A MULHER E A MAÇONARIA
- Antônio Tupinambá
- 10 de dez. de 2025
- 8 min de leitura
Antonio Tupinambá
AAML, Cad 40EM
10/12/2025
Nesta semana criei um Grupo no WhatsApp, constituído por maçons do GOB e GLOMAM, com o objetivo de dar maior visibilidade ao meu Blog, onde são publicados textos sobre diversos assuntos, entre eles a Maçonaria. Nesse grupo incluí uma mulher que foi Iniciada nos Mistérios da Ordem Maçônica, o que causou um certo desconforto em alguns Irmãos.
Como consequência, recebi dessa Irmã seu posicionamento com relação àquilo que ela considerou como uma rejeição à sua inclusão no grupo. Esse posicionamento veio em forma de um texto assinado digitalmente, reproduzido na íntegra, abaixo, dele faltando apenas a assinatura porque o sistema “Assinador de Documentos GOV.BR” não permite editá-lo.
MULHERES NA MAÇONARIA: HISTÓRIA DE DISCRIMINAÇÃO
I – MINHA HISTÓRIA NA MAÇONARIA
Ontem, fui adicionada a um grupo de maçons por uma pessoa que estimo profundamente. Esse fato reacendeu em mim uma preocupação com possíveis ‘embates e constrangimentos’ que essa pessoa, detentora de um coração grandioso e de uma pureza de criança, embora já goze de seus 80 anos, possa vir a enfrentar na Ordem.
É em defesa desse amado irmão que compartilho este relato, uma vez que minha trajetória na Maçonaria, iniciada e galgada até o terceiro grau, foi marcada por ‘situações desafiadoras e incoerentes’.
Ao longo do meu caminho, deparei-me com diversos momentos constrangedores. Em uma ocasião, ao ser apresentada a um grupo da Irmandade por outro maçom, um sujeito questionou a minha presença (alegando que 'havia goteira' naquele local) e tentou testar-me com toques. Em outras situações, fui recebida como se portasse uma doença contagiosa, o que resultou no afastamento de alguns membros desse grupo “elitizado”.
Pedi meu afastamento da Ordem precisamente por não concordar com determinadas incoerências na relação entre os membros, especialmente com as irmãs. Tais ações, infelizmente, não condizem com a bela, justa e perfeita literatura maçônica que prega o progresso moral, ético e intelectual.
Pessoalmente, reservo a mim o fato de ser maçom. Com isso, evito propagar minha iniciação, para prevenir constrangimentos, pois percebi que o sentir (pertencer) exige ser aceito, e essa aceitação nem sempre foi plena. Hoje, aos 67 anos, como psicóloga escolhi caminhar por vias que me proporcionem bem-estar, diálogo, acesso e compartilhamento de conhecimentos.
Minha história com a Maçonaria começou na infância, na fase das fantasias e medos. Meu genitor, Mestre Maçom, guardava seus paramentos e literatura em uma gaveta secreta de uma cômoda do quarto, dizendo que a descoberta de seu conteúdo causaria sua morte. Ele alimentava o mistério, descrevendo a Loja como um lugar inacessível, com uma porta cheia de pregos e um violento bode guardião.
Aos 8 anos, fui atropelada por uma kombi, transporte coletivo da época. Embora sério, o episódio trouxe-me grande alegria: minha casa foi invadida por maçons que me trouxeram presentes. Esse evento de generosidade fraternal ficou adormecido no meu consciente.
A peça final desse quebra-cabeça mental (o que é a tal Maçonaria, que mistério se esconde por traz daqueles homens “empalitozados” de preto, com um ar acolhedor), contradizendo tudo aquilo plantado na minha memória pelo meu pai na infância, e isso só veio à tona com minha iniciação. A organização dos registros na biblioteca do Tupi (Antônio Tupinambá) revelou outra descoberta: meu padrinho de batismo, Desembargador Mário Verçosa, também era maçom.
Minha Iniciação e a literatura me ensinaram que a Maçonaria é ‘evolutiva’, tal qual a ciência, e que maçons são pessoas escolhidas, de caráter ilibado e de bom coração, reconhecidas por gestos, toques e palavras.
Com o auxílio de pesquisas sobre a Mulher na Maçonaria, venho aqui com a intenção de compartilhar conhecimento e desbravar as incoerências que me levaram a desistir das práticas em Loja.
Não se deve rejeitar alguém apenas por uma antipatia; é fundamental justificar e fundamentar o fato.
II - MULHERES NA MAÇONARIA: HISTÓRIA E DISCRIMINAÇÃO
Essa é uma questão complexa e sensível, que envolve história, tradição e debates contemporâneos dentro da Maçonaria. A discriminação, ou exclusão, das mulheres nas Lojas da grande maioria das Obediências ditas "tradicionais" ou "regulares" está ligada principalmente a fatores históricos e à interpretação dos seus documentos constitutivos.
A exclusão formal da mulher da Maçonaria, em grande parte das vertentes, não é tão antiga quanto as corporações de ofício, mas foi estabelecida em um período chave.
Há registros históricos de mulheres associadas à Maçonaria Operativa (aquela das corporações de pedreiros da Idade Média), conforme mencionado no Poema Régius (Século XIV) e no Manuscrito de York Nº 4 (Século XVII), não havendo, a princípio, uma proibição absoluta.
Essa proibição nasceu com a Constituição de Anderson (1723), o documento chave, ou certidão de nascimento da proibição do ingresso da mulher na Maçonaria, estipulando que o candidato a Maçom deve ser "um homem bom e leal, nascido livre, em idade madura, nem escravo, nem mulher, nem imoral."
As Obediências que seguem estritamente aquela Constituição argumentam que a exclusão não é uma discriminação, mas sim um apego ao Antigo da Maçonaria, que nasceu de corporações medievais e, mais tarde, se institucionalizou com base em critérios de elegibilidade masculinos. Outros fatores citados incluem a influência de costumes da época, os mistérios greco-romanos e a exigência, em alguns juramentos, de prontidão para o campo de batalha, o que era visto como incompatível com o papel social da mulher na época.
Os registros históricos dão conta de que Elizabeth St. Léger (Lady Aldworth) é um dos casos mais famosos de ingresso de mulheres na Maçonaria quando ainda não estava estabelecida a Maçonaria Especulativa. Por volta de 1712, na Irlanda, ela espionou uma cerimônia da Loja de seu pai (ou irmão), foi descoberta e, para manter os segredos, foi Iniciada. Ela é frequentemente citada como a primeira mulher Maçom de que se tem notícia histórica bem estabelecida.
Outro caso se refere a uma mulher que se disfarçou de homem para ser iniciada. Embora esse caso não seja universalmente confirmado como um único evento, reflete lendas e a rigidez das regras da época. Há histórias outras de mulheres que viveram como homens, como o de Chevalier d'Éon, que foi iniciado em uma Loja inglesa e que viveu como mulher por mais de 30 anos, gerando debates sobre sua iniciação.
Maria Deraismes, de quem foi tomado emprestado o nome da Loja que me admitiu na Maçonaria Feminina, é uma figura crucial. Em 1882, na França, essa feminista e defensora da emancipação feminina foi iniciada na Loja Les Libres Penseurs, causando um grande cisma na Maçonaria. Ela e Georges Martin fundaram, em 1893, a primeira Loja Maçônica Mista, que deu origem à Ordem Maçônica Mista Internacional "O Direito Humano" (Le Droit Humain), que aceita homens e mulheres em igualdade.
As Obediências masculinas "tradicionais" e "regulares" (como a Grande Loja Unida da Inglaterra e as que a seguem) geralmente não reconhecem a Maçonaria Mista (O Direito Humano, por exemplo) ou a Maçonaria Feminina (como a Grande Loja Feminina de Portugal), considerando-as "irregulares" ou "não-Maçônicas" no sentido tradicional. Isso significa que Maçons de Lojas masculinas regulares não podem manter relações maçônicas com Maçonas.
Muitas Obediências masculinas defendem que não se trata de discriminação, mas de segregação de sexos. Elas apontam a existência de Lojas e Potências exclusivamente femininas ou mistas como a solução para a participação da mulher, mas mantêm a sua própria filiação como estritamente masculina por apego aos Antigos Limites (18º Landmarks de Mackey).
Além das razões tradicionais, há também o peso de preconceitos sociais e culturais que perduram. Alguns Maçons mais fundamentalistas defendem a manutenção do poder masculino, e há críticas (principalmente de fora da Ordem) que veem a exclusão como uma forma de machismo institucional.
Em resumo, a mulher iniciada é "discriminada" no sentido de ser excluída da maioria das Lojas masculinas tradicionais e, muitas vezes, não reconhecida por elas. Isso não impede, contudo, que haja uma Maçonaria Feminina e uma Maçonaria Mista ativas e legítimas, que seguem os ideais maçônicos e buscam uma maior igualdade de oportunidades e reconhecimento no cenário maçônico mundial.
Existem diversas figuras femininas notáveis na história da Maçonaria, que se destacam pela sua iniciação em períodos de exclusão ou por serem fundadoras de Obediências que aceitam mulheres. Elas representam a luta e a evolução do papel feminino na Ordem. Entre elas,
Elizabeth St. Leger (Lady Aldworth) (1693–1773), mencionada antes, aristocrata irlandesa e filha do 1º Visconde de Doneraile, um Maçom. É a figura mais amplamente reconhecida como a primeira mulher a ser iniciada na Maçonaria, em uma Loja masculina na Irlanda, por volta de 1710–1712. O relato mais popular conta que ela, ainda solteira, estava em sua casa (Doneraile Court) e, por curiosidade, espiou uma reunião da Loja do seu pai (ou irmão) que ocorria no local. Foi descoberta e, para garantir que o sigilo dos rituais fosse mantido, foi submetida à iniciação. Ela se tornou conhecida como "The Lady Freemason" (A Dama Maçom) e, segundo registros, comparecia a cerimônias e procissões maçônicas com seus próprios paramentos. É um caso anedótico e excepcional, frequentemente debatido pelos historiadores maçônicos, mas tido como real, embora ela seja considerada "irregular" pelas Obediências que seguem estritamente as Constituições de Anderson.
Maria Deraismes, também já mencionada, foi jornalista, escritora, filósofa e proeminente ativista pelos direitos da mulher e da criança na França (1828–1894). Em 1882, Maria Deraismes foi iniciada na Loja Les Libres Penseurs (Os Livres Pensadores), em Le Pecq, França. Sua iniciação foi um ato político e de reforma promovido por Maçons progressistas, o que causou um enorme cisma com a ortodoxia maçônica da época, que não aceitava mulheres.
Outra mulher, Shutterstock, juntamente com o médico Maçom Georges Martin, fundou, em 1893, a Ordem Maçônica Mista Internacional Le Droit Humain (O Direito Humano). Esta foi a primeira Obediência a aceitar homens e mulheres em completa igualdade de direitos, graus e funções, estabelecendo a Co-Maçonaria como um caminho legítimo para a prática maçônica feminina e mista em nível internacional.
Adelaide Cabete, médica, feminista, republicana e ativista portuguesa (1867–1935) foi uma das figuras mais importantes da Maçonaria feminina e mista em Portugal. Ela foi uma das fundadoras do ramo português do Le Droit Humain (Maçonaria Mista). Foi a Venerável Mestra da Loja Carolina Angelo, e uma líder ativa na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas e na Cruzada Nacional das Mulheres Portuguesas, demonstrando como os ideais maçônicos de progresso social e igualdade se fundiram com o ativismo político e feminista.
Além das iniciações individuais e excepcionais, a história registra outras formas de participação feminina na Sublime Ordem. Veja-se o caso das Lojas de Adoção no século XVIII na França, corpos paramaçônicos criados sob o patrocínio de Lojas masculinas, que permitiam às mulheres participarem de rituais simbólicos, embora fossem distintos dos Graus azuis (Aprendiz, Companheiro e Mestre). Algumas destas se tornaram, mais tarde, Lojas exclusivamente femininas.
Ordem da Estrela do Oriente (OES), fundada nos EUA em meados do século XIX. É um corpo auxiliar, considerado Paramaçônico, aberto a Mestres Maçons e suas parentes (esposas, filhas, irmãs etc.). Foi uma das primeiras organizações nos EUA a dar voz às mulheres em escala nacional dentro da "Família Maçônica".
A partir do século XX, com o sucesso da Maçonaria Mista, surgiram Obediências Maçônicas que são exclusivamente femininas, trabalhando os mesmos rituais e Graus que a Maçonaria masculina tradicional, mas apenas com mulheres.
CONCLUSÃO
Essas figuras e movimentos demonstram que, apesar da exclusão imposta por grande parte da Maçonaria "regular" às mulheres, elas sempre buscaram e encontraram formas de praticar os princípios e mistérios maçônicos.
INFORMAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS:
O texto aqui apresentado foi realizado com a ajuda da Inteligência Artificial e consulta física à Biblioteca do Tupi (Antonio Tupinambá), mantida em seu escritório, endereço:
Suzi Moraes dos Santos
Psicóloga CRP 20ª/03697
09/12/2025
Esse posicionamento me obriga a esclarecer oportunamente as razões que levaram à inclusão dessa Irmã no grupo “Maçons e Maçonarias”, com destaque para a palavra “regularidade” por ela repetida em várias partes do texto.
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