregar as filhas mais novas a famílias ricas de Manaus, ou para cria-las ou para telas como empregadas domésticas.

Sua avó foi entregue à família rica de um médico oftalmologista, que morava na área mais nobre da cidade, onde foi recebida e tratada como filha. Foi essa família que custeou todo o nosso casamento, desde o enxoval.

Daí, no dia do casamento, parecia estar casando um nobre. Mas era eu. Sem um miserável tostão no bolso.

Faz mais de cinquenta anos daquele dia, e, por essa e outras razões aqui não mencionadas, nos mantemos juntos esse tempo todo.

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Meu neto pergunta qual é o teu melhor conselho para manter uma relação saudável. Eu respondo com a autoridade de um observador da vida de há muitos anos: manter uma relação saudável, seja no âmbito familiar, social, ou de qualquer outra natureza, é preciso aprender a renunciar. Não apenas uma das partes, mas ambas devem aprender a renunciar ou a uma opinião, ou a um objeto que não pode atender a dois reclamos, ou a um alimento que é da sua preferência, mas não é da preferência da outra parte, devemos renunciar ao nosso prazer em favor da outra pessoa. Mas isso se aplica a ambas as partes.

Num relacionamento devemos evitar conflitos de qualquer natureza.

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Quanto ao querer ter um filho, na verdade eu sempre quis uma família.

Quando morava com meus pais lá no interior, eu ficava imaginando como seria minha casa. Na minha fantasia, ela deveria ser ali mesmo, perto da casa dos meus pais, de forma que eu lhes pudesse dar assistência quando necessitassem. Essa assistência seria em forma de lhes fornecer peixes, quando meu pai não pudesse mais pescar, fornecer lenha para o fogão, abastecer de água a casa deles, quando nada mais dessas coisas eles pudessem fazer.

Minha casa seria igual à dos meus pais, só que coberta de alumínio e cercada de taboas. Dividida em três ambientes, o primeiro servindo de sala, o segundo servindo de quarto para as crianças – não tinha ideia de quantos filhos, mas como em todo interior, não seria menos de seis – e o terceiro espaço seria o quarto do casal.

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De modo geral os jovens são inconsequentes. Eu fui um deles.

No ano seguinte que conheci sua avó, ela foi trabalhar como professora em um município muito distante, Pauini, no alto rio Purus, onde não havia sequer telefone para nos comunicarmos. Nossa comunicação era através de um sistema de rádio, com tempo determinado pelas condições climáticas.

Durante a semana, eu falava com ela apenas alguns minutos aos sábados, entre as sete e oito horas da manhã.

Ela ficou por lá durante um ano e meio. No primeiro ano ela engravidou durante as férias escolares do fim do ano, e teve que abdicar do trabalho e voltar para Manaus, onde resolvemos casar enquanto esperávamos nossa filha.

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Sua mãe, que é minha filha, era uma criança linda, ativa, desbravadora.

Na primeira viagem que fizemos ao interior onde minha avó morava, ela fez a alegria e a felicidade de todos os meus parentes. Enquanto sua avó queria protegê-la dos insetos e vermes da terra, meus parentes interioranos queriam que andasse descalça e nua, mas o máximo que a mãe permitia era de calcinha e sapatos com meias.

A mesma coisa se repetiu com meu filho, quando o levei pela primeira vez ao beiradão.



 

*

Meu neto pergunta se a educação que dei aos meus filhos foi diferente da educação que recebi. A resposta é sim.

Conforme já escrevi antes, fui criado no beiradão do rio Amazonas, onde o isolamento abrangia tudo, desde vizinhos a escola, comércio e outras atividades que normalmente acontecem na cidade. Ao contrário, meus filhos foram criados na cidade, onde incorporaram saberes, educação, sociabilidade e tudo o mais de uma sociedade moderna, já quando crianças. Frequentaram clubes sociais que sequer eu imaginava existirem, estudaram nas melhores escolas particulares, tiveram as melhores roupas e calçados, além dos brinquedos de variadas natureza e tipo, como velocípedes, bicicletas, e tudo o mais que quando menino eu nem sabia que existiam.

Creio que a maior diferença foi a educação. A minha, foi aquela que meus pais podiam dar, ou seja, a educação para a sobrevivência no mundo inóspito do beiradão; por outro lado, meus filhos receberam fina educação, conquistada pelos pais ao longo de vários anos de sofrimentos e observação das coisas de uma sociedade moderna.

*

Gostei muito de ser pai. Nada achei difícil. Talvez não tenha sido um pai ideal para o conceito de pai que tenho hoje. Mas, mesmo assim, criei meus filhos com muito amor, e cada dia que passa esse amor paterno aumenta, e com ele a preocupação da minha ausência num futuro já não tão distante.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 - SOBRE SER AVÔ

 

 

 

Quando tive meu primeiro neto, você, eu já estava com mais de sessenta anos de idade. Lembro perfeitamente daquele dia. Foi na Beneficente Portuguesa, um hospital tradicional que fica no centro de Manaus.

Quem primeiro soube da notícia de que meu primeiro neto estava chegando foi sua avó, em chamada telefônica. Saímos correndo para o hospital, para aguardar o nascimento daquele menino.

Quando o vi pela primeira vez, ainda nos braços da enfermeira, indo para o asseio, e em seguida para os braços da mãe, senti uma alegria muito grande, e uma felicidade ainda maior.

Ter um neto é como ter um filho, só que elevado à segunda potência. Não dá para explicar. A diferença entre ter num neto e ter um filho reside no fato de que o filho foi você que o gerou; foi você que o alimentou; foi você que o educou. Ele é pedaço seu, carne da sua carne, sangue do seu sangue. O neto, é tudo isso através daquela carne provinda da sua carne, daquele sangue provindo do seu sangue. Então é por duas vezes seu filho, e é assim que penso sobre meus netos; e é assim que os amo; e é assim que espero continuar até o último folego do meu existir.

*

Não conheci nenhum dos meus avôs. Não tenho como dizer se havia alguma diferença entre nós exercendo na vida esse papel, ou se existiam coisas em comum.

Agora do que mais gostei de ser avô, foi ser avô. Não existe momento mais prazeroso do que aquele em que estou com meu neto. Especialmente quando todos os netos estão juntos. É uma alegria imensa. É uma felicidade indescritível.

Sobre o melhor conselho que posso dar para educar um filho, o mais apropriado é recomendar longas conversas entre os pais e o filho, citando exemplos. Mas não basta conversar. Os pais têm que ser o exemplo vivo de uma vida de paz, harmonia, concórdia, e sobretudo, sociabilidade e preocupação com os menos afortunados, quer de valores financeiros. quer de valores sociais. quer de valores espirituais.

Os caminhos da vida são muito tortuosos, cheios dez espinhos, e, para percorrê-los, precisamos do apoio, do respeito e da consideração daqueles que chegaram mais cedo aos seus destinos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

III

FALA-ME SOBRE OS TEUS PASSATEMPOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SOBRE O QUE GOSTAS DE FAZER

 

 

 

O que eu gostava de fazer!

Já mencionei antes que quando menino eu morava com meus pais no beiradão do rio Amazonas. Umas das minhas atividades de lazer era observar peixes no seu habitat. Peixes e quelônios.

Na época apropriada do verão, quando o rio estava com pouca água, os lagos também esvaziavam, e ficavam com pouca água. Há uma distância de aproximadamente dois a três quilômetros ficava o lago “Tracajazinho”.

Era um lago pequeno, quando comparado com o lago “Taboca”, que ficava a uns cem metros distante da casa onde morávamos. Logo depois do almoço, lavada a louça, eu saía de mansinho no rumo do lago “Tracajazinho”, onde subia numa árvore e me acomodava em um dos seus galhos para observar os peixes e os tracajás[7] flutuando nas águas límpidas do lago. Eu passava horas naquele mundo contemplativo.

Depois, já adulto e morando na cidade, a falta de recursos financeiros me impediam de buscar o lazer das festas e das manhãs dançantes que esse mundo oferecia à juventude de então.

Mais tarde veio o casamento, com filhos faculdade e trabalho, e o lazer se resumia em, aos domingos, reunir toda a família no meu fusca velho, e ir à procura de um balneário qualquer, para alegria das crianças.

Agora, já com oitenta anos, me restou o prazer de registrar minhas memórias em escritos como este.

*

Meu neto pergunta: Qual é o teu lugar preferido para viajar? Por que que esse lugar é tão especial?

 

Quando adolescente, minhas viagens tinham um único destino: a casa da minha avó Maroca. Esse era, e ainda é atualmente, o meu lugar preferido para viajar. Preferido porque esse lugar me remete ao passado de criança e adolescente. Era lá que eu subia nos açaizeiros, nos cacaueiros, em outras árvores frutíferas, para apanhá-las, comê-las ou fazer sucos; era lá que eu encontrava outras crianças para brincar; era lá que encontrava com meus tios e tias, meus ídolos de criança e adolescente.

Depois dessa fase, só viajei a trabalho, depois de adulto.

Não eram viagens de lazer, ou para conhecer lugares distantes. Eram viagens curtas ao interior do Estado, a serviço do sistema de Controle Externo exercido pela instituição em que eu trabalhava, sobre autoridades municipais responsáveis por administrações públicas municipais. Entretanto, embora não representasse viagens de lazer, nelas fiz muitos amigos.

Muito tempo depois, fiz minha primeira viagem de lazer, atravessando o oceano atlântico em direção à Europa, Ásia e África. Meu lazer, no caso, era visitar paragens históricas, como as Pirâmides do Egito, os templos dedicados aos deuses gregos, o lago Ness na Escócia etc., essas coisas de interesse da cultura. Desses lugares, dois calaram mais profundamente em mim:  Jerusalém antiga, pelo simbolismo histórico do povo judeu e do cristianismo, e Grécia, também em razão do simbolismo histórico que esse país representa para a sociedade moderna.

São lugares que acho que toda gente deveria conhecer.

*

Meu neto pergunta se meu gosto musical mudou com o passar dos anos, quais músicas eu ouvia quando era novo e quais músicas ouço agora. Evidente que meu gosto musical mudou. Mas não tanto.

Quando eu era adolescente, fiz minha primeira viagem para a cidade, onde meu pai me mandou para estudar. Na casa da professora com quem fui morar, tinha um rádio, que, à falta de opções de lazer para um menino de doze anos de idade, ouvir os cantores da época era o que de melhor existia. Foi ali que me iniciei no mundo da nostalgia, ouvindo Nelson Gonçalves, Adelino Moreira, Ângela Maria, e outros de décadas anteriores. Eram canções que falavam de amor, noites de luar, solidão, serenatas, traições...

Depois, veio a bossa nova, um movimento musical que abalou os anos sessenta.

Hoje continuo ouvido essas músicas porque, penso, as atuais, com raras exceções, são insuportáveis para mim.

*

Meu neto pergunta: Tens algum passatempo? Qual?

 

Não tenho passatempo. Meu tempo eu passo lendo ou fazendo anotações sobre meu passado, minha vida de interiorano, minha vida de estudante etc.

 

Meu neto pergunta: Praticas algum desporto? Também praticavas esse desporto quando eras mais novo?

 

Não. Não pratico e nunca pratiquei qualquer tipo de desporto. Isso porque, quando adolescente, ficava muito cansado quando brincava de correr (principalmente “pira” ou “manja”), ou quando tentava jogar futebol. Hoje sei que esse cansaço que me acompanha desde criança nada mais é do que uma doença congênita e hereditária que acometeu meus antecedentes da parte do meu pai: o enfisema pulmonar. Só descobri que possuía essa doença quando começou aparecer os primeiros sintomas do problema coronário que me levou a implantar marca-passo.

Hoje, qualquer esforço físico que faço representa cansaço infindo, razão de não me permitir mais a prática de qualquer desporto.

Quanto ao futebol, é um esporte que gosto muito de assistir aos jogos, principalmente do meu Botafogo e da Seleção Brasileira. Já trabalhos manuais, não tenho habilidade para fazê-los.

*

Tinha uma coisa com a qual eu não me importava de acordar no meio da noite: viajar para a casa da vovó Maroca. Era uma viagem longa, de canoa movida a remo.

Lá por uma ou duas horas da manhã meu pai nos fazia sair da rede onde dormíamos, para tomarmos um cafezinho, e começar a viagem. Meu pai se sentava no banco da frente da canoa, de onde fazia as fundamentais remadas para fazê-la deslizar lentamente contra a correnteza daquele rio caudaloso; eu me sentava na popa, com a responsabilidade de guiar a embarcação, desviando-a dos obstáculos que desciam o rio, tipo capim, pedaços de pau etc.; meu irmão mais novo, o Carlos, sentava-se no banco imediatamente atras do meu pai, de onde também remava; minha mãe e meus irmãos mais novos se sentavam no banco do meio da canoa, e eram protegidos de chuvas e ventos por uma espécie de toldo de palha tecida, conhecida no beiradão por “japá”.  E lá íamos nós rumo à casa da vovó, aonde chegávamos lá pelas sete horas da manhã.

*

Meus livros preferidos? Poliana; O Pequeno Príncipe; Iracema, a Virgem dos Lábios de Mel; Dom Miguel de Cervantes; Os Miseráveis. Existem outros, mas esses são os meus preferidos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

IV

FALA-ME SOBRE A PESSOA EM QUE TE TORNASTE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1 - SOBRE AS TUAS MEMÓRIAS

 

 

 

Meu neto pergunta quais acontecimentos influenciaram na minha vida. Ao que lembro, enquanto jovem um acontecimento histórico impactou a vida de muita gente: aquele que ficou conhecido como a “Revolução de 1964”. Na verdade, esse foi um movimento político-militar que, acredito, teve como objetivo evitar que o sistema de governo socialista se apoderasse da nação e levasse nosso sistema de governo republicano brasileiro para um sistema defendido pela União Soviética: o comunismo.

O movimento político-militar de 1964 no Brasil — chamado por seus apoiadores de “Revolução de 1964” e por seus críticos de “Golpe Militar de 1964” — levou à deposição do presidente João Goulart e à instalação de um regime comandado por generais das Forças Armadas, que durou até 1985.

A interpretação desse período continua profundamente dividida na sociedade brasileira. Historicamente, é importante analisar tanto os argumentos favoráveis quanto as críticas estruturais ao regime.

No meu caso, esse movimento não influenciou em nada a minha vida. Eu estava com dezenove anos de idade, estudante interno de colégio de iniciação agrícola, e, por isso mesmo, não participei de nenhuma atividade violenta ou não em apoio ou contra o movimento, desde o início no ano de 1964 até ao final no ano de 1988.

*

Se tive sonhos que se tornaram realidade? Sim. Tive um sonho que se tornou realidade, e sobre ele já falei alhures: trazer meus pais o beiradão e lhes dar na cidade uma velhice digna. Foi isso que fiz enquanto jovem. Hoje já não tenho grandes sonhos que não estejam relacionados com concluir meus escritos, tal como este, antes que o fôlego da vida me abandone.

Nesse ínterim, tive perdas e conquistas. Perdas, aquelas relacionadas com as vidas das pessoas que muito amei, como meus pais, meus avó meus tios, primos queridos que também já se foram. Minhas conquistas, a maior de toas elas foi ter podido sair do interior amazonense e conquistar um espaço no meio da sociedade citadina, onde só os fortes vencem. E eu venci. E não foi nada fácil. Tive que pagar um preço para isso: o preço da fome, do quase relento, da falta da proteção dos meus pais (não porque eles me abandonaram, mas porque eles nada podiam fazer para evitar esses sofrimentos). Então eu sou forte. Hoje já não tenho mais nada em mente para conquistar.

*

Conheceste alguma pessoa famosa? Quem? O que achaste dela?

Minha Resposta:

 

Se essa pergunta se relaciona com pessoas do mundo artístico, ou do mundo político, a resposta é não. Pessoas famosas que conheci pertenciam à família Hauache, do mundo empresarial, à qual já me reportei.

 

Meu neto pergunta: Que lição de vida gostarias de me transmitir?

Minha Resposta:

 

Não sei se tenho alguma lição de vida para transmitir para você, meu querido neto. Se essa lição existe, ela está contida nestes escritos, em que conto parte da história da minha vida, das minhas origens e das minhas conquistas.

Talvez nossas realidades de jovens tenham sido tão diferentes que seria mais útil aprender lições com o outro seu avô, que conquistou fortunas caminhando pelo empreendedorismo, mundo esse que não conheço e com o qual não tive nenhuma experiência.

 

Meu neto pergunta: Quais foram os acontecimentos mais marcantes da tua vida?

Minha Resposta:

 

Os acontecimentos marcantes da minha vida foram pequenos momentos vividos na simplicidade da vida interiorana. Por exemplo, marcou muito em mim o acidente que meu pai sofreu num certo Natal, enquanto ele providenciava lenha para que minha mãe pudesse fazer o almoço.

Outro, foi um acidente de trabalho, quando, enquanto colhia cacau no meio do cacaual inundado pelas águas crescente do rio, uma arraia ferroou a perna do meu pai; estavam só ele e eu, eu uma criança de uns oito anos mais ou menos, e fiquei aterrorizado com o grande sofrimento que o esporão daquele animal causou ao meu pai. Estávamos muito distantes de casa ou de vizinhos, e ele, para aliviar a dor, fez um suco de folhas de capim Canarana, e o bebeu. Mas a dor era tamanha, que ele gemia, e chorava, enquanto remávamos para retornar à nossa casa.

Foram dias de sofrimento, sem poder trabalhar, sem assistência médica ou medicamentosa, com minha mãe, sempre por perto, fazendo chás e remédios caseiros para amenizar o sofrimento do meu pai.

 

Meu neto pergunta: De que altura da tua vida tens mais saudades?

Minha Resposta:

 

Sinto saudade de tudo o que se relaciona com o meu passado. O ontem, para mim, já é um passado que deixou saudade, porque sei que o que aconteceu ou que deixou de acontecer causando alegria ou tristeza, não vai mais ser nem deixar e ser. Tenho saudade da minha infância, da minha juventude, porque hoje enquanto lembro daqueles dias, penso que poderia ter brincado mais, ter vivido mais, ter aproveitado mais aqueles momentos. Tenho saudade dos meus filhos quando crianças, porque as circunstâncias da vida não permitiram folguedos que hoje invejo em alguns pais que brincam com seus filhos.

 

Meu neto pergunta: Quais foram as melhores decisões que tomaste na vida?

Minha Resposta:

 

Todas as decisões que tomei na minha vida, foram bem pensadas. Não tenho por que me arrepender de nenhuma delas. Por exemplo, constituir uma família foi uma decisão acertada porque, no período em que aconteceu, foi de uma transição muito relevante. Havia acabado de concluir o Segundo Grau e já me encontrava sob a proteção da família Hauache, mas só quanto a trabalho e um salário que só era bastante para meu sustento. Meus pais, eu os havia acabado de trazer do interior e os acomodado numa casa muito humilde que me fora cedida pela família Hauache.

Meus irmãos, todos ainda em busca de alguma oportunidade para trabalhar e/ou estudar.

Eu precisava de uma família para realizar o sonho de adolescente, que era construir meu futuro baseado em valores herdados dos meus pais, e que, juntos, pudéssemos construir esse futuro.

Foi então que conheci a mulher com quem me casei.  E só fiz isso porque senti que ela, também de família muito humilde, já sofrera dissabores na sua vida sentimental e estava à procura de oportunidade para, talvez, corrigir erros do seu passado recente.

Minha decisão de casar considerou todos esses aspectos e, razão disso, me sinto como o esteio central de uma casa do interior, que sustenta toda a estrutura familiar, sem deixar de lado pedidos de socorro que ouço de vez em quando. 

*

Quanto ao qual foi o dia mais feliz da minha vida, é muito difícil responder.

Certamente esse dia está relacionado com algum momento da minha vida enquanto morador do beiradão, ou seja, enquanto ainda menino ou adolescente. Quando sai do beiradão para estudar na cidade, passei muitos dias de profunda tristeza e sofrimento, porque eu estava ligado por laços fortes tanto com meus pais quanto com meus irmãos. Por isso, sofri. Quando voltei pela primeira vez para revê-los, a felicidade foi tamanha que eu já não queria mais sair de casa e deixar meus pais e meus irmãos. Só que eu não tinha o comando da minha vida, e era obrigado a obedecer a eles, meus pais, que, apesar dos sofrimentos decorrentes dessa separação, pensavam no meu futuro e essa era a única maneira que eles conheciam para me encaminhar na vida.

Não posso esquecer, também, o dia do nascimento da minha filha, primeiro fruto da nova etapa da minha vida, começada com o casamento. Foi muita felicidade segurar aquele ser pequenino nos meus braços, e saber que era um pedacinho de mim. Também não posso esquecer o nascimento do meu primeiro neto, que me fez reviver toda a alegria e felicidade do nascimento da minha filha.

*

Ah, se eu tivesse uma segunda oportunidade. Nessa viagem no tempo, com certeza eu retornaria ao meu beiradão dos tempos de menino, para caçar passarinhos, flechar lagartos, remar pelos igapós, andar pelas matas e capoeiras, subir o rio remando contra a correnteza ao final da tarde, só para ver a lua surgir no horizonte à noitinha, por detrás de árvores gigantes... Eram momentos em que a poesia se materializava em mim, mesmo sem eu ter ainda noção do significado de tudo isso.

*

Por essa razão, me sinto muito agradecido ao meu pai, aquele homem rústico do beiradão que teve sensibilidade romântica suficiente para enxergar em mim um menino diferente dos demais meninos no beiradão, e mesmo ao custo do seu sofrimento e do sofrimento da minha mãe, me mandou para longe deles com o objetivo explícito de preparar-me para juma vida nova em ambiente novo. É claro que outras pessoas participaram da minha odisseia, mas foram meus pais os de maior significância. Por isso, agradeço a eles por tudo em que me tornei.

*

Durante essa caminhada, muitas pessoas me ofereceram ajuda, quer materialmente quer espiritualmente, quer culturalmente. Mas o senhor Khaled Ahmed Hauache foi aquele que me pegou pelo braço e foi me mostrando caminhos, me mostrando perigos, me fazendo compreender como encontrar soluções para problemas de diversas naturezas. Até mesmo questões técnicas que eu imaginava ser eu capaz de resolvê-los à minha maneira, tipo como escrever uma Ata de Assembleia Geral, ele me mostrou a forma prática de fazê-lo sem prejuízo para a estética, para o conteúdo e para a economia financeira.

Khaled Ahmed Hauache foi um grande homem, independentemente de sua condição de grande empreendedor.

*

Não tenho como comparar a pessoa que fui com a pessoa que me tornei e sou hoje. Meu passado, posso dividir em três pedaços: 1) Curumim do beiradão, 2) Estudante trabalhador, e 3) Pai de família.

Como curumim do beiradão, vivi minha vida sonhando com um futuro que nem eu mesmo conseguia definir. Por exemplo, lembro que enquanto viajava da casa da minha avó Maroca para a casa dos meus pais, eu ia fazendo mentalmente longos discursos sobre os mais diversos assuntos, entre eles um relacionado com o primeiro discurso que pronunciei por ocasião de um evento eleitoral, mais ou menos com estas palavras escritas pelo meu tio Sidoca (Isidório Beckman Nogueira)

Senhores,

Serão muito breves minhas palavras. Apenas para abordar superficialmente uma parte pertencente aos nossos candidatos do Partido Trabalhista Brasileiro.

Nós, do PTB, acabamos de assistir a um drama vivido pelo povo ribeirinho, que foi a cheia do rio Amazonas no ano de 1953, quando muitos de nós perdemos nossa produção.

Se eleitos, nossos candidatos nos fornecerão recursos financeiros para evitar prejuízos como aqueles que tivermos que suportar no ano de 1953...

Eu tinha apenas dez anos de idade. Já não lembro mais do inteiro teor do discurso que pronunciei. Mas lembro que era a campanha política para a eleição do novo Governador, em 1956, quando Plínio Coelho, do PTB, foi eleito em substituição a Álvaro Maia. Lembro também que depois dessa noite (era uma noite de festa) as pessoas me pediam para eu discursar sobre o assunto. Lembro que Antonio Holanda queria que fizesse um discurso de apoio do candidato do PSD, partido de oposição do PTB, elogiando ao candidato apoiado por ele, mas eu não concordei com isso.

Na categoria de Estudante Trabalhador, foi quando mais eu sofri. Sofri pela falta de recursos financeiros para comprar livros ou pagar pela alimentação. Lembro que eu estava recém-admitido no meu primeiro emprego, onde chegava às sete horas da manhã sem tomar café, e ia para a primeira jornada de trabalho que se encerrava ao meio-dia, quando saída daquele escritório e me dirigia para um pequeno restaurante no “Beco do Céu”, por detrás do Colégio Dom Bosco, onde ia fazer minha primeira e única refeição do dia, com conta “pendurada” para pagar ao final da semana, e ainda agradecer a Deus por isso ser possível.

 

Meu neto pergunta qual é a maior diferença entre a pessoa que eu era e aquela que sou hoje.

Sinceramente não sei identificar a diferença.

É que sob certos aspectos ainda me sindo criança, sob outros ainda sou adolescente, como grande maioria das pessoas, creio. Mesmo com a idade avançada que estou, às vezes me encontro lembrando (eu considero sonhando) com coisas da minha infância, coisas simples, mas que me remetem a um mundo de saudades do meu beiradão. Outras vezes estou caminhando pela estradinha de Outeiro de Icoaraci, em Belém, na Escola onde fui interno durante minha adolescência; ou, descendo o grande rio durante a noitinha para contemplar a lua nova saindo por detrás das águas. Enfim, sonhando como é próprio dos sonhadores.

2 - SOBRE OS TEUS PENSAMETOS, SONHOS E DESEJOS

 

 

 

Meu neto pergunta: Na tua opinião, quais são as coisas mais importantes da vida?

Minha Resposta:

 

Penso que a saúde é a coisa mais importante da vida da gente, principalmente na idade adulta e muito particularmente na velhice.

 

Meu neto pergunta: Gostas da tua casa? Qual é o teu cantinho preferido?

Minha Resposta:

 

Adoro minha casa. Meu cantinho preferido é o meu quarto, onde passo grande parte do meu tempo, ou lendo, descansando ou dormindo.

 

Meu neto pergunta: Que pessoas são, para ti, fonte de inspiração? Por quê?

Minha Resposta:

 

Quando era jovem, pessoas me inspiravam, principalmente aquelas que ousavam e venciam as dificuldades da vida. Eu também queria ser ousado. Mas minha ousadia foi limitada a conquistar um espaço na vida através dos estudos, uma vez que desde muito cedo percebi que não possuía habilidades para o empreendedorismo empresarial.

 

Meu neto pergunta: Há alguma pessoa famosa que admires? Por quê?

Minha Resposta:

 

Quando muito jovem, eu admirava pessoas famosas, principalmente artistas e políticos. Mas a idade foi avançando e as coisas foram se esclarecendo para mim. Hoje percebo que tudo nas pessoas depende de um fator preponderante: o querer. Se eu quero uma coisa, eu a consigo, vencendo todas as dificuldades que se me apresentam para sua conquista.

 

Meu neto pergunta: Que dias do ano são mais especiais para ti? O que gostas de fazer nesses dias?

Minha Resposta:

 

Todos os dias do ano são especiais. Houve uma época que eu destacava os dias de ano novo, Natal, e outros dias santificados. O dia de Natal era muito especial porque lembrava, e ainda lembra, o acidente com meu pai, quando foi coartar lenha para minha mãe preparar o almoço, quando ele cortou o pé.

 

Meu neto pergunta: Que tradições fazes questão de manter?

Minha Resposta:

 

Faço questão de manter uma tradição da minha família, imposta pelo meu pai, quando morávamos no beiradão.

Com já registrei antes, morávamos isolados, longe de vizinhos e parentes, onde dificilmente aparecia visitas, salvo aquelas pessoas que vinham se aconselhar com meu pai acerca de qualquer assunto que essas pessoas imaginavam que meu pai poderia aconselhar.

Geralmente essas pessoas chegavam nas manhãs de domingo. Sem avisar, e meu pai não permitia que saíssem de casa antes do almoço. E isso acontecia com quaisquer pessoas que chegasse em casa em qualquer dia e hora.

Essa tradição eu a mantenho.

Minha mesa é farta e nela se alimentam tantas pessoas quantas estiverem em visita à casa nos horários próximos às refeições.

 

Meu neto pergunta: O que significa, para ti, felicidade?  Pensaste sempre dessa maneira?

Minha Resposta:

 

Felicidade é um estado de espírito vinculado à saúde e ao bem-estar. Há tempos eu pensava que ser feliz era estar junto da pessoa amada, mas descobri que não é bem assim. De que me adianta estar junto da pessoa amada se a doença prejudica minha qualidade de vida?

 

Meu neto pergunta: Quais são as tuas maiores qualidades?

Minha Resposta:

 

Acho que minha melhor qualidade conquistei na convivência com pessoas educadas. Geralmente essas pessoas são bondosas, e eu me acho incluso nesse contexto, embora meu gênio seja um pouco exacerbado quando provocado.

 

 

 

 

Meu neto pergunta: O que mudarias em ti mesmo?

Minha Resposta:

 

Não mudaria nada.

 

Meu neto pergunta: Há alguma coisa que ainda gostarias de aprender?

Minha Resposta:

 

Gostaria de aprender tocar violão. Também gostaria de aprender a falar línguas estrangeiras, inclusive inglês e francês.

 

Meu neto pergunta: Qual é a melhor parte de envelhecer?

Minha Resposta:

 

É quando os netos começam a chegar, e a gente volta a ser criança

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

V

AGORA FALA-ME SOBRE NÓS OS DOIS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SOBRE MIM

 

 

 

Meu neto pergunta: Vês alguns traços familiares em mim?

Minha Resposta:

 

Sim. Vejo traços físicos familiares, entre eles os pés.

 

Meu neto pergunta: Achas que temos semelhanças? Que aspectos tu reconheces em mim?

Minha Resposta:

 

Reconheço o aspecto físico. Eu era muito frágil de saúde e magro quando adolescente, e até mesmo depois de casado.

 

Meu neto pergunta: Que momentos gostarias de reviver comigo?

Minha Resposta:

 

Junto com a Anna Esther, tomar banho na bacia, colocada no pátio da casa da vovó e eu deitado no chão.


 

Meu neto pergunta: Que coisas gostarias de fazer comigo?

Minha Resposta:

 

Gostaria de fazer as coisas que eu fazia quando adolescente, como por exemplo pescar.

 


[1] CURUMIM – Aportuguesamento de “Curumi”, do Pequeno Vocabulário Tupi-português.

[2] BEIRADÃO – Margens do grande rio Amazonas, onde o caboclo constrói suas moradias, em forma de palafita.

[3] EIXO – Foi como ficou conhecido o grupo de três principais países que se juntaram: Alemanha, Itália e Japão. Esses países tinham mais ou menos os mesmos objetivos: conquista de territórios, imposição das ideologias nazista (Alemanha), fascista (Itália) e imperial (Japão).

[4] GAMELA - Tigela muito grande, em geral de madeira ou barro, usada para dar comida aos porcos, e que serve para banhos, lavagens etc.

[5] “SALGA DO PIRARUCU” – Época da seca, ou vazante, dos rios, quando os lagos também ficavam com pouca água e os peixes, entre eles o pirarucu, abundavam. Os ribeirinhos aproveitavam esse período para a pesca desse peixe, salgavam e secavam sua carne ao sol, para venda. Isso constituía uma fonte de renda para eles.

[6] Itapará (PR). De itá + pará: rio das pedras., segundo o Dicionário Tupi Antigo, Global Editora, SP, 2013.

[7] Tracajá é uma variedade de quelônio, abundante nos lagos de várzea da região amazônica. Muito ariscos, mas de carne saborosa, os tracajás só eram capturados em pescarias conhecidas como “batição”, que ocorriam nos meses de setembro até novembro. As “batições” eram realizadas em lagoas que ainda continham um pouco de água sob o capinzal de membeca, e consistiam em textualmente procurar os animais no “solapo”, uma mistura de capim, água, lama e raízes de árvores mortas, de cheiro muito forte. Armado com uma vara fina, de aproximadamente dois metros de comprimento, o pescador ia enfiando a vara no solapo, até que ela colidisse com o casco do tracajá, ocasião em que o pescador caía em cima e buscava o quelônio com suas mãos, sem qualquer proteção, agarrar e trazê-lo para a margem do lago, onde era amarrado para servir de almoço no próximo domingo.

 
 
 

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