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A VIDA EM CENA

  • Foto do escritor: José H. C. Abreu
    José H. C. Abreu
  • há 7 dias
  • 3 min de leitura

Atualizado: há 3 dias




Por José H. C. Abreu

 



Há algum tempo, alguém me disse que o cinema americano não mostra o mundo como ele é, mas como gostaria que ele fosse. A frase ficou ecoando, porque ela não fala apenas de filmes — fala de poder. O poder de narrar. O poder de moldar imaginários. O poder de ensinar, sem parecer que está ensinando.

Talvez o domínio cultural do audiovisual não esteja apenas nas bilheterias globais ou nas plataformas de streaming, mas no fato de que, pouco a pouco, aprendemos a viver olhando para a vida como se ela fosse um roteiro.

Hoje, não apenas assistimos a séries. Nós pensamos em episódios, aguardamos reviravoltas, esperamos reconhecimento, ansiamos por finais satisfatórios. Quando algo dá errado, sentimos que o “roteiro falhou”. Quando algo dá certo, temos a sensação de que “valeu a pena a temporada”.

Sem perceber, começamos a atuar.

As conversas ganham falas ensaiadas, os gestos se tornam referências e as reações seguem modelos reconhecíveis.

Amamos como vimos amar. Sofremos como aprendemos a sofrer. Nos revoltamos do jeito “correto”. Até a indignação precisa ser performada, preferencialmente com frases de efeito. A espontaneidade cede espaço à repetição de arquétipos.

Não é que sejamos falsos é que fomos treinados.

O audiovisual ensina mais pelo exemplo do que pelo discurso. Ele cria mapas emocionais: como alguém forte age, como alguém fraco reage, como o vencedor se comporta, como o fracasso deve parecer. E quanto mais essas narrativas se repetem, mais o cérebro passa a reconhecê-las como padrão.

A ideia de “lavagem cerebral” sugere violência, imposição, coerção. O que acontece atualmente é mais elegante — e por isso mais perigoso, pois trata-se de sedução simbólica.

Não somos obrigados a nada. Somos convidados.

Convidados a desejar certas coisas, convidados a interpretar papéis e convidados a aceitar que o mundo funcione dentro de determinados limites narrativos.

Heróis resolvem tudo. Vilões são facilmente identificáveis. Conflitos complexos se resolvem em duas horas. O bem triunfa, desde que siga o formato certo. A justiça sempre chega — ainda que atrasada, mas chega.

A vida real, no entanto, não respeita o tempo de tela.

Na vida real não há trilha sonora avisando que algo importante está acontecendo; não existe clímax garantido; o esforço nem sempre gera recompensa; pessoas boas falham; pessoas ruins prosperam e muitas histórias simplesmente… não fecham.

Talvez por isso a realidade comece a parecer frustrante pois ela não entrega o que o roteiro prometeu.

E então tentamos corrigir isso atuando melhor, dramatizando mais, simplificando conflitos, escolhendo vilões convenientes, buscando aplauso — mesmo que seja invisível.

O problema não está em consumir histórias. O problema começa quando perdemos a capacidade de narrar a nós mesmos.

Quando nossas escolhas passam a obedecer à lógica do que “fica bonito”, do que “faz sentido na história”, do que “as pessoas entenderiam”. Quando o silêncio vira vazio. Quando o tédio vira fracasso. Quando a pausa vira medo.

Talvez estejamos, sim, vivendo uma época em que a maior rebeldia não é gritar, nem aparecer — mas desligar a câmera imaginária, vivendo sem plateia, sentindo sem legenda e errando sem a sem arco de redenção.

Recuperar a vida real não significa rejeitar o cinema, as séries ou a cultura. Significa lembrar que a vida não precisa ser interessante o tempo todo para ser verdadeira.

A liberdade talvez esteja justamente em aceitar que nem tudo será épico,

que nem toda dor ensina e que nem toda história precisa ser contada.

E, sobretudo, em lembrar que não somos personagens — somos autores em um mundo que insiste em nos oferecer apenas papéis prontos.

 

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