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3 - VINGANÇA DAS GAIVOTAS

  • Foto do escritor: Antônio Tupinambá
    Antônio Tupinambá
  • 12 de jun. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 20 de nov. de 2025


Antonio Tupinambá

AAML, Cad 40EM

08/09/2018

 


O dia amanheceu lindo!  Ensolarado! Convidativo para um passeio pela imensidão desse grande rio – alguém poderia chamar isso de um programa de índio. De pé à beira do barranco da Costa da Conceição, eu pensava em meu pai que ali nascera, e que se estivesse vivo estaria completando cem anos. Considerando que aquela paragem dista cerca de duzentos quilômetros de Manaus, onde os restos mortais do meu pai repousam, resolvi visitar a sepultura da minha mãe, lá no cemitério de São José do Amatari, um ajuntamento de ribeirinhos à margem esquerda do maior rio do mundo. Para isso, convidei meu confrade, Irmão e amigo Paulo Dantas da Silva, filósofo, teólogo, ex-seminarista, agostiniano do roxo, que de pronto aceitou o convite.  Embarcamos numa lancha razoavelmente veloz, a Hiram Habiff, sob o comando do Taquito, meu sobrinho querido, e lá fomos nós margeando aquele beiradão a uma velocidade de aproximadamente quarenta milhas por hora, tal como fiz muitas vezes há décadas passadas, só que em canoa movida à remo.

Fiz minha visita, me recolhi por um momento nas entranhas da minh’alma, buscando lembranças daquela que me deu à luz - interiorana com sangue português, traços finos, trato caboclo, a maior psicóloga do mundo, responsável pela formação do meu caráter mediante a utilização dos instrumentos de trabalho da psicologia que usava com maestria para esse mister:  o galho de cuieira, a palmatória, o cinto do meu pai, ou qualquer instrumento que pudesse ser arremessado sobre nós, seus filhos, quando de nossas peraltices de criança.

Concluída a visita, fomos conhecer um viveiro de pirarucu na propriedade de um amigo do Taquito, enquanto Paulo Dantas e eu conversávamos sobre aquele lugar que outrora, segundo o historiador Francisco Gomes, foi uma colônia agrícola que no final do Século 19 recebeu grande contingente de cearenses fugidos da seca do nordeste. E disso ainda hoje restam vestígios em forma de traçado de ruas e de loteamento de espaços.

Como ainda era cedo, resolvi estender a visita à minha prima Maria Aleluia, na Ilha Grande do Soriano, em frente ao Amatari.  Atravessamos a imensidão daquelas águas barrentas que mataram a sede da minha infância e juventude, superamos a Ilha Beija-Flor, fizemos uma rápida parada no Lago Taboca, Costa do Itapará (pedra torta, em Tupi-Guarani), onde por momentos me vi menino pescando nos igapós existentes à época. Passamos em frente ao lugar onde morei com meus pais desde os três anos de idade até minha saída definitiva dali, em busca do meu destino, já aos vinte e poucos anos de idade.  Mais uma vez, ao passar onde um dia foi a casa que meu pai construiu com suas próprias mãos, minhas lembranças me traíram e fizeram jorrar lágrimas dos meus olhos enquanto minha garganta era violentamente agredida por alguma coisa provinda da emoção. 

Sol quase a pino, chegamos à residência da minha prima, uma casa flutuante fundeada à margem do Amazonas, em frente à desembocadura do rio Autaz.

 


Ali trocamos presentes e amabilidades, falamos dos velhos tempos, abrimos o expediente das cervejas e dos uísques, e, depois do sol “dobrar” no zênite em sua caminhada para o entardecer, nos despedimos com as mais calorosas manifestações de carinho e apreço. Saímos com destino à Ilha da Benta, metade do caminho entre a Costa da Conceição e Itacoatiara, onde eu pretendia oferecer ao meu amigo Paulo Dantas uma noite diferente: colher ovos de gaivotas, cozinhá-los, comê-los, e dormir ali mesmo, na praia, ao relento, deitado na areia, ouvindo o canto dos pássaros noturnos e vendo, no dia seguinte, o sol despontar no horizonte. Paramos próximo à Boca do Padre (local de grande interesse para a arqueologia, nas proximidades do que restou da aldeia dos índios que habitaram aquele lugar (Miracãoéra) – ainda vou me inteirar do assunto com meu amigo historiador Frank Chaves - para o embarque de uma senhorinha de cerca de sessenta anos, parenta da esposa do Taquito.

Chegamos à praia da Ilha da Benta com o sol já morrendo para as bandas do ocidente, enquanto do oriente nuvens negras prenunciavam temporal. 

                                                                         

Da esquerda para a direita: Romário, Paulo Dantas, Tupinambá e Taquito

 

Que prazer desembarcar pisando aquela areia que há mais de sessenta anos não era calcada pelos meus pés. Que prazer ouvir os estridentes grasnidos das gaivotas dando vôos rasantes sobre nossas cabeças, tentando afastar os intrusos, em proteção dos seus ninhos. Que prazer sentir aquela aragem refrescante trazendo grãos de areia para colidirem com nossos rostos.

Eu feliz, Paulo Dantas tenso por duas razões. Primeiro, ele achava que estávamos invadindo o território sagrado (tabuleiro) das gaivotas; segundo, aquelas nuvens negras estavam mais negras ainda, mostrando a fúria da natureza observável nos relâmpagos, e já estavam materializando lufadas de ventos muito fortes.  Logo, logo, cairia um temporal daqueles que trazem perigo para qualquer navegante do grande rio, tudo isso recomendando que saíssemos dali às pressas em busca de abrigo. Foi o que fizemos.

Todos, inclusive familiares da senhorinha que já estavam na praia antes de nós ali chegarmos, embarcaram na lancha e nos afastamos da praia em busca de um porto seguro. Mas não houve tempo de encontrá-lo.

A noite chegou de vez, a chuva caiu forte, o banzeiro ficou violento, as sanefas foram baixadas para proteger da chuva os passageiros, e nós à deriva na escuridão, ao sabor do vento forte que nos jogou de encontro a um banco de areia abarrancado, totalmente desorientados. A lancha batendo contra a areia obrigou a todos desembarcarem para tentar protegê-la, empurrando-a para o rio, enquanto Paulo Dantas segurava o cabo de apoitar puxando-a para a beira; eu, travado pelas minhas limitações cardiológicas, desembarquei por último e caminhei pela praia com o vento fustigante arremessando sobre minhas costas grãos de areia, como petardos penetrantes, nessa guerra ente o homem e os elementos da natureza, enquanto a chuva caía torrencial molhando-nos até os ossos.

Quando aqueles bravos homens e mulheres conseguiram afastar a lancha daquele ponto crítico, olhei para os lados o vi Paulo Dantas absolutamente ensopado, ajoelhado sobre a areia, de mãos elevadas aos céus, em sincera oração ao Altíssimo, e à sua santa de devoção. Foi quando pude comprovar sua fé inabalável no Criador.

Passado o perigo, restaram muitas risadas e o comentário de Paulo Dantas, esse homem cheio de saberes e de fé: “Isso tudo foi vingança das gaivotas”.

1 comentário


Sileny Moraes
Sileny Moraes
08 de jul. de 2025

Tupinambá... homem inteligente, de cérebro ágil e amplo conhecimento. Vc brinca com as palavras e elas fluem com simplicidade e força. Nos fazendo vagar pelo idílio e nosn transportando para suas peripécias🤣. Gratidão😍

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