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11 - ANTONIO TUPINAMBÁ MELO NOGUEIRA

  • Foto do escritor: Antônio Tupinambá
    Antônio Tupinambá
  • 4 de ago. de 2025
  • 9 min de leitura

Atualizado: 20 de nov. de 2025



AUTOBIOGRAFIA

 

 

A minha história de vida profana começou no dia três de outubro do ano de mil novecentos e quarenta e cinco, quando vi a luz pela primeira vez, trazido das entranhas de minha mãe pelas mãos da parteira Honorina. Tudo bem, se esse fato tivesse acontecido na maternidade de uma cidade qualquer deste mundo de meu Deus. Mas, não! Foi lá no beiradão desse rio Amazonas, cobiça das nações estrangeiras! Ou melhor, foi no meio desse rio, na Ilha Grande do Soriano, uma terra de aluvião depositada por séculos pelas “terras caídas” desse que é o maior rio do mundo, quase em frente à desembocadura do Rio Madeira, no município de Itacoatiara.

Naquele lugar, meus ancestrais portugueses cultivavam uma “fazenda de cacau”, nos áureos tempos da presença dos jesuítas por aquela região. Há pouco mais de cinquenta anos, meu mundo estava circunscrito àquela ilha no meio do rio, e tinha como limite a costa do Itapará pela margem direita, e a costa da Conceição pela margem esquerda.

Sobre o meu pai, Dunga Nogueira, minha mais remota lembrança remete-me a duas crianças de idade muito tenra, minha prima Marion e eu, no colo dele, todos numa rede armada no canto da sala da casa que fora do meu avô materno, na Ilha Grande do Soriano, interior do Estado. Ele cantando para nós dois dormir enquanto mamãe, minha avó e outras mulheres, que imagino hoje terem sido minhas tias, preparavam o jantar.

Outra lembrança está relacionada com minhas primeiras tentativas de pescar. No período de cheia do rio, pelas gretas do soalho daquele casarão de madeira eu via peixinhos passarem nas águas e tentava pescá-los com anzol e linha que ele, meu pai, preparava para mim.

Essas duas lembranças traduzem a imagem de um homem cheio de amor e carinho pelas crianças, muito especialmente pelos seus filhos. É claro que alguém pode dizer que isso é muito natural nas pessoas. E realmente é. Só que tem um ingrediente fundamental: ainda não estávamos na metade do século passado, e ele era apenas um rústico homem do beiradão, analfabeto, sem qualquer influência que o rádio e a televisão (inexistentes naquelas paragens, à época) impõem ao interiorano de hoje.

Razão disso, seus sentimentos não eram manifestos, mas traduzidos em ações, desde as mais simples às mais grandiosas. Por exemplo, nunca o ouvi dizer “te amo” para ninguém, nem para mim nem para qualquer dos filhos, mesmo para a mulher amada, minha mãe. Entretanto, para esconder meu estrabismo hereditário, numa das raras oportunidades em que foi à cidade tratou de comprar óculos escuros e fazia questão que eu o usasse aos domingos, quando ele nos levava, a mim e ao meu irmão, ao jogo de futebol que sempre acontecia na outra margem do rio.

Muito antes, quando dos seus oito anos, ele e o pai dele, meu avô Bertholdo, retornavam de uma pescaria no Lago do Castanha, na Costa da Conceição, onde moravam, quando uma rajada de vento derrubou uma árvore que caiu sobre este último, deixando-o desmaiado, ao sabor da ainda hoje forte correnteza do igarapé Cainamãzinho, naquela época um lugar absolutamente desabitado. A luta daquele garoto para retirar o pai da água e colocá-lo no porão da canoa foi algo inexplicável em face de pouca idade e pouca força física que detinha. Mais ainda inexplicável foi conseguir remar contra a correnteza desde onde aconteceu o acidente, lá pelas duas horas da tarde, e vir chegar à sua casa lá para oito horas da noite, com o porão da canoa cheio de sangue e o pai desacordado. Ele nunca explicou como conseguiu aquele feito; as poucas coisas de que lembro foram contadas pela minha mãe, minha avó Maroca e minha tia Celina, já que meus tios também não comentavam esse assunto, inclusive porque, ou ainda não haviam nascido ou eram muito pequenos.

O caráter desse homem foi forjado na dureza da vida interiorana do primeiro quartel do século passado. Aos treze anos começou lutar pela sobrevivência dele, do pai (ainda com graves sequelas do acidente acima mencionado), da mãe e irmãos menores. Como era muito novo para enfrentar as aventuras do ciclo da borracha, muito bem reportadas por Álvaro Maia, restou-lhe a extração da balata, da sorva, da castanha, e outros produtos abundantes no rio Urubu. E foi p`ra lá que ele se dirigiu, sob o financiamento de Pedro Rubim (ou Rubinho), deixando todos seus familiares com a garantia de víveres até sua volta em data indefinida. Cada “fábrico” (período de coleta dos produtos) não demandava menos de seis meses, o tempo que ele passava longe da família, muitas vezes sozinho naquela imensidão de floresta, tendo que explorá-la para localizar cada árvore produtora do látex que buscava. Naquele período, entre os treze e os vinte e cinco anos de idade, foram muitas noites insones sob o fogo e o frio de malárias infindas; foram muitas dificuldades vencidas com igarapés transbordantes em rios quando de uma chuva mais forte, a levar-lhe o “rancho” do tapiri improvisado em casa; foram longos dias de absoluta solidão e incertezas em razão da perda da sua canoa num dos temporais que de ordinário caiam sobre aquela região, e aquela canoa era o único meio de transporte a garantir-lhe o retorno para o lar; foram muitos, muitos sofrimentos.

Foi pensando nisso, talvez, que ele nunca mediu esforços para que seus filhos estudassem; para que “fossem alguém na vida”; para que ele tivesse o prazer de exibir “um filho educado”. Esse era o Dunga Nogueira, meu pai, minha referência na vida.

Minha mãe, Esther de Melo Nogueira, conhecida como Dona Lita (1914-1996) e meu pai Antonio Nazaré Nogueira, conhecido como Dunga Nogueira (1918-2017), juntos tiveram oito filhos, sendo eu o mais velho. Meu pai, quando se casou com minha mãe, já tinha uma filha.

As primeiras letras, as conheci através da minha mãe, que as conheceu através do meu avô, português nato que, pelos idos do começo do Século XX, se apaixonou por uma índia que já arrastava pelas mãos um curumim de cerca de dez anos de idade quando se conheceram, possivelmente à sombra dos cacauais.

Minha mãe, senhora de finos traços que as intempéries da vida transformaram numa rústica e honrada interiorana, mais da lavoura do que das coisas do lar, hoje é residente na mansão etérea do Grande Arquiteto do Universo. Mulher de quase nenhum saber das letras e dos livros, era Mestra na arte de fabricar a argamassa da personalidade impoluta dos seus filhos, mesmo algumas vezes utilizando os instrumentos da psicologia interiorana à sua mão: o falatório causticante no meu entender de menino, a palmatória, o galho de cuieira, o cipó fino, a corda de rede, ou qualquer outro que lhe estivesse próximo e pudesse ser vibrado ou atirado contra nossos corpos, de formas a nos conduzir para o caminho do homem de “vergonha na cara”.

No beiradão desse Amazonas então insondável, onde o progresso passava ao largo, seu dia, que começava quando os galos amiudavam o canto na amplidão da madrugadinha, era ativo e produtivo, indo desde o preparar do cafezinho para “acordar o estômago” enquanto sua voz de soprano expulsava-nos (a mim e meus irmãos) da rede para o labor diário, passando pelo quebra-jejum, pelo aguar de suas plantas, pelo dar de comer às suas aves; nossa mestra das primeiras letras conseguia somar o bê-á-bá do ABC com o destro manipular da enxada, do terçado, do machado, tanto no preparo da terra quanto na colheita da sua plantação de milho, feijão, melancia, macaxeira, tudo para que no período da entressafra não faltasse alimentos para os seus filhos, a única forma que conhecia de manifestar seu grande amor maternal. Mas, ai daquele filho atrevido que lhe faltasse com o respeito; que ousasse entremeter-se em suas conversas com os mais velhos; levantar a voz para lhe responder “de atravessado”; de mentir...  Falar palavrão, então, que Deus se apiedasse do infeliz.

Essa era a MÃE ARTESÃ, forjadora dos princípios éticos que norteiam minha vida até os dias de hoje. Por trás dela, estava a MÃE AMOR, frágil nos momentos de aflição decorrentes de moléstias que se nos acometiam, de perigos que são próprios da vida interiorana, sejam de acidentes com animais peçonhentos, com instrumentos de trabalho, com a fúria dos ventos e temporais a fazer banzeiros trágicos para as nossas pequenas montarias. Nessas ocasiões só lhe restava rezar, clamar a Deus para proteger e trazer seus filhos sãos e salvos para o seu convívio. É a essa MÃE ARTESÃ que agradeço pelo que hoje sou; é do colo dessa MÃE AMOR que sinto saudades, a entalar-me com a emoção, a fazerem rolar lágrimas pelo meu rosto enquanto escrevo estas lembranças.

Menino pobre, com treze anos de idade, saído do interior com o objetivo de crescer na vida, angariar recursos para proteger meus pais e irmãos no futuro, fui acolhido por uma professora que me encaminhou por uma jornada escolar regular, até então desconhecida, e que me levou ao “Paredão”, a Escola de Iniciação Agrícola do Amazonas, que existiu até a sexta década do século passado, na condição de estudante interno da primeira parte do curso ginasial, nos anos de 1960-1962, e à Escola Agrícola Manoel Barata, em Belém do Pará, para conclusão do curso ginasial. O nome popularizado “Paredão” era, possivelmente, decorrente de um grande deslizamento de terras há muitas décadas, deixando como rastro uma grande parede de terra, muito íngreme, que na época em que lá estive, os curumins internos daquela instituição utilizavam no trajeto de brincadeiras que consistiam em subidas e descidas pelo barranco (na localidade, hoje, se encontra instalada a sede da Marinha do Brasil na Amazônia Ocidental). Para mim, provindo do beiradão desse rio Amazonas de muitas histórias, aquelas brincadeiras se traduziam em momentos de grande alegria. Eram como uma colônia de férias, quando comparados com o labor diário do menino do interior que, em vez de brinquedos tinha nas mãos um terçado (facão), uma enxada, um machado e outros instrumentos que utilizava para ajudar o pai nos trabalhos da agricultura de subsistência, lá naquelas paragens inóspitas que eram; ao invés de guloseimas em farturas nos supermercados de hoje, tinha à sua disposição caniços, espinheis e outros instrumentos de pesca.

Nos anos de 1967 a 1969, fiz o curso Técnico em Contabilidade, em Manaus, na Escola Comercial Solon de Lucena, impedido que fui de continuar os estudos na área de agronomia, pela falta de recursos para enfrentar as despesas necessárias. Concluí o bacharelado em Contabilidade no ano de 1980, e pós-graduação em Contabilidade Gerencial em 1982, na Universidade do Amazonas.

Em 1973 me casei com Raimunda Furtado Nogueira, e do enlace tivemos um casal de filhos, que me presentearam com duas netas e um neto. Me considero um avô “Coruja”. Consegui aproveitar a melhor fase de meus netos, a primeira infância (seis primeiros anos de vida). Nesse ínterim, me joguei no mundo deles, brinquei como nunca havia brincado na vida enquanto criança e adolescente.

MINHA VIDA FUNCIONAL

Iniciei minhas atividades laborais no ano de 1966, como auxiliar de escritório de uma empresa pertencente a um grupo familiar, liderada pela Indústria e Comercio Abdul Razac S/A., à época uma potência econômica, integrada, entre outras, pela Sociedade de Televisão Ajuricaba Ltda., que detinha a concessão da Rede Globo de Televisão. Nesse grupo permaneci como auxiliar de escritório, e depois como Contador, até meu ingresso no serviço público.  Enquanto funcionário público, admitido na Secretaria Estadual de Controle Interno mediante concurso, exerci o cargo de Técnico de Controle Interno. Disponibilizado para o então Conselho de Contas dos Municípios do estado do Amazonas, lá exerci o cargo de Técnico de Controle Externo, e, por fim, Auditor do Tribunal de Contas dos Municípios do Amazonas, até o dia 24 de fevereiro de 1994, quando fui aposentado. Posteriormente à aposentadoria, estive a serviço da   Prefeitura Municipal de Manaus, da Prefeitura Municipal de Itacoatiara (como Secretário Municipal de Finanças na gestão de 2009 a 2012, e Secretário Municipal de Governo, período de janeiro de 2017 a maio de 2018). Em paralelo, atuei em vários Municípios como Consultor e Assessor Técnico Especializado nas áreas de Contabilidade Pública e Orçamento, com ênfase para elaboração e controle dos orçamentos públicos – PPA, LDO e LOA.

MINHA VIDA MAÇÔNICA

Fui iniciado Aprendiz de Maçom no dia 4 de outubro de 1975, e exaltado a Metre Maçom no dia 2 de maio de 1977, tudo na então Maçonaria Glória do Ocidente, uma Ordem Maçônica tida no mundo maçônico como “espúria” pelas Ordens Maçônicas autodenominadas “regulares”. Nela, Maçonaria Glória do Ocidente, exerci todos os cargos litúrgico e administrativos, com exceção do cargo de Grão-Mestre. Em 19 de abril de 1990 fui “regularizado” e filiado à Loja Glória Sobre as Trevas, já obediente ao Grande Oriente do Brasil (a Loja Glória Sobre as Trevas foi uma das sete Lojas com que se constituiu a acima mencionada Maçonaria Glória do Ocidente).

No Grande Oriente do Brasil-Amazonas, fui designado Secretário e eleito Mestre da Loja Glória Sobre as Trevas por dois mandatos; eleito Deputado à Assembleia Legislativa e à Assembleia Federal Legislativa. No Estado do Amazonas, exerci os cargos de Secretário de Finanças, Secretário de Relações Exteriores, e nomeado para compor o Conselho Estadual da Ordem.

Mesmo sem ser poeta, contista, romancista, ou possuidor de quaisquer outras vocações relacionados com as letras e as artes, fui convidado a ingressar na Academia Amazonense Maçônica de Letras, onde fui empossado no dia 13 de dezembro de 2008, e, talvez em razão das minhas atividades laborais, fui eleito Tesoureiro por vários mandatos da sua Diretoria.

Esse, sou eu!

 

 

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