A ORDEM ROSACRUZ
- Eloy Guillermo Castellón Bermúdez
- 15 de dez. de 2025
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Eloy Guillermo Castellón Bermúdez
Membro da AAML-Cad.34-Compilador
Durante os séculos XIV e XV, na Alemanha, período marcado pela instabilidade religiosa e do aparecimento da peste negra, existia um forte conhecimento acadêmico-religioso, centralizado nos mosteiros, com pouca ou nenhuma acessibilidade à população. No século XV houve grande interesse pelos estudos sobre Hermetismo, Alquimia, Gnose, e Cabala, de modo geral, pelo ocultismo; motivado pelo escape do monopólio cultural da igreja na idade média, já que as pessoas mais “ilustradas” não se limitavam apenas aos ensinamentos e dogmas praticados exclusivamente pela Igreja.
Neste contexto, surge a figura de Christian Rosenkreutz, nascido em 1378, na Alemanha; logo cedo ficou órfão, sendo entregue para realizar seus estudos, em um mosteiro albigense, onde aprendeu latim, hebraico e magia. No mosteiro, Christian Rosenkreutz estudou os profundos secretos da natureza, dentre os quais a alquimia, que obteve a transformação da personalidade no ouro espiritual e secundariamente, da transmutação dos metais e na elaboração de joias (Leadbeater, Antigos Mistérios).
Em 1393, já monge, partiu a viajar, atravessando inicialmente a Alemanha, Áustria, Itália, até chegar ao oriente, no Egito, onde teve a oportunidade de conhecer diversas filosofias e de estudar com mestres do ocultismo. De acordo com Leadbeater (Antigos Mistérios), no Egito, foi recebido em todos os graus dos Mistérios Egípcios; adaptou e fez a tradução do ritual Rosa Cruz, do idioma egípcio para o latim. Ao seu retorno a Alemanha em 1407, fundou a Ordem Rosa Cruz, em conjunto com um pequeno grupo de discípulos escolhidos, dignos, para lhes apresentar os segredos dos Mistérios Egípcios e que também foram iniciados nesses profundos conhecimentos. Posteriormente, partes dos ensinamentos e do ritual desta escola, passou a mãos exclusivas, e através de corpos semiexotéricos, foi transmitido a custódia do Concilio de Imperadores do Oriente e do Ocidente (Leste e do ocidente). Foi nesse período que traduziu o livro “M”, estabelecendo uma fraternidade que somente se tornaria pública, quando a humanidade estivesse apta a receber esses segredos. Conta a lenda que através do ocultismo, conseguiu prolongar a sua vida, até morrer com 106 anos (Rodrigues, 2016; Wikipédia, Rosacrucianismo).
O movimento Rosacruz, pode ser considerado como a tradição esotérica ocidental, que tem suas raízes na antiguidade; tradição esta que procede de diferentes fontes; se desenvolvendo na Europa, durante o período da renascença, na idade média, entre os séculos XIV e XVI, com início na Florência, Itália. Durante esse período influenciado pela igreja e pelos dogmas católicos, houve mudanças de pensamento, valorizando a razão e racionalidade, contestando dogmas religiosos, e pelos resultados das ciências, que contribuíram para o desenvolvimento das cidades; a tecnologia, o fortalecimento da burguesia, como grupo forte; e com o desprestígio da nobreza e do clero, por parte da população.
Segundo (Wikipédia, Rosacrucianismo), os primeiros seguidores são geralmente identificados como médicos, alquimistas, naturalistas, boticários, magos e adivinhos, filósofos e homens das artes, acusados muitas vezes de charlatanismo e heresia pelos seus opositores e assumem-se como irmãos.
Tradicionalmente, as rosa cruzes se dizem herdeiros das tradições antigas que se remontam à alquimia, ao gnosticismo, ao hermetismo, ao neoplatonismo e à cabala, em geral, ao ocultismo.
A TRADIÇÃO NO MOVIMENTO ROSACRUZ
A tradição começou a tomar forma, no período do renascimento, com um movimento pouco conhecido, chamado de Gnosticismo, com origem no Egipto, poucos anos antes de Cristo, e influenciado pelas crenças místicas persas em 525 a. C. e pelas influências gregas e orientais, após a ocupação de Alexandre Magno, 333-331 a. C.
McIntosh (1980), escreveu sobre os gnósticos: “Viam o universo como uma dualidade entre espírito e matéria. Concebiam um ser divino supremo, que era imaterial, eterno, inatingível e incognoscível. Na opinião gnóstica, o espírito do homem é um fragmento de esse ser universal, que se separou e tornou-se prisioneiro da matéria. O mundo da matéria não é criação do Deus supremo, mas de um deus inferior, ou demiurgo, que tinha à sua disposição numerosos lacaios chamados arcontes ou governantes, os quais tinham diferentes esferas de influência no mundo material, correspondentes as esferas planetárias. A esfera mais alta é a de Saturno, e constitui a fronteira entre os mundos superior e inferior. Abaixo fica o mundo do mal com seus arcontes; acima, fica o mundo divino governado pelos espíritos bons”.
A Cosmologia gnóstica, está representada pelo filósofo estoico Heráclito de Efeso, que encarava o cosmo como um ser vivente, submetido às leis do nascimento e morte. Quando o cosmo morre, deixa uma semente da qual vai se desenvolver um novo cosmo. Tudo no cosmo deriva-se de uma substância básica que seria uma espécie de fogo: “Todas as coisas são uma troca por fogo” e “fogo por todas as coisas, até mesmo como utensílios por ouro e ouro por utensílios”. É um movimento cíclico representada pela ourobouros: uma cobra mordendo sua própria cauda; este símbolo é usado em textos alquímicos. Representa o conceito de eternidade, simboliza a constante evolução e movimento da vida, além de significar a ressurreição, a criação e destruição, incluindo a renovação (McIntosh,1980).
Um outro aspecto, era que, para iniciar o processo de crescimento, era necessária uma geração sexual entre o masculino e o feminino, na qual é implantado na virgem de um ser humano, a semente de Deus, evocando uma união mística: o Hieros Gamus.
Os gnósticos deixaram uma série de escritos que foram atribuídos a Hermes Trimegistus e que de acordo a McIntosh (1980), tiveram uma enorme influência sobre o pensamento esotérico na Renascença; as partes do hermetismo referentes à alquimia, astrologia e magia formaram os alicerces do ocultismo ocidental. O gnosticismo e o hermetismo também influenciaram outras doutrinas contidas no Neoplatonismo, outro movimento de tradição esotérica, de origem egípcia, que se baseava na filosofia Platônica: os elementos do pensamento platônico são a Doutrina das ideias, na qual o conhecimento se distingue das coisas naturais e a superioridade da sabedoria sobre o saber, e a Dialética, como o procedimento científico; com os ensinamentos de Aristóteles, os estoicos, os pitagóricos e gnósticos, já considerados anteriormente. O Neoplatonismo considera que pode transpor o problema filosófico entre o dualismo e o racionalismo, o Aristotelismo considera que o dualismo platônico entre o mundo sensível e o mundo das ideias, era um artificio para responder à pergunta sobre o conhecimento verdadeiro; o racionalismo é uma corrente filosófica que defende que a razão é a fonte mais confiável para o conhecimento (Mundo dos Filósofos, O Neoplatonismo).
Finalmente, a tradição da Cabala, coletânea altamente complexa e cheia de ensinamentos místicos. Na sua primeira fase, judeus medievais na Espanha, escreveram o Sepher Jezirah (Livro da Formação) e o Zohar (Livro do Esplendor); em uma segunda fase, e de acordo a McIntosh (1980), provavelmente foi escrito por Isaque de Luria, é o que se conhece como Cabâla Lauriânica, que em conjunto com seus seguidores escreveram a Cabala Zohárica, incluindo novos conceitos. A Cabala é, um sistema de cosmologia e teologia explicando a natureza de Deus, a origem do mundo e o destino do homem. Dá os meios de interpretar as escrituras bíblicas e incorpora o misticismo para aprender a comungar com realidades superiores. A Cabala interpreta a criação através de dez forças ou princípios básicos, os chamados Sephiroth ou “Árvore da vida”. Uma outra parte importante é o alfabeto hebraico, que se acreditava ser de origem divina. Estes princípios foram adotados pelos esotéricos e posteriormente adaptados ao cristianismo, desenvolvendo-se a Cabala Cristã a partir da Cabala Judaica. Foram estas as tradições esotéricas, redescobertas pelos intelectuais na Renascença e influenciadoras do Rosacrucianismo.
A Ordem Rosa Cruz, foi conhecida na Europa, em 1614, através da publicação da obra “Fama Fraternitatis of the Rose Cross” (Fraternidade Rosa Cruz); o livro descreve a vida de Christian Rosenkreutz, a fundação da Ordem, a morte e o sepultamento do fundador.
Em 1615, foi publicado um outro folheto intitulado “Confessio Fraternitas Rosa Cruz” (Confissões da Fraternidade Rosa Cruz), dividido em 14 capítulos, que relatam a finalidade da Ordem, o conhecimento dos secretos da natureza e seus diferentes graus e uma áurea de uma nova regeneração, acompanhado de um chamado aos que querem o bem-estar da humanidade. Um terceiro folheto, “As Bodas Alquímicas de Christian Rosenkreutz”, foi publicado em 1616 (Leadbeater, Antigos Mistérios).
Johann ou Johannes Valentin Andreae (1586-1654), nascido em Tubinga, Alemanha, em 1851, foi um teólogo protestante, apontado como autor principal dos manifestos Rosa Cruzes. Na sua biografia, o teólogo declarou que o terceiro manifesto Rosa Cruz era de sua autoria, no entanto, posteriormente manifestou ser um “ludibrium” (brincadeira, engano, diversão). Historiadores católicos, consideraram que não eram obras de sua autoria e que eram manifestos propagandísticos de inspiração protestante, contra a influência do Bispo de Roma (Wikipédia, Johnnes Valentin Andreae; Wikipédia, Rosacrucianismo).
O historiador francês Paul Arnold, foi o primeiro a considerar os três manifestos como obra do círculo comum de Tubinga, composto por Johnnes Valentin Andreae, Christopher Besol, homem de altos conhecimentos, interessado pela Cabala, com fortes tendências místicas e estreita relação com o conteúdo dos escritos rosacrucianistas; Abraham Hölzel; Tobias Hess, médico; Tobias Adami e Wilhem Wenze, discípulos de Tomasso Campanella, frade italiano que escreveu “A Cidade do Sol”, obra utópica que descreve uma cidade ideal governada por sacerdotes herméticos (Wikipédia, Rosacrucianismo; McIntosh,1980).
O Rosacrucianismo, movimento esotérico, tem bases totalmente protestantes; comprovado através da associação entre o Rosacrucianismo e a reforma luterana: a semelhança entre o Brasão de Lutero e o selo Rosacruz é explicita (Salomonica, O Rosacrucianismo).
A grande parte dos personagens dos “Manifestos Rosa-cruzes” originaram-se no meio luterano, sendo o símbolo da sua teologia, a “Rosa de Lutero”, que foi o primeiro a usar como símbolo, uma “Rosa-cruz”. Sem dúvida, os reformadores radicais do protestantismo exerceram forte influência sobre os rosa-cruzes.
O Rosacrucianismo tem um entendimento muito amplo, do ponto de vista do pensamento hermético-cristão. A partir deste contexto, a influência do “Corpus Hermeticum”, é evidente. Foi traduzido por Marcilio Ficino, após 1000 anos. Nas “Núpcias Alquímicas” é citado que “Hermes é primordial” e Paracelso foi citado na “Fama Fraternitatis R.C.” “Teofrastus (Paracelso) por vocação foi também desses herois ...”
Os membros da maçonaria se dizem herdeiros dos Rosa Cruzes.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Figueiredo, E., Cavaleiro Rosacruz -INRI- Cube Epistolar Real Arco do Templo-CERAT.
Gutierres, J. B., Giovanni Pico Della Mirandola e a Cabala Cristã.bibliot3ca.com/2023/08/04/giovanni-pico-della-mirandola-e-a-cabala-crista/
Leadbeater, C.W., Antigos Ritos Místicos. Ed. Abraxas, São Paulo. 320 p.McIntosh, C., Os Mistérios da Rosa Cruz. Ed. IBRASA, São Paulo, 1987. 170 p.
Mundo dos Filósofos. O Neoplatonismo. Https://mundodosfilosofos.com.br/o-neoplatonismo/
Rodrigues, J.A., Grau 18 – Soberano Príncipe Rosa Cruz. https://www.freemason.pt/o-soberano-principe-rosa-cruz/25/08/2021
Salomonica. O Rosacrucianismo. O O Rosacrucianismo é um movimento tradicional? Existe um Rosacrucianismo “clássico”? - Societas Hermetica Salomonica
Rodrigues, M. H., O Mito de Christian Rosenkreutz: uma visão a partir de Mircea Eliade.Fragmentos de Cultura, Goiânia, 2016, vol. 26, (1):127-134. Ser.
Wikipédia. Rosacrucianismo.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Rosacrucianismo ou Rosacruz é um, então desconhecida para o mundo.
Wikipédia. Rosa de Sarom. Rosa de Sarom – Wikipédia, a enciclopédia livre.

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