A MAÇONARIA NA HISTÓRIA - II
- Antônio Tupinambá
- 19 de abr.
- 6 min de leitura
Atualizado: 20 de abr.
Fonte: Chat IntelectuAl
Buscador: Ac Antonio Tupinambá
AAML, Cad. 40-EM
ORIGENS HISTÓRICAS E A TRANSIÇÃO
A Maçonaria é uma das instituições mais fascinantes, enigmáticas e ricas da história. A seguir, é desvelado o véu que encobre o seu surgimento.
Sem entender como as guildas de construtores de catedrais se transformaram em centros de pensamento filosófico, a Maçonaria moderna parece um quebra-cabeça incompleto. Vamos, então, mergulhar profundamente nesse oceano de história!
1. O Berço de Pedra: A Maçonaria Operativa Medieval
Para entendermos a Maçonaria, precisamos voltar no tempo, especificamente para a Idade Média, entre os séculos X e XIV.
Imagine a Europa coberta de florestas, onde vilarejos isolados sonhavam em tocar os céus. É nesse contexto que surgem as grandes catedrais góticas. Aquelas estruturas imensas, repletas de vitrais e arcos ogivais, não eram apenas templos religiosos, mas verdadeiros milagres da engenharia da época.
Os homens que erguiam essas estruturas eram os "Pedreiros Livres" ou Freemasons. Eles eram chamados de "livres" por dois motivos principais: primeiro, porque trabalhavam com a freestone (pedra de grão fino que permitia esculturas detalhadas); e segundo, porque, ao contrário dos servos da gleba que estavam presos à terra de seus senhores, esses artesãos altamente qualificados tinham a liberdade de transitar entre diferentes cidades, países e feudos para oferecer seus serviços onde houvesse uma grande obra em curso.
Esses profissionais organizavam-se em Guildas ou Corporações de Ofício. Para proteger os segredos da sua arte — que envolviam geometria complexa, cálculos de resistência de materiais e técnicas de escultura —, eles criaram as Lojas. A Loja era, originalmente, o barracão de madeira construído ao lado da obra onde os pedreiros comiam, descansavam e discutiam o projeto. Ali, eles criaram sinais e toques secretos para que pudessem identificar a qualificação de um novo trabalhador (se ele era um Aprendiz, um Companheiro ou um Mestre), garantindo que apenas profissionais competentes tivessem acesso aos segredos da construção.
O termo Maçom deriva do francês antigo masson, que significa literalmente "pedreiro". A distinção de "Maçonaria Operativa" refere-se ao período em que esses homens realmente "operavam" as ferramentas, batendo o malho no cinzel para dar forma à pedra bruta.
2. O Templo de Salomão e os Mitos de Origem
Embora a história documental nos aponte para as guildas medievais, a Maçonaria possui uma riqueza simbólica que remete a tempos muito mais antigos. Os maçons medievais, em seus documentos antigos (os chamados Old Charges, traçavam a linhagem da sua arte até personagens bíblicos e heróis lendários.
O mito central da Maçonaria gira em torno da construção do Templo de Salomão, em Jerusalém. Segundo a tradição, o Rei Salomão contratou o mestre construtor Hiram Abiff para liderar a obra. A lenda de Hiram é fundamental, pois ela introduz conceitos de fidelidade, integridade e a preservação de segredos diante da adversidade. Para o entusiasta da história, é vital entender que, embora não existam provas arqueológicas de que as guildas medievais tenham ligação direta ininterrupta com a Jerusalém bíblica, essa narrativa servia como um código de ética e um ideal de perfeição arquitetônica para os pedreiros medievais. Eles viam em si mesmos os herdeiros da sabedoria que construiu a "Casa de Deus".
3. Os Documentos Antigos: Manuscritos Régius e Cooke
Nossa jornada histórica ganha solidez com os registros escritos. Os documentos conhecidos como Old Charges (Antigos Deveres) são as provas mais tangíveis da existência das Lojas Operativas. O mais antigo deles é o Manuscrito Regius, datado de aproximadamente 1390.
O que torna o Manuscrito Regius especial é que ele foi escrito em forma de poema (Poema Regius). Ele não apenas lista regras disciplinares — como a proibição de abrigar ladrões ou a obrigação de ser leal ao rei —, mas também conta uma história lendária sobre como a geometria foi descoberta no antigo Egito por Euclides e levada para a Inglaterra.
Logo depois, temos o Manuscrito Cooke (c. 1450), que aprofunda a conexão entre a Maçonaria e as "Sete Artes Liberais" (Gramática, Retórica, Lógica, Aritmética, Geometria, Música e Astronomia). Esses documentos mostram que, mesmo no período puramente operativo, havia uma valorização imensa do intelecto e da busca pela verdade através da ciência e da educação.
A geometria, para o maçom operativo, era a "Rainha das Ciências". Ela era a ponte entre o divino (o Grande Arquiteto) e o humano. Na filosofia pitagórica, que influenciou profundamente essas guildas, os números e formas geométricas não eram apenas medidas, mas a própria linguagem da criação do universo.
4. O Declínio do Gótico e a Crise das Guildas
Como toda grande era, o tempo das catedrais chegou ao fim. Com o advento do Renascimento e as mudanças religiosas da Reforma Protestante, o ritmo das grandes construções religiosas na Europa diminuiu drasticamente. No século XVII, as guildas de pedreiros operativos começaram a perder força econômica e política.
As Lojas, antes locais de treinamento técnico e sustento, tornaram-se pequenos clubes sociais. Para sobreviver e manter a relevância, muitas dessas lojas começaram a aceitar membros que não eram pedreiros profissionais. Esses novos membros eram nobres, intelectuais, médicos e burgueses influentes que se interessavam pelo ambiente de fraternidade, pela história lendária e pelo simbolismo das ferramentas de construção.
Este fenômeno é o que chamamos de início da Maçonaria de Aceitação. Esses novos membros eram chamados de "Maçons Aceitos". Eles não sabiam assentar um tijolo ou talhar uma pedra, mas viam na arte de construir uma metáfora poderosa para a construção do caráter humano e da sociedade.
5. A Transição: De Operativa para Especulativa
A transição não aconteceu da noite para o dia; foi um processo orgânico que durou cerca de um século (de 1600 a 1700). Durante esse período, as Lojas deixaram de ser locais onde se construíam templos de pedra para se tornarem locais onde se construíam "templos imateriais".
A "Maçonaria Especulativa" nasce quando o foco muda da construção física para a especulação filosófica. As ferramentas do pedreiro ganharam significados morais:
* O Esquadro, que serve para verificar se uma pedra está reta, passou a representar a retidão das ações e a moralidade.
* O Compasso, usado para traçar círculos perfeitos, passou a representar a moderação e o equilíbrio dos desejos.
* O Nível simboliza a igualdade entre os homens, independentemente de sua posição social fora da Loja.
Um marco famoso dessa transição é o registro no diário de Elias Ashmole, um renomado antiquário e cientista inglês, que em 1646 registrou ter sido iniciado em uma Loja de Maçons em Warrington. Ashmole não era pedreiro; sua iniciação é um dos exemplos documentados mais antigos da Maçonaria tornando-se puramente especulativa e atraindo as mentes mais brilhantes da Revolução Científica.
A transição foi tão profunda que muitos historiadores acreditam que a Maçonaria Especulativa serviu como um "refúgio intelectual". Durante as guerras religiosas e políticas na Grã-Bretanha, a Loja era o único lugar onde um monarquista e um republicano, ou um católico e um protestante, podiam sentar-se à mesma mesa e discutir filosofia sem se matarem, pois a política e a religião sectária eram (e ainda são) temas proibidos nas reuniões maçônicas.
6. 1717: O Nascimento da Maçonaria Moderna
O ápice dessa transição e o início da Maçonaria como a conhecemos hoje ocorreu no dia 24 de junho de 1717, no dia de São João Batista. Quatro Lojas de Londres, que já eram predominantemente especulativas, reuniram-se na Taverna Goose and Gridiron (Ganso e Grelha) e decidiram fundar a Primeira Grande Loja, de Londres e Westminster.
Este evento é histórico porque foi a primeira vez que as Lojas individuais cederam parte de sua autonomia para um órgão centralizador. A partir daqui, a Maçonaria deixa de ser apenas um conjunto de costumes locais e passa a ter uma organização administrativa formal. O primeiro Grão-Mestre foi Anthony Sayer, mas as figuras que realmente moldaram a instituição foram o Dr. Jean Théophile Desaguliers (um cientista colaborador de Isaac Newton) e o Reverendo James Anderson.
7. As Constituições de Anderson (1723)
Para solidificar a nova organização, James Anderson publicou em 1723 o livro The Constitutions of the Free-Masons (As Constituições dos Maçons). Esse documento é para a Maçonaria o que a Constituição é para um país.
Nas "Constituições de Anderson", as regras foram codificadas. O documento estabeleceu que o maçom deveria ser uma pessoa de moral íntegra e que a Maçonaria deveria ser o "Centro de União" entre pessoas que, de outra forma, permaneceriam perpetuamente distantes. Foi nesse texto que se consolidou a ideia de que a Maçonaria não exige uma religião específica, mas sim a crença em um Princípio Criador (geralmente chamado de Grande Arquiteto do Universo), permitindo a convivência harmoniosa entre homens de diferentes fés.
É comum confundir Maçonaria com uma religião. Contudo, na transição para o modelo de 1717, ficou claro que ela é uma sociedade filosófica e iniciática. Ela exige a fé em um Ser Supremo, mas não oferece um caminho de salvação ou rituais de adoração de uma divindade específica como as religiões fazem.
8. Conclusão da Transição e o Impacto no Iluminismo
A transição da Maçonaria Operativa para a Especulativa coincidiu perfeitamente com o surgimento do Iluminismo. A Maçonaria tornou-se o veículo ideal para as ideias de liberdade, igualdade e fraternidade. Ao trocar o martelo físico pelo "cinzel da razão", os maçons aceitos começaram a moldar não mais catedrais de pedra, mas a própria sociedade moderna.
Lojas maçônicas espalharam-se rapidamente pela França, pelas Américas e pelo resto do mundo, levando consigo esse modelo de meritocracia (onde se sobe de grau por mérito e estudo, não por nascimento) e democracia interna. O que começou em um barracão de obras medieval tornou-se, no século XVIII, o laboratório social onde foram forjadas muitas das democracias ocidentais.
***

Comentários