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A Verdade

  • Foto do escritor: José Luiz de Souza Pio
    José Luiz de Souza Pio
  • 30 de dez. de 2025
  • 15 min de leitura

Atualizado: 31 de dez.



Ac. JOSÉ LUIZ DE SUA PIO,

AAM L, Cad. 13 (Caetano Felix do Nascimento)

.

O que é a verdade? Essa pergunta é feita pelos filósofos a mais de 2500 anos. Talvez, tenha sido essa uma das perguntas fundamentais da história da Filosofia e até hoje continua sendo uma das perguntas mais frequentes no pensamento humano. Para a Maçonaria, a verdade é um dos três preceitos em que se fundamenta a ordem, seguida do amor fraternal e da caridade. É um princípio norteador da vida de um maçom. Mas é necessário compreender o que é a verdade. É necessário saber como buscá-la e vive-la. Esse texto discute as visões filosóficas da verdade e estrutura um ponto de vista maçônico sobre esse conceito.

A ideia da verdade foi construída ao longo dos séculos, a partir de concepções semânticas e filosóficas diferentes. A influencia das línguas grega, latina e hebraica são fortes na concepção na cultura ocidental do que é a verdade.

Em grego, verdade se diz aletheia, significando: não-oculto, não-escondido, não-dissimulado. O verdadeiro é o que se manifesta aos olhos do corpo e do espírito; a verdade é a manifestação daquilo que é ou existe tal como é.

Em latim, verdade se diz veritas e se refere à precisão, ao rigor e à exatidão de um relato, no qual se diz com detalhes, pormenores e fidelidade o que aconteceu. Verdadeiro se refere, portanto, à linguagem enquanto narrativa de fatos acontecidos, refere-se a enunciados que dizem fielmente as coisas tais como foram ou aconteceram. Um relato é veraz ou dotado de veracidade quando a linguagem enuncia os fatos reais. A verdade depende, de um lado, da veracidade, da memória e da acuidade mental de quem fala e, de outro, de que o enunciado corresponda aos fatos acontecidos.

Em hebraico verdade se diz emunah e significa confiança. Agora são as pessoas e é Deus quem são verdadeiros. Um Deus verdadeiro ou um amigo verdadeiro são aqueles que cumprem o que prometem, são fiéis à palavra dada ou a um pacto feito; enfim, não traem a confiança. A verdade se relaciona com a presença, com a espera de que aquilo que foi prometido ou pactuado irá cumprir-se ou acontecer. Emunah é uma palavra de mesma origem que amém, que significa: assim seja.

A nossa concepção da verdade é uma síntese dessas três fontes e por isso se refere às coisas presentes (como na aletheia), aos fatos passados (como na veritas) e às coisas futuras (como na emunah). Também se refere à própria realidade (como na aletheia), à linguagem (como na veritas) e à confiança-esperança (como na emunah). Aletheia se refere ao que as coisas são; veritas se refere aos fatos que foram; emunah se refere às ações e as coisas que serão.

Para responder de forma coerente sobre o que é a verdade, a Filosofia no decorrer da sua história chegou a estabelecer uma Teoria da Verdade, na qual existem várias respostas para essa única pergunta. Os filósofos estabeleceram também cinco conceitos, considerados fundamentais sobre a verdade: a verdade como correspondência, como revelação, como conformidade a uma regra, como coerência e como utilidade.

Platão foi possivelmente um dos primeiros filósofos a tratar da verdade. Para Platão, a verdade consiste em o nosso juízo concordar, perfeitamente, com o que ele quer reproduzir. É uma propriedade do ser. Se o ser é como deve, então é verdadeiro. Neste sentido falamos de ouro verdadeiro, flores verdadeiras, homens verdadeiros.

Em Platão, o "existente" nunca se identifica totalmente com a sua ideia. Para ele, o verdadeiro é a própria ideia. É a verdade que garante a realidade, ou seja, o objeto falado é apresentado como ele é. A verdade não é algo concreto, palpável. Como o filósofo busca a verdade plena, deve buscá-la em algo estável, nas verdadeiras causas, pois logicamente a verdade não pode variar e, se há uma verdade essencial para os homens, esta verdade deve valer para todas as pessoas. Logo, a verdade deve ser buscada em algo superior. Para ele, a verdade era coisa dos deuses.

Em A República, Platão explica a percepção do mundo usando a metáfora da caverna. Nessa explicação, um grupo de pessoas vive aprisionada desde o nascimento dentro de uma caverna, todos de costa para a entrada. Essas pessoas vêem o mundo fora da caverna por meio das sombras do mundo real, projetadas nas paredes devido a uma fogueira que queima além da entrada. Para elas, as sombras são tudo o que existe. Um certo dia, um dos habitantes, supostamente Sócrates, se livra das amarras e sai da caverna. Ele primeiro se acostuma com a luz, depois passa a perceber a beleza do mundo real, suas cores, cheiros e formas. Ao voltar para a caverna para tentar libertar seus companheiros, acaba sendo assassinado, pois não acreditam nele.

A metáfora da caverna é a síntese da teoria das ideias de Platão, na qual procura explicar como se desenvolve o conhecimento. Segundo ele, o conhecimento se desenvolve pela passagem do mundo das sombras para o mundo verdadeiro, ou seja, o mundo das essências. Para atingir o conhecimento, Platão propõe a dialética, que consiste na contraposição de uma opinião com a crítica que dela se faz, no sentido de aprimorar o conhecimento.

Platão busca descobrir as verdades essenciais das coisas. As coisas devem ter um outro fundamento, além do físico, e a forma de buscar estas realidades vem do conhecimento, não das coisas mas do além das coisas. Esta busca racional é contemplativa. Isto significa buscar a verdade no interior do próprio homem, não meramente como sujeito particular, mas como participante das verdades essenciais do ser.

Enquanto Platão afirmava que "Verdadeiro é o discurso que diz as coisas como são; falso é aquele que as diz como não são.", Aristóteles dizia: “Negar aquilo que é, e afirmar aquilo que não é, é falso, enquanto afirmar o que é e negar o que não é, é verdade”. De acordo com essa concepção, a verdade é a adequação entre aquilo que se dá na realidade e aquilo que se dá na mente. Em outras palavras, enquanto Platão busca a verdade em um mundo das ideias, Aristóteles a procura no mesmo plano do contato prático e perceptivo com a realidade.

Tal como seu mestre Platão, Aristóteles também pretende alcançar a inteligibilidade do mundo, isto é, estabelecer as condições de um conhecimento racional que vá além das aparências ou do contato imediato com as coisas. Mas, diferentemente de Platão, Aristóteles não busca atingir esse objetivo por meio da separação entre aparências sensíveis e ideias inteligíveis, existências contingentes e essências absolutas; opta por um outro caminho que é o de tentar encontrar o que há de essencial e de inteligível no próprio âmbito da realidade que nos é dada.

Podemos dizer, simplificando bastante, que Platão busca a verdade em um mundo transcendente (o mundo das ideias, distinto do mundo sensível) e Aristóteles a procura em uma ordem imanente ao mundo percebido, isto é, no mesmo plano em que desenvolvemos nosso contato prático e perceptivo com a realidade.

Aristóteles enunciou também os dois teoremas fundamentais sobre o conceito da verdade. O primeiro é que a verdade está no pensamento ou na linguagem, não no ser ou na coisa . O segundo é que a medida da verdade é o ser ou a coisa, não o pensamento ou o discurso: de modo que uma coisa não é branca porque se afirma com verdade que é assim; mas se afirma com verdade que é assim, porque ela é branca.

A concepção de verdade, sob o aspecto da revelação, surge como a crença fundada na esperança e na confiança, referidas ao futuro, ao que será ou virá. Sua forma mais elevada é a revelação divina e sua expressão mais perfeita é a profecia.

A verdade como revelação se firma na necessidade de tornar a verdade compreensível para o homem comum, pelo fato de ela agregar sua revelação para alguns tipos especiais de homens e deve ser transmitida a todos os mortais. A verdade revelada também deve ser adaptada as circunstancias e de fazer com que ela atenda aos problemas novos. É comum que aqueles que tiveram a compreensão da verdade revelada de defendê-la de negações, desvios, incredulidades declaradas. Esse tipo de verdade é comum às religiões, as quais atribuem a si mesmas a tarefa de interpretar as crenças, as quais não podem ser postas em dúvida e nem ser corrigidas ou negadas.

Agostinho de Hipona.

A filosofia de Santo Agostinho está condicionada à fé religiosa e, especificamente, à ética cristã. Para Agostinho se Deus é a suma Existência e a Suma Bondade, os seres para alcançar a verdade tem de procurá-lo. Julgar que o caminho para se atingir a verdade seja humano, ou dependa apenas de esforços humanos, constitui soberba, pois a verdade é externa e independente do homem. Para Agostinho, o conhecimento da verdade depende em última instância da Graça Divina, que agracia apenas alguns escolhidos.

O homem é mais especial que as outras criações de Deus, e que os outros seres dotados de alma (animais), pois tem uma alma racional. O homem é especial porque foi feito à imagem e semelhança de Deus. Para Agostinho, a semelhança do homem com o seu criador é a razão. Deus, conhecedor de todas as coisas, possui também a razão infinita. Porém a razão humana está corrompida, e distante da divina. O homem tem um “déficit moral”, e por isso não consegue cumprir plenamente a sua natureza de animal racional. Os desejos e as paixões impedem um bom uso da razão, e impedem uma vida contemplativa.

No Livro X das Confissões Agostinho faz uma brilhante exposição sobre a memória, chegando mesmo a dizer que a memória é o espírito, ou a parte mais importante da alma humana. Nesta exposição está contida o grosso da doutrina Agostiniana de reminiscência, e suas adaptações em relação ao platonismo. Farei mais um voo panorâmico para explicá-la.

“Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” Jo 8,32. A verdade é o próprio Deus. É a Sua vontade que pode nos libertar de nós mesmos e de todo e qualquer pecado.

Retornei a mim mesmo, entrei no íntimo do meu coração sob Tua guia, e o consegui, porque Tu te fizeste meu auxilio. Entrei e, com os olhos da alma, acima destes meus olhos e acima de minha própria inteligência, vi uma luz imutável. Não era essa luz vulgar e evidente a todos com os olhos da carne, ou uma luz mais forte do mesmo gênero. Era como se brilhasse muito mais clara e tudo abrangesse com sua grandeza. Não era uma luz como esta, mas totalmente diferente das luzes desta terra. Também não estava acima da minha mente como o óleo sobre a água nem como o céu como a terra, mas acima de mim porque ela me fez, e eu abaixo porque fui feito por ela. Quem conhece a verdade conhece essa luz, e quem a conhece conhece a eternidade. O amor a conhece. Ó eterna verdade, verdadeira caridade e querida eternidade! És o meu Deus, por Ti suspiro dia e noite. Desde que Te conheci, Tu me elevaste para me fazer ver que havia algo para ser visto, mas que eu era incapaz de ver. Atingiste minha vista enferma com a Tua irritação fulgurante, e eu tremi de amor e de temor. Percebi que estava longe de Ti, numa região desconhecida, e parecia-me ouvir Tua voz do alto: “Eu Sou o pão dos fortes: cresce, e de mim Te alimentarás. Não me transformarás em ti, como fazes com o alimento do corpo, mas te transformarás em Mim”. Compreendi, então que corrigiste o homem por sua iniquidade e secaste a minha alma como teia de aranha. E eu disse: “Porventura deixará de existir a verdade, por não ser uma realidade difusa pelos espaços finitos e infinitos”? E Tu me gritaste de longe : “Na verdade, Eu sou aquele que sou”. E ouvi como se ouve no coração, e já não tive motivo para duvidar. Mais facilmente duvidaria de estar vivo do que da existência da verdade, a qual se apreende através das coisas criadas.

Anselmo buscava um argumento para provar a existência de Deus, e sua bondade suprema. Fala que a crença e a fé correspondem à verdade, e que existe verdadeiramente um ser do qual não é possível pensar nada maior. Ele não existe apenas na inteligência, mas também na realidade. Anselmo desenvolveu uma linha de pensamento sobre essas bases, chamados de argumento ontológico, que foi retomada por René Descartes. Ele parte do fato de que o homem encontra no mundo muitas coisas, algumas boas, que procedem de um bem absoluto, que é necessariamente existente. Todas as coisas tem uma causa, menos o ser incriado, que é a causa de si mesmo e fundamenta todos os outros seres. Esse ser é Deus. Seus argumentos não foram totalmente aceitos.

Para Tomás de Aquino (Roccasecca, 1225 — Fossanova, 7 de março 1274), tido como o mais sábios dos santos e o mais santo dos sábios, a verdade é definida como a conformidade da coisa com a inteligência. Tomás de Aquino concluiu que a descoberta da verdade ia além do que é visível. Aristóteles já definia a verdade somente o que poderia ser visto. Aquino já questiona que a verdade era todas as coisas porque todas são reais, visíveis ou invisíveis. Aquino concorda e aprimora Agostinho quando diz que "A verdade é o meio pelo qual se manifesta aquilo que é". A verdade está nas coisas e no intelecto e ambas convergem junto com o ser. O "não-ser" não pode ser verdade até o intelecto o tornar conhecida, ou seja, isso é apreendido através da razão. Aquino chega a conclusão que só se pode conhecer a verdade se você conhece o que é o ser.

Sobre a eternidade da verdade ele, Tomás, discorda em partes com Agostinho. Para Agostinho a verdade é definitiva. Imutável. Já para Aquino, a verdade é a consequência de fatos causados no passado. Então na supressão desses fatos à verdade deixa de existir. O exemplo que Tomás de Aquino traz é o seguinte: A frase "Sócrates está sentado" é a verdade. Seja por uma matéria, uma observação ou analise, mas ele está sentado. Ao se levantar, ficando de pé, ele deixa de estar sentado. Alterando a verdade para a segunda opção, mudando a primeira. Contudo, ambos concordam que na verdade divina a verdade por não ter sido criada, já que Deus sempre existiu, não pode ser desfeita no passado e então é imutável.

René Descartes.

A verdade que sob a luz empirista se revelou ao homem por meio das sensações, e sob a perspectiva metafísica ou teológica mostrou o verdadeiro por meio de um Ser supremo, Deus, que evidencia a essência das coisas.

Agostinho, ele que afirmava “cogito sum” no universal, e, em Descartes há o “ergo”, pois, Descartes parte para a auto-percepção, visa o conhecimento de sua natureza, distingue da natureza dos chamados corpos sensíveis, que é de natureza extensa. Descartes utiliza o argumento do cogito, ao meu ver, como um método para garantir as ideias claras e distintas, que a partir da Meditação Segunda começa a se tornar garantia de verdade, depois será garantida pela prova da existência de Deus. Assim, semelhante a Agostinho, Descartes utiliza o cogito como artificio para conhecer as demais coisas, em Agostinho explícito no conhecimento da interioridade para conhecer a Deus, que é sabedoria.

Descartes começa sua obra filosófica fazendo um balanço de tudo o que sabia: o que lhe fora ensinado pelos preceptores e professores, pelos livros, pelas viagens, pelo convívio com outras pessoas. Ao final, conclui que tudo quanto aprendera, tudo quanto sabia e tudo quanto conhecera pela experiência era duvidoso e incerto. Decide, então, não aceitar nenhum desses conhecimentos, a menos que pudesse provar racionalmente que eram certos e dignos de confiança.

Para isso, submete todos os conhecimentos existentes em suas época e os seus próprios a um exame crítico conhecido como dúvida metódica, declarando que só aceitará um conhecimento, uma ideia, um fato ou uma opinião se, passados pelo crivo da dúvida, revelarem-se indubitáveis para o pensamento puro. Ele os submete à análise, à dedução, à indução, ao raciocínio e conclui que, até o momento, há uma única verdade indubitável que poderá ser aceita e que deverá ser o ponto de partida para a reconstrução do edifício do saber.

Essa única verdade é: "Penso, logo existo", pois, se eu duvidar de que estou pensando, ainda estou pensando, visto que duvidar é uma maneira de pensar. A consciência do pensamento aparece, assim, como a primeira verdade indubitável que será o alicerce para todos os conhecimentos futuros.

“A partir do momento em que desejava dedicar-me exclusivamente à pesquisa da verdade, pensei que deveria rejeitar como absolutamente falso tudo aquilo em que pudesse supor a menor dúvida, com a intenção de verificar se, depois disso, não restaria algo em minha educação que fosse inteiramente indubitável.

Desse modo, considerando que nossos sentidos às vezes nos enganam, quis supor que não existia nada que fosse tal como eles nos fazem imaginar. Por haver homens que se enganam ao raciocinar, mesmo no que se refere às mais simples noções de geometria (...), rejeitei como falsas, julgando que estava sujeito a me enganar como qualquer outro, todas as razões que eu tomara até então por demonstrações. (...)

Logo em seguida, porém, percebi que, enquanto eu queria pensar assim que tudo era falso, convinha necessariamente que eu, que pensava, fosse alguma coisa. Ao notar que esta verdade penso, logo existo, era tão sólida e tão correta (...), julguei que podia acatá-la sem escrúpulo como o primeiro princípio da filosofia que eu procurava.”

Influenciado pelo mecanicismo de Descartes, que mais tarde refutou, Leibniz diferencia a verdade de razão da verdade de fato. O que distingue os homens dos animais é o fato daqueles terem o conhecimento das verdades necessárias e eternas, ou seja, terem alma racional. As verdade da razão são necessárias, e o seu oposto, impossível. A verdade de razão é absoluta, pois está no intelecto de Deus Por exemplo, as leis da matemática e as regras de justiça e bondade..; as verdades de fato são contingentes, e o seu oposto, possível As verdades de fato admitem opostos. Elas poderiam não existir, mas tem um motivo prático para existirem.

Por fim, achou-se o pressuposto de verdade como utilidade, formulada primeiramente por Nietzsche:

“Verdadeiro não significa em geral senão o que é apto à conservação da humanidade. O que me deixa sem vida quando acredito nele não é a verdade para mim, é uma relação arbitrária e ilegítima do meu ser com as coisas externas”.

A preocupação é que a verdade como utilidade seja algo que faça bem toda a humanidade. O que não é de práxis para a conservação do bem, podemos dizer que é verdade?

O mundo para Nietzsche não é ordem e racionalidade, mas desordem e irracionalidade. Seu principio filosófico não era, portanto Deus e razão, mas a vida que atua sem objetivo definido, ao acaso, e por isso se está dissolvendo e transformando-se em constante devir. A única e verdadeira realidade sem máscaras, para Nietzsche, é a vida humana tomada e corroborada pela vivência do instante. A verdade é um ponto de vista. Ele não define nem aceita definição da verdade, porque não se pode alcançar uma certeza sobre a definição do oposto da mentira.

Para Nietzsche a verdade era relativa. Deus e religião não passavam de máscaras usadas por aqueles que queriam fugir da verdadeira realidade. Ele afirmava:

“Proceda em todas as suas ações de modo que a norma de seu proceder possa tornar-se uma lei universal.”

Para ele o ego estava no centro da vida. A verdade era aquilo que o favorecia, o que mais o interessava.


Friedrich Nietzsche.


Estamos em um mundo de grandes transformações. Muitas ideologias são nos apresentadas como verdades inquebrantáveis. Somos forçados a acreditar na mídia, na política e na manifestação religiosa. Isso acontece de uma maneira inconsciente. Aceitamos a verdade ainda como uma analogia a caverna de Platão. Ao vermos o Jornal pela televisão aceitamos aquelas notícias como verdade. Mas a realidade por trás das câmeras é muito diferente.

Como maçons devemos procurar a verdade e nos tornarmos agentes formadores da consciência crítica. A questão é ir a fundo sobre aquilo que nos é apresentado. Fugir do senso comum e criar opiniões próprias baseadas nos princípios da ordem na prática das virtudes.

Se examinarmos as diferentes concepções da verdade, notaremos que algumas exigências fundamentais são conservadas em todas elas e constituem o campo da busca do verdadeiro:

  1. A prática das virtudes, em particular da Fé, com a racionalidade é que nos leva a verdade;

  2. compreender as causas da diferença entre o parecer e o ser das coisas ou dos erros;

  3. compreender as causas da existência e das formas de existência dos seres;

  4. compreender os princípios necessários e universais do conhecimento racional;

  5. compreender as causas e os princípios da transformação dos próprios conhecimentos;

  6. separar preconceitos e hábitos do senso comum e a atitude crítica do conhecimento;

  7. liberdade de pensamento para investigar o sentido ou a significação da realidade que nos circunda e da qual fazemos parte;

  8. veracidade, isto é, o conhecimento não pode ser ideologia.

  9. a verdade deve ser objetiva, isto é, deve ser compreendida e aceita universal e necessariamente,

A verdade para o maçom não pode servir de máscara e véu para dissimular e ocultar a realidade servindo aos interesses da exploração e da dominação entre os homens. Assim como a verdade exige a liberdade de pensamento para o conhecimento, também exige que seus frutos propiciem a liberdade de todos e a emancipação de todos.

Para o maçom, a verdade só pode ser alcançada pela prática da virtude da Fé. A fé no grande arquiteto do universo. Este entendimento é feito pelo uso da razão. Mas sabedores que somos que a razão divina ultrapassa em muito a finitude da razão humana, precisamos da fé para alcançar o conhecimento. A Fé no maçom não se esgota nunca, o conhecimento pleno só é alcançado por meio da Fé no Criador.

Platão fornece uma ideia da verdade, a Fé aponta a verdade como um caminho, e somente tornando-se caminho, torna-se ela a verdade do homem e para o homem. Verdade como simples conhecimento, como mera ideia conserva-se sem força, e torna-se verdade do homem só como caminho que o reivindica e pelo qual ele pode e deve enveredar.

A concepção da verdade para o maçom se aproxima muito do pensamento de Agostinho. Ele não se preocupa em traçar fronteiras entre a fé e a razão. Para Agostinho, assim como para o maçom, a razão ajuda o homem a alcançar a fé; de seguida, a fé orienta e ilumina a razão; e esta, por sua vez, contribui para esclarecer os conteúdos da Fé. Deste modo, não traça fronteiras entre a Fé no Grande Arquiteto do Universo e as verdades acessíveis ao pensamento racional. O próprio Agostinho já afirmava que:

"Fé é acreditarmos no que não vemos, e a recompensa dessa fé é vermos aquilo que acreditamos"

O caminho do conhecimento do maçom passa pela busca constante da verdade por meio da prática das virtudes. A Fé ilumina o caminho do conhecimento. A razão, por sua vez, nos ajuda a alcançar a Fé. Para o maçom, não existem barreiras entre a Fé e a verdade obtida pelo pensamento racional. A exigência da Fé na verdade é o que dá sentido a existência humana. Sem Fé, a verdade é frágil. Sem Fé, prevalece o pensamento da utilidade da verdade de Nietzsche. Abre-se o caminho para o surgimento de novas verdades úteis a grupos interessados, assim como podem surgir novas teorias para substituir as verdades estabelecidas.

Como disseram os filósofos Sartre e Merleau-Ponty, somos "seres em situação" e a verdade está sempre situada nas condições objetivas em que foi alcançada e está sempre voltada para compreender e interpretar a situação na qual nasceu e à qual volta para trazer transformações. Não escolhemos o país, a data, a família e a classe social em que nascemos - isso é nossa situação -, mas podemos escolher o que fazer com isso, conhecendo nossa situação e indagando se merece ou não ser mantida.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia, Ed. Ática, São Paulo, 2000.

ABRÃO, Bernadete Siqueira. A História da Filosofia, Os Pensadores, Editora Nova Cultural, 2004.

PESSANHA, José Américo Motta. Santo Agostinho - Os Pensadores. Editora Nova Cultural, 2004.

FLORIDO, Janice (editor). Aristóteles, - Os Pensadores. Editora Nova Cultural, 2004

 
 
 

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